Poemas de José Luis Hidalgo

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ROMANCE LENTO 

As minhas mãos afagam 
as ilhargas da sombra. 
Desnudo por meus dedos 
deslizou e estremece 
um palpitar longínquo 
de luzes e de névoas. 

Pelo meu corpo sinto 
essa saudade funda 
do silêncio enterrado 
por debaixo das pedras. 

Um soluçar obscuro 
se perde na penumbra 
da tristeza mais fria 
com que a alma inteira sonha... 

O céu irrompe morto 
já por cima da terra. 


TORMENTA

Quis a tarde ainda cantar
uma canção longa e clara,
e amplo suspiro de luz
se lhe morreu na garganta.
Tristes lírios, tão cinzentos,
pelo poente choravam
lágrimas azuis e rubras
por entre as brisas aladas.
Vieram as virgens negras,
povoando o vento de espadas
e o céu se pôs a gemer
prantos obscuros de água.
A tarde ficou sozinha
com as grenhas desatadas,
soltas ao ar todo chumbo
e agora cheio de prata.
Seus músculos, verdes, tersos,
tremiam na solidão
frias perguntas a um ar
de respostas apagadas.

Quis a tarde ainda cantar
uma canção longa e clara
e amplo suspiro de luz
se lhe morreu na garganta.


EU SOU O CENTRO

Já não é possível deter-me
para saber o que retorna.

E vem comigo a terra larga,
e o mar profundo vem comigo,
e comigo vêm os rabanhos
de vagas nuvens que o sol doura,
e vêm as árvores do bosque
que se despertam pela sombra.

Vou desnudo, não digo nada.
Passo entre as rochas devagar.
Meus pés descalços, gravemente,
roçam as águas silenciosas.
Por trás dos montes impassíveis
na aurora pouso minhas solas...

Caminho à frente, e eles seguem
minhas pegadas e as apagam.
Vêm comigo, porque compreendem
que algo celeste me coroa
e que em meu peito Deus plantou
uma semente misteriosa.

Sou o centro – o centro onde tudo
há de voltar em cada coisa.


INVERNO

Quando chego até tua margem,
luz do inverno, tu me desfolhas,
e este amarelo dos meus frutos
sofre desnudo sob a sombra.

Nuvens grandes cruzam o céu,
celestes rochas misteriosas,
enquanto um pássaro abatido
fere a tarde e se desapruma...

É triste a carne, é triste a alma,
e triste a terra escura e rubra.
Por sob as árvores geladas
toda a minha vida é uma boca
que dos sumos já nada sabe
que embriagam sua sede funda.

Posso morrer. Agora sei
como morrem as outras rosas,
como se ocultam sob o nada
todos os ramos das copadas...
Mas minha vida não é o mesmo,
pode ainda dizer certas coisas,
contemplando como os teus dedos,
ó luz do inverno, me desfolham...


PEDRA

Amo teu corpo duro, parado sob o tempo,
que sobre ti transcorre com sua lenta cinza.
Aqui não gemeu nunca essa humana tristeza
que consome seu sangue tal como uma ferida.

Foste sempre só pedra fechada para o mundo,
rocha cega e imutável que não desceu à vida,
gelada, pura e branca, parada entre as idades,
enquanto um mar escuro na tua orla gemia

Roçou a tua fronte doce e tristonho olhar
de renas assombradas fugindo com a brisa,
e teu vulto sem nome espreitaram na noite
os homens das florestas, sob uma chuva lívida.

Também a água quis, teu coração buscando,
por séculos sem conta, te dar sua carícia;
e entre as sombras o fogo cresceu para buscar-te,
e o sol tocou teu corpo com seu ardor fulmíneo.

Por isso é que te adoro, surda forma implacável,
porque existes eterna e, como um deus, nos miras.
Amo-te assim, oh, te amo! Enquanto permaneces,
um astro no alto morre, meu coração delira.


(Traduções de Renato Suttana)

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