'A Hidra de Lerna' - Os 12 Trabalhos de Hércules

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Os 12 Trabalhos de Hércules 

A Hidra de Lerna 

Monteiro Lobato 

1. Os centauros 

Apesar de já de língua de fora, Pedrinho não cessava de admirar a maravilhosa musculatura de Hércules. Já Emília não dava àquilo nenhuma atenção. O que queria era prosa, e sobretudo convencer o herói de ir passar uns tempos no Picapau Amarelo.

– Não há nada de mais nisso - dizia ela. - Até D. Quixote já esteve lá, e bem que dormiu uma soneca na redinha de Dona Benta. Você não vai sentir nenhuma diferença de clima, porque aquilo lá é uma Grécia, do mesmo modo que esta Grécia aqui é o sítio de Dona Benta da antiguidade.

– Mas há lá, então, os mesmos seres que existem por aqui? - perguntou Hércules, sem moderar a marcha.

– Há e não há - respondeu Emília. - Há porque às vezes os mesmos daqui aparecem por lá, como aconteceu com a Quimera. E não há porque... O herói interrompeu-a com cara de espanto.

– A Quimera? Pois esteve lá a Quimera?... Aquele monstro horrível contra o qual lutou Belerofonte?...

– Isso mesmo - confirmou Emília. - Foi vencida por Belerofonte, o qual, entretanto, não a matou bem matada. A Quimera sarou e virou um verdadeiro monstro doméstico. Ele tem dó dela, coitada, e guarda-a no quintal, como faz o tio Barnabé com aquele burro velho. Já não sai fogo de sua boca, só uma fumacinha de vulcão extinto.

– E como foi a Quimera parar lá? quis saber Hércules, ainda admirado de tamanho prodígio.

–  Ah, isso aconteceu quando todos os personagens do Mundo das Fábulas resolveram mudar-se para as "Terras Novas", isto é, as fazendas vizinhas que Dona Benta comprou especialmente para acomodá-los - e Emília desfiou o principal das aventuras contadas no "O Picapau Amarelo."

Hércules gostou muito do pedacinho em que Sancho aparece no palácio do Príncipe Codadade, em busca de remédios para as machucaduras de seu amo D. Quixote, o qual havia tido um encontro com a hidra de Lerna. Riu-se com desprezo. Não há maior desprezo do que o dos heróis antigos para com os heróis modernos.

– Atacar a hidra de Lerna, ah, ah... É que ele não sabe que esse monstro de nove cabeças tem uma imortal. Homem nenhum poderá destruí-la - e muito receio que Euristeu me imponha como Segundo Trabalho uma luta contra a hidra de Lerna...

Depois, voltando a D. Quixote, riu-se de novo, ah, ah, ah...

– Com aquele espeto comprido que ele usa quando monta em Rocinante. Rocinante é o cavalo dele - magro como um cambau.

O Visconde, lá do outro ombro, cochichou ao ouvido de Hércules que o tal espeto comprido era uma lança.

– Sim, uma lança - repetiu o herói. - Chega a ser irrisório! Mas se esse tal herói saiu da luta apenas machucado, então é que a hidra nem sequer lhe deu a honra de atacá-lo com uma das suas nove cabeças - limitou-se a dar-lhe duas ou três chicotadas com a ponta da cauda. Ah, ah, ah... A risada de Hércules encheu Pedrinho de curiosidade. "Que será que estão conversando?" Ele não agüentava mais a carreirinha no trote. Sentia-se frouxo. Criou coragem e gritou:

– Senhor Hércules! Pare um bocadinho. Preciso descansar uns minutos... O herói parou, virou o rosto e deu com o seu oficial de gabinete lá atrás. Riu-se e, como tivesse muito bom coração, atendeu ao pedido, do menino quase sem fôlego. Ficou a esperá-lo.

– O meu oficial está frouxo - murmurou. - Muito pequeno para me acompanhar. Mas com paradas assim, quando chegaremos a Micenas? Vamos lá, senhora dadeira de ideias. Dê uma ideia que resolva este problema.

Emília tinha mais ideias na cabeça do que um cachorro magro tem pulgas no pelo. Resolveu o caso num ápice.

– O jeito que vejo é um, um só, amigo Hércules: arranjar para Pedrinho um cavalo, porque a pé já vi que não nos acompanha. Se está de língua de fora no comecinho das nossas aventuras, imagine no fim...

Depois teve uma ideia melhor ainda.

– Cavalo, não, Hércules. Um centauro!... Pedrinho a nos acompanhar montado num centauro, haverá coisa mais linda?

Hércules sorriu.

– Os centauros são monstros indomáveis. Já lutei contra eles e sei.

– Um potrinho de centauro - sugeriu Emília. A ideia abalou Hércules. Sim, um potrinho de centauro talvez fosse amansável.. Ele jamais pensara nisso nem ninguém ali na Grécia.

– Podemos tentar, não há dúvida. Aqui perto fica a querência duma manada de centauros. Se entre eles houver um bom potrinho, podemos laçá-lo e experimentar o amansamento. Estavam nesse ponto quando Pedrinho os alcançou.

– Uf! - foi exclamando, enquanto se sentava numa pedra. - Estou a botar os bofes pela boca...

– Mas o remédio está achado, Pedrinho - disse Emília lá de cima do ombro do herói. - Hércules vai arranjar para você um centauro...

Pedrinho arregalou os olhos.

– Um centauro? Eu lá agüento andar montado num desses monstros?

– Um centauro filhote, Pedrinho. Um potrinho de centauro...

O rosto do menino iluminou-se. Se era um potrinho, então podia ser viável - e que gosto o seu, quando de volta ao século 20 pudesse contar a todo mundo que a sua montaria lá na Grécia fora um potrinho de centauro! A inveja do Jojoca e dos outros. As suas entrevistas aos jornais...

– E onde encontraremos isso?

– Por aqui mesmo - respondeu Hércules. - Eu estava contando à dadeira de ideias que fica por estas paragens a querência dum pequeno bando de centauros. Muito provável que haja entre eles algum novinho...

Disse e também se sentou em outra pedra ao lado de Pedrinho, apeando Emília e o Visconde. A ex-boneca não cabia em si de tanta importância. A sua última ideia aumentara muito a consideração em que o herói já a tinha. "Dadeira de ideias", sim, e das boas... Restava descobrir em que rumo ficava a tal querência. O Visconde aproveitou o ensejo para mostrar a sua ciência filológica.

– Querência! - exclamou. - Gosto muito desta palavra. É como lá onde moro os campeiros denominam os lugares onde os animais nascem e passam os primeiros anos. Ficam querendo bem a esses lugares, e se um campeiro os leva para longe e solta-os, eles vêm correndo para ali. É uma palavra que vem do verbo querer...

 Mas Hércules não queria gramática, queria descobrir o ponto de reunião dos centauros, e para isso ergueu-se e pôs-se a sondar os horizontes. Seu nariz farejava. Depois disse, apontando em certa direção:

– Deve ser deste lado...

– Como sabe? - perguntou Emília.

– Saber propriamente não sei, mas sinto, tenho um palpite que é neste rumo - e apontou.

– E são bons os seus palpites, Senhor Hércules? Lá em casa a palpiteira-mor é tia Nastácia. Outro dia teve um palpite na Vaca e jogou dois cruzeiros. Quase acertou. Deu o Touro - pertinho... Hércules não entendeu, porque na Grécia só havia os Jogos Olímpicos, não havia o Jogo do Bicho.

– Pois então vamos para lá - propôs Pedrinho já ansioso por ver-se montado num potro de centauro. Foram. A um quilômetro de distância Hércules entreparou e aspirou o ar, como faz um cachorro perdigueiro.

– Bom - disse ele. - Estamos perto. Vou deixar vocês ocultos aqui nesta moita para que não me atrapalhem no lançamento do potrinho.

Mas... e laço? Como arranjar um laço? Não havia laço por ali nem sequer cipó - e Hércules ficou sem saber como agir. Estava acostumado a atacar centauros com suas flechas e mesmo com a clava, mas agora tinha de apanhar um vivo - e como, sem laço? Hércules olhou para Emília com ar de quem diz: "Vamos, dê uma ideia." Mas dessa vez quem deu a ideia foi Pedrinho

– Nada mais fácil - disse ele. - Lá nos pampas os gaúchos pegam os animais de dois jeitos: com laço ou com bolas...

– Que é isso de bolas? - quis saber o herói.

– Ah, é uma esperteza das boas. Eles arranjam três bolas bem rijas, aí do tamanho de laranjas, e as prendem a uma correia de certo comprimento; depois juntam as três correias pela outra ponta, num nó.

– Mas como é que com isso podem pegar cavalo?

– Muito simples. Eles correm atrás dos cavalos bravos e quando chegam a certa distância giram no ar as três correias com bolas e arremessam aquilo de encontro às pernas dos animais. As bolas vão regirando pelo ar e ao darem de encontro às pernas traseiras dos cavalos, enrolam-se - eles perdem o equilíbrio e caem.

Hércules admirou-se muito da esperteza. Bem razoável, sim. Mas como arranjar três bolas? Pedrinho resolveu o problema.

– Três pedras mais ou menos redondas servem - e aqui há muitas. Vou escolhê-las. Num instante descobriu três pedras arredondadas, assim do tamanho de laranjas. Voltou correndo.

– Estas servem, e correia temos a da canastrinha da Emília.

Hércules encarregou-o de fazer as "bolas" - e em quinze minutos Pedrinho deu conta do recado. Ficou um jogo de bolas bem tosco, mas servia. Depois fez uma demonstração do manejo daquilo. Regirou as bolas no ar e projetou-as de encontro a duas varas fincadas a certa distância. As bolas bateram nas varas e enrolaram-se nelas.

– Está vendo? - disse o menino radiante. - Se em vez de varas fossem as pernas do centaurinho na corrida, ele perdia o equilíbrio e vinha ao chão. Entendeu?

Apesar de burrão, Hércules entendeu perfeitamente; e chegou a dizer que se saísse bem com as bolas no caso do centaurinho, ia adotar o sistema. Além do arco e da clava, levaria também consigo um bom jogo de bolas sempre que saísse para aventuras.

– Faça uma prova, Senhor Hércules - propôs Emília. - Aprenda a calcular bem a força.

Hércules fez. Tomou as bolas, regirou-as no ar como vira o menino fazer e arremessou-as de encontro às duas varas. Mas foi um desastre. As duas varas foram arrancadas do chão e sumiram-se ao longe, arrastadas pela violência do impacto.

– Sua força é grande demais, Senhor Hércules - disse Emília. - Tem que lançá-las só com uma forcinha...

O herói repetiu a experiência e por fim acertou o "ponto de bala" da força.

– Ótimo! - disse ele. - Agora me vou. Fiquem aqui bem quietinhos, que não me demorarei.

E Hércules partiu no rumo da querência dos centauros, com as bolas ao ombro. O Visconde filosofou que o laço de laçar animais, as bolas de embolá-los, as armadilhas de apanhá-los vivos, tudo são produtos da inteligência em sua luta contra a força bronca. A força não tem esperteza, é burríssima, e por isso acaba sempre vencida pela esperteza da inteligência. Emília assanhou-se toda. Esperteza e inteligência eram com ela.

– Sei disso, Visconde. Depois que domei o Quindim e agora tomei conta deste Hércules, estou mais convencida que a verdadeira força é a cá do miolinho...

Conversaram mil coisas. O sabugo informou que a segunda aventura de Hércules ia ser o pega com a hidra de Lerna, façanha a que eles já haviam assistido.

– Valerá a pena repetir?

– Para mim, não - disse Emília. - É coisa vista e já contada. Podemos acompanhar o Senhor Hércules até Lerna, e lá, enquanto ele mata a Hidra, nós nos divertiremos com qualquer coisa que houver.

E assim ficou assentado. Uma hora passaram ali dentro da moita, projetando isto e mais aquilo. Pedrinho aproveitou a pausa para uma soneca. Súbito, um rumor estranho. Correram para fora. Olharam. Lá longe vinha vindo Hércules atracado a um centaurinho. Ah, bem que ele pinoteava e corcoveava, mas que animal naqueles mundos jamais escapou das unhas do herói? Pedrinho suspirou.

– Se é bravo assim aquele potro, não sei o que será de mim... Só se eu aplicar a peia...

Ele chamava assim uma correia atada às duas patas traseiras dos cavalos de modo a impedi-los de disparar. A peia embaraça o livre jogo das pernas. Hércules chegou, rindo-se.

– Deu tudo certo - disse ele. - Encontrei um bando de oito centauros, com este potrinho no meio. Fui me aproximando agachado, de modo que não me percebessem. Quando me vi a boa distância para lançar as bolas, ergui-me de repente e volteei-as rápido no ar. Os monstros assustaram-se e fugiram num galope louco. O potrinho, como o mais fraco, galopava na rabeira. Eu, zás! Lancei as bolas com o mínimo de força possível. As bolas assobiaram no ar e pegaram-no pelas pernas. O pobre animalzinho levou o maior tombo de sua vida. Rebolou pelo chão como se estivesse virando cambalhotas. Os outros sumiram-se ao longe, enquanto eu alcançava este antes que tivesse tempo de desembaraçar as patas. E agarrei-o. Cá está a sua montaria, Pedrinho.

– Temos que lhe aplicar a peia disse Emília. Hércules ignorava o que fosse. Pedrinho explicou e aplicou o sistema. Apesar dos valentes coices do potro, conseguiu pear-lhe as patas traseiras, de modo a deixá-lo sem movimentos livres.

– Pronto, Senhor Hércules! - gritou o menino depois de acabado o serviço. Pode soltá-lo.

– E se fugir?

– Não foge, não. No primeiro tranco que der para fugir, cai por terra, do mesmo modo que quando foi embolado.

Hércules afrouxou o braço. O centaurinho desembaraçou a cabeça e, supondo-se livre, deu um arranco para escapar no galope. Ah, quem disse? Saiu tudo exatinho como o menino previra. A peia agiu que nem de encomenda, e o potrinho rolou no chão, vencido. Ergueu-se, fez nova tentativa para escapar no galope e foi novo tombo. Terceira tentativa, terceiro tombo. E como já estivesse exausto de tanta luta, sossegou. Depois de descansar uns instantes, respirando ofegantemente, o potrinho ainda fez duas ou três tentativas de fuga mas os novos tombos que caiu fizeram-no compreender que era tudo inútil. Estava vencido...

– Pode montar - gritou Hércules.

Ainda com medo, o menino aproximou-se do centauro. Fez uma tentativa para saltar-lhe sobre o lombo mas o potro refugou, fugiu com o corpo e Pedrinho caiu.

– Coragem! - gritou Hércules. Tente de novo - e foi agarrar o rebelde pelo pescoço. Dessa vez o menino conseguiu montar.

– Posso largá-lo? - perguntou Hércules, que ainda o conservava preso pela cintura.

– Pode! - respondeu Pedrinho corajosamente, e Hércules largou-o. Ah, os pinotes que o animalzinho deu, os corcovos e as novas quedas! Mas Pedrinho era um verdadeiro domador de cavalo bravo. Tanto se havia exercitado lá no sítio com o pangaré e outros animais novos, que ficou em cima do centauro que nem um carrapato.

– Agüenta, Pedrinho! - gritava Emília entusiasmada. - Mostre para esse bobo que em outra vida você já foi cowboy de cinema.

Até o Visconde, sempre tão calmo e científico, se entusiasmou. Batia palmas, dançava. Os centauros são homens e cavalos ao mesmo tempo, e como têm a parte dianteira homem, com cabeça, peito e braços de homem, pensam e sentem como os homens. E falam. O centaurinho, convencido de que fora domado, aquietou-se e falou. Perguntou porque lhe faziam aquilo. Emília explicou tudo tão bem explicado e fez-lhe tais e tais promessas, que ele não só sossegou como até chegou a sorrir.

– Pois é isso - concluiu ela radiante. - Podemos te levar lá para o sítio: Já temos o rinoceronte e o Burro Falante e a Vaca Mocha. E vai ver o que é vida boa, meu amor! A gente brinca de tudo, até de viagem ao céu.

Daí a pouco estavam mais camaradas do que se tivessem nascido juntos. Hércules não voltava a si do espanto. Que prodígios eram aquelas três criaturas do tal século 20! Tinham ideias melhores que todas as ideias da Grécia. Resolviam problemas dos mais complicados. Chegavam até a realizar prodígios ainda maiores que as suas façanhas. Domesticar um potrinho de centauro!... Quem na Grécia Heróica jamais pensara nisso? E seus olhos não se despregavam do maravilhoso quadro: Pedrinho, Emília e o Visconde brincando com o centaurinho - brincando, como as crianças brincam de corre-corre, esconde-esconde, chicote-queimado...

2. Em Micenas

A viagem dali para Micenas foi um regalo. Estava resolvido o problema do transporte não só de Pedrinho como dos outros dois e da canastra. Todos e tudo no lombo daquele novo amigo conquistado graças às excelentes ideias de Pedrinho e tão bem engambelado pelas lábias da Emília. Até o Visconde, que nunca havia brincado por causa da sua gravidade de sábio, resolvera brincar também - e brincava muito desajeitadamente, mas com grande prazer. Emília cochichou para Pedrinho:

– Veja o milagre! O nosso Visconde era um verdadeiro caixão de defunto, de tão sério - parecia até o Burro Falante, que jamais brincou em toda a sua vida. Agora está até bobo, a fazer coisas de palhaço...

Depois de muito caminhar, avistaram ao longe uma cidade.

– Micenas! - exclamou Hércules. Lá mora o Rei Euristeu. Vamos todos juntos ao palácio ou vou eu só?

– Todos juntos! - berrou Emília lá de cima do centauro. - Quero ver a cara desse malvado.

– Por que malvado? - perguntou Hércules.

O bom Hércules nada sabia da terrível trama contra ele cozinhada entre os deuses do Olimpo. Fora por instigação de Hera que o Oráculo de Delfos o mandou dirigir-se para Micenas, quando, depois da sua loucura assassina, o herói pensou em castigar-se com o desterro. A razão era a seguinte. Euristeu viera ao mundo antes de Hércules, e Hera havia pedido a Zeus que concedesse ao futuro rei uma graça, qual a de "dominar a todos os seus vizinhos." Como Hércules fosse nascer logo depois nas proximidades de Micenas, tinha de ficar submetido a Euristeu, e isso por um decreto do Deus Supremo - decreto que nem esse próprio Deus Supremo podia revogar. A tramóia de Hera deu certo. Embora fosse o tremendíssimo herói que sabemos, tinha o pobre Hércules de ficar sempre submetido a Euristeu. E o rei títere vivia lhe ordenando que executasse tais e tais trabalhos, escolhidos entre os mais perigosos, para que de um momento para outro ele acabasse vencido e destruído. O primeiro trabalho de que Euristeu encarregou Hércules foi o que já vimos: ir à Nemeia e dar cabo do leão da lua. Se por acaso Hércules voltasse com vida, Euristeu o encarregaria de outro ainda mais perigoso - e assim até dar cabo dele. Tudo por instigação da ciumenta Hera... Os pica-pauzinhos sabiam disso, porque eram do século 20, mas Hércules tudo ignorava e, portanto, nada suspeitava daquela conspiração.

A entrada dos expedicionários em Micenas foi o maior acontecimento jamais ocorrido naquela cidade: Hércules na frente e um centaurinho muito risonho atrás, com três criaturas no lombo - uma compreensível: um menino, embora vestido exoticamente; e duas incompreensíveis: uma miniatura de menina, aí de três palmos de altura; e uma "aranha de cartola." Como naquele tempo não houvesse milho, já que o milho é originário da América e só seria conhecido na Europa depois de Cristóvão Colombo, ninguém podia adivinhar que o corpo de tal aranha não passava de um sabugo de espiga de milho. A notícia correu e o ajuntamento nas ruas foi se tornando cada vez maior. Nas proximidades do palácio, os expedicionários tiveram de abrir caminho na multidão. O Rei Euristeu ficou desapontadíssimo com a volta do herói, pois estava mais que certo de sua morte. Se o Leão da Nemeia era invulnerável, como poderia alguém escapar-lhe das unhas?

– Sim, Majestade - disse Hércules. Matei-o, sim. Matei o Leão da Nemeia... Euristeu sofismou.

– E que provas me dá disso? Trouxe a pele do leão?

– Eu ia trazer - respondeu Hércules - mas "eles" acharam melhor que eu a deixasse num curtidor.

– Eles quem? - berrou o rei, mal dominando a sua cólera, filha do despeito.

– O meu oficial de gabinete, a Emília "dadeira de ideias" e o meu escudeiro Sabugosa... O rei nada entendeu e ainda mais colérico ficou. E quase estourou quando Hércules fez a apresentação dos três pica-pauzinhos.

– Aqui estão eles - Pedrinho, Emília e o Visconde...

Os cortesãos aproximaram-se do rei e deram-lhe chá de erva-cidreira. Euristeu sossegou um pouco mais.

– Mas a pele? Quero saber da pele. Faço questão de ver a pele.

– Verá, Majestade - respondeu Hércules com a maior paciência - mas só depois de curtida. Já determinei ao meu escudeiro que fosse buscá-la no curtidor, lá perto da Nemeia, quando estiver pronta. Coisa de pouco tempo.

Emília resolveu meter o bedelho.

– Majestade - disse espevitadamente como era seu costume - não é só a pele que mostra que um leão foi morto as garras também... O rei ficou na mesma. Emília continuou: - Eu trouxe em minha canastra de viagem três unhas desse leão. E voltando-se para o Visconde: "Vá buscar minha canastrinha." O Visconde foi e voltou com a canastrinha às costas, bufando. Emília abriu-a, tirou as três unhas do leão e apresentou-as ao rei.

– Unhas de leão, isto? - exclamou o estúpido soberano. -Esporas de galo velho, isso sim. Não me enganam, não. Quero a pele.

Hércules conformou-se e prometeu apresentar-lhe a pele dentro de alguns dias. Apesar de toda a sua má vontade, Euristeu foi obrigado a concordar. Deixando o palácio, tratou Hércules de acomodar-se em Micenas. Como o curtimento duma pele leva dias, ele era forçado a ficar por ali matando o tempo. Emília teve uma ideia.

– Enquanto estamos parados, podemos fazer uma coisa: um circo de cavalinhos! Hércules levantará pesos incríveis e entortará barras de ferro. O centaurinho poderá fazer muita coisa, pular arcos, dar coices, além de que só sua presença já é um acontecimento. Esta cidade nunca viu nem sombra de centauro. Mas Pedrinho achou bobagem pensarem tal coisa. Um herói como Hércules prestar-se a exibir-se como hércules de feira!

– O bom é irmos esperar num campo aberto. Isto de cidades não serve para Hércules. Ele não cabe nelas, fica desajeitado, sem movimentos... Tem que hospedar-se numa hospedaria como todo mundo. Na hora do jantar como é? Vêm umas comidinhas para a mesa, que não lhe chegam nem para a cova dum dente. Não me saem da lembrança os carneiros assados que ele comeu no olival. Três, Emília, três!...

– Pois vou sugerir-lhe a sua ideia, Pedrinho: irmos acampar longe da cidade, num ponto onde haja rebanhos. E também vou lhe dizer uma coisa: que quem come com tamanha fúria, tem que pagar. Isso de correr mundo sem dinheiro no bolso não está certo. No olival você teve muita sorte: pagou os carneiros com o canivete - mas agora? Você não pode andar dando tudo o que tem para pagar o que o heroísmo come.

Hércules tinha saído para acomodar o centaurinho numa estrebaria. Pouco depois voltou. Emília fez-lhe "gesto de subir" - ou de ser subida ao seu ombro. Era assim que conversava com o tremendo herói, bem pertinho de seus ouvidos.

– Hércules - disse ao ver-se lá em cima. - Não podemos ficar nesta cidade. Não há espaço para você, não há carneiros para assar, o centaurinho vai ficar triste. Melhor irmos para um campo. Ar livre. Horizontes. Olivais. Carneirada. Rios para banho...

– Era no que eu estava pensando - respondeu Hércules. - Não me ajeito em cidades. Nunca me ajeitei. Não posso pôr os pés na rua sem que comece a juntar-se gente. Tenho medo de que de súbito me venha algum acesso de cólera e eu os arrase...

Outro ponto sobre que discutiram foi a conveniência de mandarem o Visconde para o olival.

– Ele que fique lá aguardando o aprontamento da pele.

– E vai montado no centaurinho?

– Oh, não! - exclamou Emília. Por coisa nenhuma no mundo Pedrinho entregaria o potro ao Visconde. Ele é sábio, Hércules, e os sábios são péssimos cavaleiros. Caía logo e adeus, potro! Meioameio está muito nosso camarada, mas...

– Meioameio? - interrompeu Hércules sem entender.

– Sim, foi como batizei o potrinho. Está nosso camarada, mas de repente vem a saudade da vida livre e bota-se.

– Mas se não vai no centauro, o escudeirinho tem de ir a pé - e a pé leva um ano para chegar lá.

– A pé, sim - concordou Emília - a pé ele levará um ano para chegar ao olival. Mas a pó? Hércules não entendeu.

– A pó?

– Sim. Se em vez de ir a pé, ele for a pó de pirlimpimpim? O Visconde traz consigo na cintura um canudo desse pó. Conforme o tamanho da pitada, o pó leva a gente para mais perto ou mais longe - e num instante. É zás, trás - pronto! A maior maravilha moderna é o nosso pó de pirlimpimpim. Quer ver? - e Emília chamou pelo Visconde.

– Escute aqui, sabinho. Resolvemos que você vá esperar o curtimento da pele lá no olival e que parta imediatamente.

– No centauro? - perguntou o Visconde. Emília deu uma gargalhada.

– Isso é o que você quer, maroto, para ir brincando pelo caminho - mas pensa que o Encerrabodes deixa?

– Mas se eu não for no centaurinho, não poderei trazer a pele...

– Ora não pode! Nunca vi coisa mais simples. Basta vestir a pele num carneiro grande e esfregar uma pitada de pó de pirlimpimpim no nariz dele - o carneiro vem chispando, com a pele de que está vestido e ainda com você montado. E aqui chegando, Hércules come o carneiro.

O rostinho do Visconde iluminou-se. A solução pareceu-lhe maravilhosa. Emília ainda fez várias recomendações e saiu com o Visconde a fim de ver nas lojas um presentinho para o pastor. De volta disse a Hércules, referindo-se ao pó:

– Repare como isto chispa. O Visconde tirou da cintura o canudinho de pó, tomou uma pitada e um, dois... TRÊS! Desapareceu como por encanto.

3. O Visconde desgarra-se

Ninguém notou o seguinte: quando o Visconde cantou o TRÊS e ia aspirando a pitadinha de pó, Emília, sem querer, esbarrou nele, fazendo que uns grãos de pó caíssem por terra. Coisa das mais insignificantes, que nem Emília nem Visconde perceberam - mas, bastou para que o Visconde, em vez de ir acordar no olival, fosse acordar em ponto muito diferente: em Serifo, um lugar que ele nem sabia onde era, e acordou bem em cima do telhado dum palácio. Foi isso uma grande sorte, pois se caísse numa rua seria fatalmente caçado e levado para algum jardim zoológico. Todos ali na Grécia o achavam com muito jeito de aranha. Mas havendo, sem que ninguém o visse, aterrissado naquele teto, estava salvo - e se aspirasse uma pitadinha mais bem calculada iria parar no olival. Aconteceu, porém, uma coisa extraordinária. O Visconde era um sábio, e os sábios gostam de saber. Quis logo saber que telhado era aquele e quem morava no palácio. Algum rei? O Visconde já de algum tempo andava transformado. Mudara muito. Perdera a casmurrice antiga, ria-se, dizia graças - e chegou até a dançar de contentamento - coisa que deixou Emília muito apreensiva. Pois essa mudança no Visconde estava se revelando também ali no telhado. Em vez de tirar da cintura o canudo de pó e tomar a pitadinha que o levasse ao olival, só pensava numa coisa: levantar uma telha, esgueirar-se para o forro da casa e lá de cima espiar o que pudesse. Quanto à ida ao olival em busca da pele do leão, nisso nem pensou. Visconde teve de fazer muita força para recuar uma das telhas. Suou para o conseguir. E passando pela fresta entrou no forro do palácio. Tudo bastante escuro ali, naquele intervalo entre as telha do telhado e o forro propriamente dito. Mesmo assim encontrou várias rachinhas, pelas quais podia espiar o que se passasse lá dentro. Era o palácio do Rei Polidectes, o qual se achava celebrando um banquete por motivo de seu noivado com Hipodâmia. Nessa festa reuniam-se os principais chefes guerreiros do país e vários heróis entre estes o grande Perseu. Estavam à mesa do banquete, muito alegres e rumorosos, já bastante bêbados. Em dado momento Perseu perguntou ao rei que presente desejava receber de todos eles. 

– "Cavalos!" - respondeu Polidectes.

– "Posso até presenteá-lo com a cabeça da Medusa!" - exclamou Perseu, já perturbado pelos vinhos. - Dar um cavalo é pouco para mim.

Todos riram-se de tamanha basófia, porque a tal Medusa era o horror dos horrores. Mas ficaram sérios e com dó de Perseu quando o rei disse: "Pois bem. Traga-me a cabeça da Medusa, em vez dum cavalo."

A Medusa era uma Górgona! Só mesmo na Grécia poderia aparecer uma coisa assim. O Visconde sabia da história das Górgonas e pôs-se a recordar.

Eram três irmãs: Esteno, Euriale e Medusa. As duas primeiras tinham propriedades divinas: não estavam sujeitas à velhice nem à morte. Mas Medusa era mortal. E que feia, que horrenda megera! Tinha o rosto sempre convulso pela cólera e a fazer esgares. Os cabelos eram fios de bronze entrelaçados de serpentes coleantes. Nariz chato, dentes de porco, alvissimos, e uns olhos muito redondos, que chispavam relâmpagos. Negra. Vivia a lançar gritos - e eram os mais terríveis e espantosos gritos da antiguidade. E ainda tinha asas e braços de bronze. O pior da Medusa, porém, era o seu poder de reduzir a pedra todas as criaturas em que fixasse os olhos. Impossível monstro mais hediondo e mais perigoso porque com um simples olhar petrificava à distância qualquer herói que pretendesse atacá-la.

O banquete correu na maior animação até tarde da noite e por fim começaram a dispersar-se. O Visconde pensou lá consigo: "Perseu vai ver se traz a cabeça da Medusa e eu posso assistir a essa façanha" - e tratou de sair para a rua. Como não houvesse iluminação de lampiões naqueles tempos, o Visconde podia andar desembaraçadamente pela cidade, sem medo de que o descobrissem e pusessem num museu. Os últimos convidados iam saindo, e entre eles o herói. O Visconde tinha de acompanhá-lo de longe, mas como, assim no escuro? Em resposta às suas dificuldades, a nuvem que tapava a lua se esgarçou e caiu sobre a terra um lindo luar. O Visconde pôs-se a seguir o herói. Perseu caminhava de cabeça baixa, como quem está imerso em profunda cisma. Foi andando até sair da cidade, e encaminhou-se para uma praia ali perto. O reino de Serifo era numa ilha. Lá na praia sentou-se nuns arrecifes, com a cabeça entre as mãos. Num momento de entusiasmo alcoólico fora fazer aquela bravata e agora arcava com as conseqüências: tinha de levar ao Rei Polidectes a cabeça da Medusa... Mas como, se Medusa petrificava com o olhar quem dela se aproximava? Tudo isto o Visconde, escondido ali atrás dele lhe ia lendo na expressão do rosto e nas palavras que de vez em quando lhe escapavam da boca. E estava nisso quando, de repente, surge Hermes ou Mercúrio. Hermes era o mensageiro dos deuses, o leva-e-traz.

– Que é que o põe triste assim, Perseu? - perguntou Hermes. O herói contou a sua desgraça.

– Num banquete a nós oferecido perguntamos a Polidectes que presentes queria receber. "Cavalos" - foi sua resposta – eu, já toldado pelo vinho, prometi, sabe o quê? A cabeça da Medusa...

Hermes animou-o.

– Para tudo há jeito, Perseu. Vou ajudá-lo, e farei que lá no Olimpo a deusa Palas também o ajude. Palas é sua amiga. E sentando-se ao lado do herói, começou a formular um plano.

– Escute. Há as Greas, também filhas de Forcis, como as Górgonas. São três: Penfredo, Ênio e Dero, e as três só possuem um dente e um olho, dos quais se servem cada uma por sua vez. Você tem de ir procurá-las; e no momento em que uma for passando o olho para outra, tem de agarrá-lo, bem agarrado. Elas vão ficar na maior ânsia para que lhes seja restituída aquela preciosidade - e então você impõe condições.

– Que condições devo impor, Hermes?

– Basta uma. Que indiquem o caminho que leva à mansão das ninfas possuidoras dos objetos necessários para a vitória sobre a Medusa.

– Quais são esses objetos?

– A coifa de Hades que torna invisível quem a põe na cabeça; umas sandálias de asas e um surrão.

– Para que esse surrão?

– É um surrão próprio para conduzir a cabeça da Medusa depois de cortada. Faça tudo como digo, que irá cobrir-se de fama com um dos feitos mais prodigiosos destes tempos.

O Visconde tudo via e ouvia. Prestou muita atenção na vestimenta do mensageiro dos deuses, que já conhecia daquela vez em que com Pedrinho e Emília penetrou no Olimpo. Hermes usava asas no calçado, para andar bem depressa. Mensageiro vagaroso não vale nada. Bom. Hermes não tinha mais nada a fazer ali. Despediu-se e lá se foi, veloz como um patinador. Perseu estava radiante. Nunca um socorro divino chegara tão no momento. E, levantando-se da pedra, pôs-se a caminho rumo à morada das três Greas. O Visconde seguia-o rente - e teve de fazer prodígios para acompanhá-lo. Enquanto Perseu dava uma passada o sabugo tinha de dar oito. Por felicidade o herói não mostrava pressa nenhuma - ia caminhando vagarosamente. Afinal chegaram. As Greas estavam na sala examinando um ponto de tricô. Enquanto uma o via com o olho único da casa, as outras esperavam a vez, completamente cegas. Depois o tricô mudava de mãos e o olho também e assim as três se arrumavam para enxergar. Perseu entrou e apresentou-se - e enquanto uma o via com o olho único, as outras demonstravam a maior sofreguidão para receber o olho e vê-lo também. "Dá cá o olho! Dá cá o olho!" diziam as duas cegas, espichando as mãos para pegar a preciosidade. Outra mão também espichou - e quando a que estivera usando o olho tirou-o da órbita e estendeu-o para as irmãs, quem o apanhou foi Perseu. O "fecha" foi tremendo. Gritaria histérica. Desmaios. Todas falavam a um tempo e ninguém se entendia. Por fim o herói conseguiu tomar a palavra.

– Escutem, tontas! Vou restituir o olho. Para que quero este olho se tenho dois? Está claro que vou restituí-lo - mas só se me ensinarem o caminho da mansão das ninfas...

– As que guardam os objetos necessários para a vitória sobre a Medusa? perguntaram as três ao mesmo tempo.

– Sim - respondeu Perseu.

Elas relutaram. Acharam que era traição. Perseu procurou convencê-las. Disse que a Medusa era um monstro que já havia feito a desgraça de muita gente. Se ele conseguisse cortar-lhe a cabeça, era um grande bem para o mundo. As três Greas conferenciaram entre si, aos cochichos e por fim concordaram.

– Pois não há dúvida. Vamos revelar o caminho para a mansão de tais ninfas e você nos restituirá o nosso olho.

– Fechado! - exclamou Perseu.

E assim foi. Elas ensinaram-lhe o caminho e ele lhes restituiu o olho preciosíssimo. O Visconde, atrás da porta, tudo via e ouvia.

4. A cabeça de Medusa

Nas aventuras heroicas é o mesmo que na vida comum moderna. O meio de conseguir qualquer coisa é descobrir o jeito. Medusa abusava do seu poder porque até então só heróis pouco espertos tinham ido combatê-la. Atacavam-na como se atacassem uma fera qualquer - e iam ficando reduzidos a estátuas de pedra. Com Perseu não ia ser assim, porque aprendera o jeito certo e único. O caminho para a mansão de tais ninfas era dos mais complicados. Tornava por ali, virava acolá, torcia à esquerda, agora à direita. Só mesmo seguindo um roteiro escrito como o que as Greas haviam dado a Perseu. Afinal o herói chegou e pediu as três coisas. As ninfas não opuseram a menor resistência. Parece que tinham ordem de entregar aquilo ao primeiro que alcançasse chegar até lá. O Visconde, sempre rente, espiando tudo, com muitas cautelas para não ser visto. Medo do jardim zoológico... A lua estava quase no fim de seu curso. Mais uns momentos e o sol a substituiria no céu - coisa que para o Visconde era o diabo. Vinha daí o seu interesse em que o herói concluísse a aventura da Górgona antes do amanhecer. E lá ia ele trotando atrás do herói já na posse dos três preciosos objetos. Não ficava muito longe a casa ou o antro de Medusa. Anda que anda, trota que trota, chegaram. Perseu espiou. Medusa estava dormindo despreocupadamente. Que horrenda era!

Apesar de valoroso, o Visconde sentiu-se de pernas bambas. Teve de agarrar-se à parede. Perseu foi entrando com as maiores cautelas, apesar de ter na cabeça a coifa que o invisibilizava. Quando chegou à distância própria, tirou a faca da cintura e com um golpe de mestre decepou a cabeça do monstro. Em seguida meteu-a no surrão. Pronto! Estava realizada uma das maiores façanhas da antiguidade. O Visconde teve ensejo de ver bem como era a tal famosa cabeça da Medusa. Os olhos não viu, porque ela os tinha fechados: morrera dormindo. Mas viu-lhe os cabelos de bronze entremeados de cobras. Era um verdadeiro ninho de cobras, das quais só apareciam a cabeça e metade do corpo. As caudas ficavam inseridas no couro cabeludo, como raiz de cabelo. Horrendo, horrendo...

Quando Perseu deixou o antro da Górgona decapitada, os dedos cor-de-rosa da aurora começavam a anunciar a vinda do sol. O Visconde pôs o dedo na testa.

– Inútil continuar acompanhando este herói - refletiu consigo - Já vi o principal. O resto vai ser a entrega da cabeça da Medusa ao rei, o qual ficará com cara de bobo, admiradíssimo da façanha de Perseu. Não preciso ver mais.

E assim pensando, tirou da cintura o canudinho de pó de pirlimpimpim e mediu na palma da mão a dose necessária para ir dali ao olival. Feito o que, aspirou-o - e pronto! Foi aterrissar diante da casinha. O pastor guardava as ovelhas lá no pasto, e tocava a mesma flauta daquele dia. O Visconde encaminhou-se para ele. Quando ia chegando, o cachorro o percebeu e pôs-se, com os pelos do dorso arrepiados, a recuar, e a rosnar na linguagem do "medo ao desconhecido", própria dos cães. O pastorzinho olhou.

– Oh, a aranha de cartola por aqui outra vez? Que veio fazer?

– Ver se a pele do leão já está pronta. Hércules tem de apresentá-la ao rei como prova de que, de fato, matou o leão. Do contrário o rei não acredita.

– Pronta? - exclamou o pastorzinho. - Você pensa que isto de curtir uma pele grossa como a dos leões é coisa que se faça assim do pé para a mão? Leva tempo, meu caro. Leva ainda mais uma semana, pelo menos.

– Uma semana? - repetiu o Visconde coçando a cabeça.

– Isso no mínimo. Pode até levar mais. Depende. Nunca curti couro de nenhum animal da lua. É possível que sejam diferentes dos nossos aqui.

– E que fico eu fazendo toda uma semana neste olival? -perguntou o Visconde.

– Isso é com você. Poderá ajudar-me na tosa dos carneiros, que vai começar amanhã. Poderá colher azeitonas...

O Visconde não gostou de nenhum dos dois alvitres. Ia pensar sobre o assunto. De repente o pastorzinho olhou bem para ele e deu uma risada.

– Escute, aranha. Diz você que veio buscar a pele do leão?

– É verdade. Para isso vim. O pastor quase morreu de tanto rir.

– Ah, ah, ah... Uma pulga de animalejo desse tamanho lá pode com aquele couro de leão, o maior que ainda vi? Ora vá se lavar...

O Visconde explicou-lhe a ideia da Emília: costurar a pele sobre um carneiro bem grande e dar-lhe a cheirar uma pitada do pó.

– Que pó é esse? - perguntou o pastorzinho. O Visconde explicou pachorrentamente os maravilhosos efeitos do maravilhoso pó, mas não conseguiu convencê-lo.

– Vá saindo com essas histórias! disse o rapaz. - Pó... Pó... Cara de pó tem você, sua barata tonta! e, depois, se fosse verdade, então acha que me ia levando daqui um carneiro assim sem mais nem menos? Pensa que isto aqui é a casa da sogra, onde entra todo o mundo e todos fazem o que querem? Outro oficio.

O Visconde explicou que tinha de ser assim, porque ou ele levava a pele do leão com um carneiro dentro ou Hércules danava e vinha buscá-la - e o pastorzínho bem sabia que, nesse caso, em vez de perder um carneiro ele iria perder três... O argumento valeu. Os melhores argumentos são os que ameaçam o bolso das criaturas. Foram ver se a pele estava no ponto. De caminho o Visconde perguntou:

– Que tanino emprega?

– Tanino? - repetiu o jovem grego, que pela primeira vez ouvia essa palavra.

– Sim, o tanino de curtume... O pastorzinho engasgou. Ele não usava tanino nenhum para curtir couro, porque naqueles tempos esse processo ainda não fora inventado. O Visconde explicou.

– Quando você morde certas frutas verdes, não sente uma coisa que "pega" na boca? Pois é o tanino da fruta. À medida que ela vai amadurecendo, vai o tanino se transformando em outras coisas; mas enquanto a fruta está verde o tanino é muito forte. Na banana verde, por exemplo. O tanino está ali em quantidade! Pois é esse tanino a substância que lá no mundo moderno os homens usam para curtir os couros crus, ou "verdes", como dizem os técnicos. Os couros são mergulhados durante um ou dois meses numa solução fortíssima de tanino, e ficam curtidos, isto é, não mais apodrecem, como o couro cru, e ainda se tornam impermeáveis à água e macios. Mas aqui? De que modo vocês curtem couros?

Enquanto falavam iam andando de rumo ao "curtume." O Visconde admirou-se. Era a primeira vez que via curtir couro pelo sistema do fumeiro. Havia uma cova no chão com muita lenha acesa, uma cova tampada de modo a canalizar a fumaça para uma abertura ou chaminé. E sobre a chaminé estava estendida a pele do leão, esticada por varas e mantida suspensa por quatro esteios.

– Então é assim? No fumeiro?...

– Exatamente. O pastorzinho examinou o estado da pele.

– Ainda não está no ponto - disse. "Ele" quer serviço bem feito.

– Quanto tempo vai demorar? O pastorzinho apalpou o couro, cheirou-o, experimentou-o entre os dentes e com a ponta da língua. Depois respondeu com a maior segurança:

– Seis dias. Em seis dias deixo isto uma beleza.

O Visconde arrenegou. Ficar ali seis dias caçando moscas, a matar o tempo?... Se o pastorzinho fosse de mais cultura, esse tempo de espera não queria dizer nada. Mas que adiantava a um sábio como o Visconde conversar com um ignorante? E o Visconde pensou em Sócrates. "Ah, se ele estivesse aqui! Até um ano eu esperaria, na prosa com esse grande filósofo, sem perceber a passagem do tempo."

5. Meioameio

Enquanto lá no olival o Visconde procurava meios de matar o tempo, na cidade de Micenas, Hércules acolhera muito bem o conselho de Emília e estava se preparando para a mudança.

– Sim, o campo aberto... O ar livre... Os horizontes... As carneiradas... Esse ambiente para uma criatura excepcional como o herói, no qual tudo era imenso - as cóleras, as lutas, o apetite, as venetas... Hércules só se sentia bem quando solto na plena e larga natureza. Partiram. Pedrinho na frente trotava no gracioso potro semi-humano, com Emília e a canastra no colo. Hércules vinha atrás, a sorrir, com os olhos no lindo quadro. Ele já estava querendo bem àquelas criaturas do século 20. E como as admirava! A inteligência daquele menino, a habilidade e a esperteza de Emília, a ciência do seu escudeiro saído em busca da pele do leão... Notável, tudo notável... E Meioameio era também um encanto. Hércules sempre vivera em luta com os centauros, já tendo abatido muitos. Mas pela primeira vez via bem de perto e a cômodo um desses entes, e conhecia-o na intimidade - e nada encontrou em Meioameio que justificasse o seu antigo ódio aos centauros. Sim, se eram uns brutos, isso vinha apenas da falta de educação. Que diferença entre eles e os homens também sem educação? E Hércules, com toda a sua burrice, "teve uma ideia", talvez a primeira ideia de sua vida: que é a educação que faz as criaturas.

Saídos da cidade, Hércules tomou certo rumo e foi ter a uma bela campina a duas léguas dali. Topografia ondulante, belos trechos de floresta nas baixadas pasto rasteiro nas mansas encostas. Um rio de águas cristalinas passava por ali.

– Que lindo ponto para uma fazenda! - exclamou Pedrinho. - Se fossem minhas estas terras, eu erguia a casa naquele tope - e indicou certa elevação a pouca distância do rio. Hércules chegou até à margem e bebeu pelas mãos em cuia. Bebeu como um elefante. Pedrinho teve a impressão da existência dentro dele de verdadeira "caixa d'água" - e para enchê-la só mesmo nos ribeirões. Beber e comer. Hércules tinha bebido, precisava agora comer. O seu apetite estava já de bom tamanho. Pôs-se a sondar os longes daquela pradaria. Não tardou a sorrir: tinha visto um rebanho de carneiros.

– Lá está o meu almoço - disse ele e voltando-se para o centaurinho: - Vá lá e me traga três carneiros de bom ponto. O centaurinho partiu no galope. Emília estranhou aquela sem-cerimônia.

– Como vá lá e traga? - disse ela. Aqueles animais têm dono. Quem quer carneiros, compra-os. Não entendo esta moda aqui na Grécia. Hércules deu uma risada hercúlea.

– Ah, ah, ah... Comigo é assim. Quando quero, pego. Isso de comprar as coisas com dinheiro é para os que não podem pegá-las.

– E não acontece nada?

– Claro que não - respondeu o herói. - Lá no olival, por exemplo: que aconteceu depois que comi os três carneiros? Nada. Pedrinho entrou na conversa.

– Sim, mas isso foi porque eu paguei os carneiros. Hércules fez cara de surpreendido.

– Com que moeda?

– Dei em troca dos carneiros o meu canivete Rodger, afiado que nem navalha. Hércules comoveu-se ao saber daquilo. O pobre menino sacrificara uma prenda querida para sanar a brutalidade que ele, Hércules, havia cometido, qual a de tomar os carneiros sem consentimento do dono. E sentiu que aquele menino já era um produto da educação que a ele, Hércules, faltava. A ideia da educação que momentos antes havia concebido estava a aperfeiçoar-se em seu cérebro. E Hércules disse:

– Estou achando bonito esse sistema de respeitar o que é dos outros. Bonito, sim. Só hoje botei o pensamento no caso - e aprovo. E se ainda fosse criança como você, era o caminho que eu ia seguir. Na idade que tenho já não posso mudar. Muito difícil...

– Quer dizer que vai continuar pegando o que quer sem dar satisfação ao dono?

– Sim.

– Por quê?

– Porque é tarde. A varinha nova, o jardineiro verga e lhe dá esta ou aquela forma - mas que jardineiro dá forma ao tronco duma oliveira velha?

 Meioameio havia alcançado o rebanho e abatido a coices três carneiros. Os outros fugiram por aqueles campos, tomados do maior pânico. Nada mais imprevisto que a aparição de um centaurinho. Minutos depois Meioameio chegava com os três carneiros às costas. Jogou-os aos pés do herói. Hércules sorriu o bom sorriso da fome que vê chegar o prato. Mas na hora de abrir os carneiros surgiu uma dificuldade. Não havia faca e Pedrinho estava sem o seu precioso canivete. Que fazer? Emília salvou a situação.

– Tenho na canastrinha uma lâmina Gillette - e foi buscá-la. Quando a apresentou a Hércules, o herói arregalou os olhos.

– Que é isto?

– Uma lâmina boa para abrir carneiros - respondeu Emília.


Hércules tentou pegar na lâmina, mas deixou-a cair. Fina demais, delicada demais para aquelas mãos tremendas. E veio-lhe uma risada hercúlea.

– Ah, ah, ah. Então quer você abrir os carneiros com esta coisinha tão mimosa? Que bobagem!

Mas Pedrinho ia mostrar que não era bobagem. Apesar da sua velha repugnância pelo sangue, foi ele quem abriu os carneiros. Só fez isso. O resto, a tirada da pele e das entranhas, foi serviço do centaurinho.

– Por que não trouxe quatro? - perguntou-lhe Hércules.

– A ordem foi para três - respondeu o obediente Meioameio, que também estava com fome e esperançoso de que pelo menos um quarto de carne Hércules lhe daria. E foi o que aconteceu. Depois de assada toda aquela carnaria, o herói mediu Meioameio de alto a baixo e disse:

– Para você um quarto basta - e deu-lhe um quarto de carneiro. - E você, Pedrinho? E você, Emília... Sirvam-se. Pedrinho e Emília juntos comiam tão pouco em comparação com os seus companheiros, que Hércules arregalou os olhos ao ver o menino tirar a sua parte.

– Só isso?

– Isto me enche o papo por um dia inteiro - e ainda sobra para encher o papinho da Emília...

Foi um regalo aquele almoço ao ar livre, à margem do ribeirão de águas cristalinas. Hércules confessou jamais ter comido uma carne tão deliciosa.

– Que fizeram vocês neste carneiro que ficou tão bom? - perguntou.

– É que trouxemos da cidade uma boa dose de sal - respondeu Emília. - Nós dos tempos modernos não comemos carne sem sal. Hércules nunca prestava atenção a essas pequeninas coisas, e muitos bois e carneiros assados comera sem sal nenhum. Agora estava verificando como a carne melhora com o salgamento. Vendo aquilo, Emília suspirou:

– Ai que saudades...

– De quem, Emília?

– De tia Nastácia. Estou imaginando o maravilhoso assado que ela faria com estes carneiros, se estivesse aqui conosco. Ah, aquilo é que é cozinheira. Hércules interessou-se pelo assunto.

– Quem é essa dama?

– Não é dama nenhuma - respondeu Emília. - É simplesmente tia Nastácia, a maior quituteira do mundo - e tais coisas contou das proezas culinárias da negra, que um fio d'água começou a pingar da boca do herói e do centaurinho.

– Um dia há de conhecê-la, Senhor Hércules. Não perco a esperança de vê-lo aparecer lá pelo Picapau Amarelo. Lembre-se de que já me prometeu.

6. A pele do leão

Lá pelo fim do sexto dia estavam sentados à beira do ribeirão, na prosa de todas as tardes, quando subitamente um animal estranhíssimo "apareceu" a certa distância. Não veio de outro lugar, não foi chegando como um animal comum. Apareceu! E pelo aspecto não lembrava nenhum animal conhecido. Tinha um vago jeito de leão, por causa da juba, mas um leão desengonçado, com as patas bambas, ou melhor, com oito patas: quatro exteriores, enormes, bambas, verdadeiras patas de leão, e outras quatro mais delicadas e firmes como as dos carneiros.

– Que estranho monstro será aquele? - exclamou Hércules, passando a mão no arco. Foi Emília quem adivinhou.

– Já sei! - berrou ela antes que o herói lançasse a flecha. É a pele do leão da lua!... Hércules não entendeu.

– Como? Que história é essa?

– Sim - respondeu Emília. - O Visconde estava atrapalhado com o problema de trazer a pele e eu então dei essa ideia: "Você costura a pele em cima dum carneiro dos maiores e esfrega-lhe no nariz uma dose do pirlimpimpim. - Ele vem voando e com ele a pele." Juro que é isso - e correu na direção do estranho animal.

Exatamente. Era um carneiro revestido duma pele curtida; e agarrado ao pelo da juba, uma esquisita aranha: o Visconde de Sabugosa! Tinham vindo juntos os três: o carneiro, a pele e o sabugo. Mas o Visconde ainda estava desacordado. Voltou a si nos braços da Emília.

– Coitadinho... Deve estar sofrendo do coração. Já custa a sair do desmaio do pirlimpimpim...

Pedrinho descoseu a pele do leão e soltou o carneiro, que permaneceu bobo e apalermado a ponto de nem sair do lugar. Hércules aproximou-se. Tomou a pele. Examinou-a.

– Ótimo! Desta vez Euristeu vai dar-se por convencido... - e jogou a pele sobre o ombro. Desde aquele momento nunca mais iria o herói abandonar a pele do Leão da Nemeia. Passou a usá-la como escudo - e de muitos golpes esse escudo o livrou, porque era invulnerável. Pedrinho verificou esse ponto. Não conseguiu abrir nela nem sequer um furo com a ponta das setas de Hércules. Como então o seu canivete a cortara naquele dia? Podia ser por muita coisa.Talvez a invulnerabilidade "cochilasse" naquele momento e fosse apanhada desprevenida. O caso é que a pele "vulnerável" do dia da morte do leão estava de novo "invulnerabilíssima".

– Bom. Tenho de voltar a Micenas para apresentar isto ao rei.

– Eu, se fosse você - disse Emília não apresentava nada. Ia chegando e esfregando a pele na cara dele. Aquele rei antipático o que precisa é disso: uma boa esfregação de pele nas fuças...

Hércules lá se foi com a pele ao ombro. O Visconde viu-se imediatamente rodeado e especulado. Todos queriam saber das suas aventuras no olival.

– Aventura no olival não tive nenhuma, mas de caminho para lá aconteceu-me a coisa mais inesperada e prodigiosa...

–  Que foi? - indagaram todos na maior ansiedade. O Visconde gozou aquilo e não teve pressa em contar. Queria irritar-lhes ainda mais a curiosidade.

– Ah, uma coisa que nem queiram saber. Uma coisa tremenda!... Emília, indignada, agarrou-o pelo pescoço.

– Conte já tudo, depressa, se não eu o depeno...

O Visconde contou.

– De caminho para lá caí em cima do telhado dum palácio...

– Como? Então errou no cálculo da pitada?

– No cálculo não errei, mas agora me lembro que no momento de aspirar o pó você deu uma cotoveladinha sem querer. Bastou isso. Uns grãos de pó caíram e eu não aspirei a pitada certa. Resultado: em vez de aterrissar no olival, aterrissei no telhado do palácio de um rei...

– Como há reis nesta Grécia! - observou Emília. - Até parece livro de contos da carochinha...

– Aterrissei no telhado e resolvi espiar... - e o Visconde contou tudo quanto vira no palácio do Rei Polidectes, e foi contando, até referir-se à cabeça da Medusa. Ao ouvir essa palavra, Pedrinho arrepiou-se, pois sabia da história.

– A cabeça da Medusa? - exclamou ele. - Pois teve Perseu a coragem de espontaneamente oferecer ao rei a cabeça dessa Górgona, em vez de um simples cavalo como os outros?

– Ele estava bêbedo - resolveu Emília.

– Pois ofereceu - continuou o Visconde - e contou tudo: a saída de Perseu para fora da cidade, suas meditações lá na praia, sentado no rochedo; o aparecimento de Hermes... Ao falar em Hermes, Emília perguntou:

– Ainda usa aquelas asinhas nos pés?

– Sim - respondeu o Visconde - e também inventou uma moda de asinhas no capacete. Mas apareceu Hermes, sentou-se ao lado dele e... E o Visconde contou tudo quanto já sabemos. Ao chegar ao ponto da entrada de Perseu na casa da Medusa, descreveu com cores tão vivas a cabeça do horrendo monstro que Emília desmaiou...

– Olhe o que você fez, Visconde! - ralhou Pedrinho, amparando-a. - Emília já não é aquela mesma de outrora, do tempo de boneca, quando não tinha nem uma isca de coração. Virou gentinha e das que têm coração de banana...

Mas não demorou muito o desmaio da criaturinha. Com uns borrifos d'água voltou a si. O Visconde contou o resto, mas sem carregar muito nas cores, de medo de outro desmaio.

– E foi assim - concluiu ele - que tive a sorte de ver o que ninguém no mundo viu. Ver, ver, ver... Ver a Medusa viva, dormindo! Ver o herói cortar-lhe a cabeça dum só golpe, antes que ela tivesse tempo de abrir os olhos petrificadores. E vê-lo botar aquela cabeça de cabelos de cobra dentro do surrão mágico... Tudo isso eu vi, e ninguém no mundo viu nem verá. A minha maior glória vai ser essa...

A curiosidade em torno de tão prodigiosa aventura não se satisfez com a narrativa do Visconde. Emília reclamava detalhes.

– Como era a inserção dos cabelos cobras?

– Tinham a cauda enfiada no couro cabeludo.

– E moviam-se, esses cabelos cobras?

– Logo que entramos, Medusa estava dormindo e as cobras também. Mas depois que Perseu a decapitou, as cobras acordaram, assanhadíssimas, e não pararam mais de se mover dum lado para outro.

– Com as bocas e as línguas de fora?

– Sim. Umas boquinhas muito vermelhas e aquelas linguinhas nervosas.

– E os olhos da Medusa?

– Não pude vê-los, porque a encontrei dormindo. Mas são muito redondos.

– E petrificavam as pessoas...

– Sim, isso posso atestar. Ali pelas redondezas do antro da Medusa vi muitas estátuas de pedra estranhíssimas, cada qual numa atitude de ataque. Uma tinha o braço erguido, no gesto de quem vai arremessar uma lança. Outra era a dum bonito herói com o arco distendido e a flecha apontada. Outra era de outro herói com a clava no ar. Eu não entendi aquilo. Julguei que aquela paragem fosse algum grande parque em abandono, ainda cheio de estátuas de pedra. Depois compreendi tudo: eram os heróis que haviam procurado destruir a Medusa e que com um simples olhar dos seus terríveis olhos redondos ela transformara em pedra.

– Que horror! E quantas estátuas dessas viu lá? - quis saber Pedrinho. O Visconde franziu a testa, como quem calcula mentalmente. Depois disse:

– Umas cem...

– Cem?...

– Talvez haja mais. Umas cem visíveis. Deve haver muitas outras ocultas pelo mato. Pedrinho ficou cismativo. Estava ali uma coisa que ele queria ver: o parque de heróis petrificados pelo tremendo olhar da Medusa... Depois mudaram de assunto. Pedrinho perguntou:

– E como se arranjou com o pastorzinho para que cedesse sem pagamento esse carneirão?

– Provei-lhe a maravilha que é o pó de pirlimpimpim e dei-lhe uma dose. Mas tenho medo de que o bobinho haja desrespeitado as minhas instruções e a estas horas esteja a umas mil léguas de lá, em um século muito distante deste. Estavam nesse ponto de prosa, quando Hércules apontou. Vinha de volta. Todos ficaram muito atentos, à espera das novidades.

– E então? - exclamou Pedrinho. Hércules tinha o ar preocupado.

– Aconteceu exatamente o que eu receava - disse ele. - O rei mostrou-se visivelmente contrariado quando verificou que a pele era mesmo de leão e duma espécie de leão que não há na terra. Logo, só podia ser o leão caído da lua. E então me disse: -"Muito bem, grande herói. Vejo que é deveras valente e forte, e que há de gostar de sair ao encontro de inimigos ainda mais fortes que o Leão de Nemeia. Ordeno, portanto, que se apreste e vá destruir a hidra de Lerna. Esse monstro anda a arrasar aldeias, e a fazer estragos horríveis. Informe-se de tudo e traga-me aqui as cabeças da hidra...

– E isso o preocupa, Hércules? - perguntou Emília.

– Sim, porque essa hidra tem nove cabeças, uma das quais imortal. Como um ente mortal como eu pode vencer um imortal?

Os pica-pauzinhos já haviam assistido a essa façanha de Hércules e pois não compartilhavam dos receios do herói. Mas nada disseram. Seria a maior das complicações explicar-lhe a história da primeira estada deles ali naquela mesma Grécia Heróica. E Emília disse:

– Ótimo. Pois vamos atrás dessa porcaria de hidra. Juro que Hércules vai matá-la bem matada e limpar aqueles pântanos de Lerna de tão horrendo monstro. Mas como essa aventura não nos interessa, apenas o acompanharemos até lá; e enquanto ele mata a cobra, nós brincaremos de pega-pega com Meioameio.

E assim foi. Partiram dali para Lerna só fazendo pouso para dormir e comer. Quando avistaram os pântanos, Pedrinho disse:

– Amigo Hércules, como a aventura da hidra não nos seduz, vamos acampar aqui, e aqui ficaremos à sua espera. Vá, mate a hidra e em seguida venha ter conosco. Nós o esperaremos com três carneiros assados. Hércules afastou-se, muito triste de ter de deixar a companhia de seus novos e preciosos amigos. De vez em quando voltava os olhos para trás. Da última vez que o fez pareceu-lhe que estavam inventando um brinquedo novo. E era verdade. Emília havia dito:

– Chega de cartola! Isto não passa dum pedaço queimado. Temos de variar. O brinquedo de hoje vai ser a "ciranda-cirandinha" - e ensinou a Meioameio como era. O centaurinho vivia no maior enlevo. Lá no rebanho ele era o único da sua idade, de modo que vivia sorumbático por falta de companheiros de brinquedo. Mas ali, oh delicias! Emília, uma louca no brinquedo, chegava até a ficar fora de si. Pedrinho não o era menos - e o Visconde, no seu começo de loucura heróica, dera de brincar com tal espetaculosidade que chegou a dar na vista.

– Pedrinho - cochichou Emília - não acha que o Visconde está se excedendo?

– Sim, acho que está muito mudado e que continua a mudar...

– Pois isso está me preocupando bastante - confessou Emília. - Ele também é um heroizinho e todos os heróis passam por um período de loucura. Não viu D. Quixote?

– É verdade, sim, Emília. D. Quixote, Rolando, e até o nosso amigo Hércules, quase todos os heróis enlouquecem. Sobre a loucura de Rolando até há aquele célebre poema de Ariosto que vovó tem lá numa edição de luxo, com desenhos de Gustavo Doré, "Orlando Furioso." Orlando é o nome de Rolando em italiano. Dali a pouco estavam na ciranda-cirandinha, e quem cirandava com maior fúria era justamente o Visconde de Sabugosa, o ex-grave e cartoludo sabinho lá do sitio. Até nem mais de cartola andava. Com um pontapé havia jogado a velha cartolinha nos pântanos de Lerna, berrando:

– Chega de cartola! Isto não passa dum pedaço de canudo de chaminé com abas. Por que cartola? Para que cartola? - e pôs-se a dançar uma rumba...

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