Coisas Que Só Eu Sei - Camilo Castelo Branco

Coisas que Só Eu Sei - Camilo Castelo Branco

Coisas que Só Eu Sei

Camilo Castelo Branco

Trecho do Livro:
Na última noite do Carnaval, que foi justamente aos 8 dias do mês de Fevereiro, do corrente ano, pelas 9 horas e meia da noite entrava no Teatro de S. João, desta heróica e muito nobre e sempre leal cidade, um dominó de cetim. Dera ele os dois primeiros passos no pavimento da plateia, quando um outro dominó de veludo preto veio colocar-se-lhe frente a frente, numa contemplação imóvel. O primeiro demorou-se um pouco a medir as alturas do seu admirador, e virou-lhe as costas com indiferença natural. O segundo, momentos depois, aparecia ao lado do primeiro, com a mesma atenção, com a mesma penetração de vista. Desta vez o dominó-cetim aventurou uma pergunta naquele desgracioso falsete, que todos nós conhecemos : - « Não quer mais do que isso ? » - « Do qu’isso !... » ─ respondeu uma máscara que passava por casualidade, esganiçando-se numa risada que raspava o tímpano. ─ « Olha do qu’isso !... Já vejo que és pulha !... » E retirou-se repetindo ─ « Do qu’isso... do qu’isso... ». Ma o dominó-cetim não sofreu, ao que parecia, a menor contrariedade com esta charivari. E o dominó-veludo nem sequer acompanhou com os olhos o imprudente que viera embaraçar-lhe uma resposta digna da pergunta, fosse ela qual fosse. O cetim (fique assim conhecido para evitarmos palavras e tempo, que é um preciosíssimo cabedal), o cetim, desta vez, encarou com mais alguma reflexão o veludo. Conjecturou suposições fugitivas, que se destruíam mutuamente. O veludo era forçosamente uma mulher. A pequenez do corpo, cuja flexibilidade o dominó não encobria ; a delicadeza da mão, que protestava contra o ardil mentiroso de uma luva larga ; a ponta de verniz, que um descuido, no lançar do pé, denunciara debaixo da fímbria do veludo, este complexo de atributos, quase nunca reunidos em um homem, captaram as sérias atenções do outro, que, incontestavelmente, era um homem.

Sobre o Autor:
Nascido em Lisboa, Camilo Castelo Branco confunde a sua vida atribulada com a própria trama de muitos dos seus enredos ficcionais. A orfandade leva-o a ir viver para Trás-os-Montes, em 1836, ao cuidado de tios que zelam pela sua educação, fazendo-o ingressar no seminário de Vila Real. Não admira, por isso, que venha a ser, mais tarde, prefaciador, tradutor e divulgador de obras de natureza religiosa e apologética.

A sua vida emocional é, desde o início, complicada: casado em primeiras núpcias com uma jovem menina, que viria a morrer na expectativa de voltar a receber o marido nas faldas de Friúme, fica a braços com uma filha de uma segunda relação efémera com D. Patrícia Emília. Não obstante, é a história amorosa partilhada com Ana Plácido, a prisão de ambos na cadeia da Relação e a escrita de Memórias do Cárcere e de Amor de Perdição que dão à sua biografia a feição romântica que o tornou conhecido.

Tentando, sem sucesso nem diligência suficiente, cursar Medicina e, mais tarde, Direito, Camilo viverá sempre da sua pena prolífica e lesta, da ficção, do jornalismo e da crítica literária. Depois de fazer a sua estreia poética em 1845, no ano seguinte escreveu a peça Agostinho de Ceuta. De finais dos anos 40 é também o melodramático folheto Maria! Não Me Mates Que Sou Tua Mãe!.

Todavia, é com o romance Anátema que Camilo alcança o seu primeiro sucesso editorial. Apesar de ser um autor situado no período romântico, o seu amigo e biógrafo, Pe. Sena Freitas dirá mais tarde: “O meu caro amigo Camilo Castelo Branco, querendo provar aos zolistas de Portugal que era capaz de produzir romances envasados nos moldes da nova escola, publicou o seu primeiro livro naturalista Eusébio Macário e, a pouco trecho A Corja, A Brasileira de Prazins, etc.” (Freitas, 2005: 75).

Descrição do livro:
Páginas: 20
Gênero: Ficção
Idioma: Português



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