'As Aves do Lago Estinfale' - Os 12 Trabalhos de Hércules

ler online As Aves do Lago Estinfale

Os 12 Trabalhos de Hércules 

As Aves do Lago Estinfale 

Monteiro Lobato 

O lago pantanoso de Estinfale ficava na Arcádia, perto da cidadezinha do mesmo nome. Era um lago como outro qualquer daquele tipo. Certa manhã, porém, ocorreu uma curiosa novidade: o lago estava cheio duns estranhos avejões aquáticos.

O contentamento dos estinfalinos foi grande. As aves aquáticas em regra são boas para comer, como os patos, as marrecas, as batuíras — e os caçadores locais se assanharam. Logo depois partiu rumo ao lago um grupo duns cinquenta, armados de arco e flechas. Iam em busca do jantar.

De longe já os caçadores viram a superfície das águas cheia dos tais avejões, muito maiores que os cisnes. E de uma cor esquisita, como a do bronze — uma cor metálica. Que aves seriam aquelas? Os homens aproximaram-se cautelosamente, agachados, escondidos pela vegetação marginal; quando viram as aves ao alcance, fizeram boa pontaria e lançaram suas flechas.

As flechas, entretanto, acertavam nas aves e ricocheteavam como se houvessem batido de encontro a corpos sólidos. Nova série de flechas foram arremessadas, igualmente sem efeito nenhum. Davam de encontro ao peito das aves e ricocheteavam.

O caso espantou seriamente aqueles homens, e mais ainda verem que em vez de se mostrarem assustadas, como é o comum quando caçadores atacam as aves aquáticas, aquelas se puseram a arrepiar as penas e a investigar com os olhos muito vivos, como que tomando a posição dos seus atacantes. Evidentemente iam passar de agredidas a agressoras. E como pareciam belicosas!

Que fazer? Os caçadores entreolharam-se. Por fim resolveram tentar mais uma revoada de setas — e mais cinquenta setas voaram rumo ao peito dos avejões. E o que então sucedeu foi o assombro dos assombros.

Os avejões, mais arrepiados ainda, romperam numa gritaria atordoadora; depois sacudiram as enormes asas como se quisessem desembaraçar-se das penas — e mil penas vieram cair em cima dos caçadores. Que hecatombe! Não ficou um só de pé. Todos caíram como que fulminados. As penas arremessadas eram de bronze e cortantes como facas...

Em seguida as aves acudiram num grande açodamento e em minutos estraçalharam e devoraram todos aqueles corpos. Eram aves antropófagas.

Como os cinquenta caçadores não reaparecessem em Estinfale, a população inquietou-se. Novos homens partiram em procura dos primeiros — e também não voltaram. Só depois da destruição de duzentos ou trezentos estinfalinos é que a cidade compreendeu o que se passava.

O pânico foi imenso. Não tinha fim a choradeira das mulheres que haviam perdido tão tragicamente os seus homens. Apenas um conseguiu salvar-se e lá apareceu em Estinfale com duas penas de bronze. Ah, como aquilo andou de mão em mão! Todos queriam vê-las, cheirá-las, prová-las. E ficou assente um ponto: o lago estava coalhado de tremendíssimas aves de penas de bronze comedoras de carne humana...

Que fazer? A luta era impossível. Tornava-se necessário recorrer aos heróis, porque só os grandes heróis, Hércules,Teseu, Perseu, Jasão e outros, sabiam lutar e vencer os monstros. Mensageiros foram mandados à corte dos reis com pedido de socorro — e foi então que Euristeu pensou em Hércules. Ah, dessa vez o herói sucumbiria na empresa.

Enquanto isso, as aves do lago continuavam na faina de caçar caçadores, pastores e gente do comum, fosse homem mulher ou criança. Viandantes incautos, que nada sabiam daquilo e passavam pela beira do lago, eram impiedosamente lacerados pelas penas de bronze e em seguida devorados. A matança tornou-se horrorosa.

Estavam as coisas nesse pé quando Hércules chegou a Estinfale. A alegria dos habitantes foi enorme. Ninguém lá ignorava quem fosse o herói. Sua vitória sobre o javali do Erimanto, montanha não longe dali, corria de boca em boca.

Hércules foi conferenciar com o chefe da cidade.

— Sim, chefe, aqui estou a mandado de Euristeu para destruir as aves de penas de bronze.

— De que modo vai atacá-las?

— Com as minhas setas mortais.

O chefe riu-se.

— Seta nenhuma tem efeito contra essas aves, porque são revestidas duma verdadeira couraça de penas de bronze. Nossos caçadores tiveram ensejo de verificá-lo — e já não existem, os imprudentes...

Hércules riu-se. As flechas dos homens comuns eram uma coisa; as suas, algo muito diferente. Nunca houve ser vivo, homem ou animal, que resistisse a uma só das suas setas — e apesar da advertência do mensageiro de Palas o herói resolveu fazer naquele mesmo dia a experiência. Depois de acomodar Meioameio, Pedrinho e os mais num "camping" à beira da cidade, partiu sozinho, de arco em punho, com a aljava bem cheia de setas. E teve o cuidado de examiná-las, uma a uma, para ver se a Emília não as tinha “humanizado." O meio de Emília "humanizar" as flechas era quebrar-lhes aponta...

Hércules aproximou-se do lago o mais cautelosamente que pôde, agachado, ora oculto por um tufo de vegetação, ora por uma pedra. Desse modo chegou a um ponto de onde pôde observar à vontade os avejões. Grandes, sim, enormes, e cor de bronze. Estavam calmos, vogando serenos na superfície turva do lago. Minutos antes haviam apanhado e devorado toda uma família de viajantes descuidosos.

Hércules escolheu uma seta de ponta bem aguçada, firmou-a na corda do arco e retesou-se ao máximo. Fez pontaria e zas!... A flecha assobiou num silvo de serpente e foi bater em pleno peito da ave mais próxima.

— Blen!...

O choque produziu um som de sino de bronze, mas nada da seta cravar-se no alvo; desviou-se para a direita e lá adiante afundou na água. Aquele som de sino foi um toque de rebate. Todas as aves o ouviram e arrepiaram-se; mas como não descobrissem onde estava o imprudente caçador, não houve nenhum arremesso de penas de bronze. Limitaram-se a permanecer alertas, espiando de todos os lados.

Hércules ficou apreensivo. O mensageiro de Palas estava certo. Com as flechas não poderia vencer os avejões, nem tampouco os venceria com a sua poderosa clava. Como entrar em semelhante pântano com a clava em punho? Atolar-se-ia e as aves o devorariam vivo. Melhor aceitar o conselho de Minervino —e deliberou ir esperá-lo no acampamento.

Hércules afastou-se do pântano com as mesmas cautelas com que se havia aproximado; e como ao lado dos esqueletos dos caçadores mortos visse muitas penas de bronze, apanhou uma das menores para levá-la de presente à Emília.

Ao chegar ao acampamento encontrou o centauro assando os três carneiros de todos os dias, com os outros sentados por ali em redor do fogo. Pedrinho ergueu-se.

— E então, Hércules? Que resolveu? — perguntou o menino.

O herói emitiu um suspiro.

— Nada ainda. Verifiquei um ponto bem aborrecido: minhas setas não varam as penas de bronze dos tais avejões. Batem nelas, arrancam um som de sino e ricocheteiam. E como também nada posso fazer com a clava, não sei...

— Bem disse o mensageiro que era um Trabalho muito difícil! — lembrou Emília. — Agora o que Lelé tem a fazer é esperar pela volta de Minervino.

Amor, Amor...

Ninguém tinha a menor idéia de quanto tempo teriam de esperar ali nos arredores de Estinfale. Podia ser uma hora, podiam ser vários dias. Pedrinho deliberou montar um acampamento como o de Micenas e para isso saiu em Meioameio para a escolha do sítio mais adequado. Breve encontrou um bem ajeitadinho, com ribeirão de águas cristalinas, floresta próxima e carneiros ao longe. A Arcádia era toda um carneiral.

As únicas pessoas por ali existentes eram pastores e pastoras, algumas bem jovens e bonitas. Depois de instalado o acampamento, volta e meia surgiam pastorinhas curiosas que vinham espiá-los, a princípio muito medrosas, depois acamaradadas.

Isso deu em resultado uma coisa de todo imprevisível e prodigiosa. O Visconde, cujo caráter mudara muito depois da fervura, começou a sentir lá por dentro umas comichões estranhas. De vez em quando suspirava, revirava os olhos. Emília desconfiou e foi dizer a Pedrinho:

— Está me parecendo uma coisa: o Visconde está amando!...

— Quê?

— Amando, sim. Cada vez que aparece por aqui aquela graciosa pastorinha de nome Climene, ele fica todo atrapalhado, como quem sente uma coisa que não sabe o que é. Para mim trata-se de amor...

— Impossível, Emília! Nunca houve milho que amasse...

— Também nunca houve milho que falasse e soubesse ciência, e o Visconde fala e sabe ciência. Ele "mudou", exatamente como eu mudei. Mudou por efeito da fervura de Medeia.

Pedrinho pôs-se a cismar naquilo e a observar o Visconde.

Logo depois apareceu Climene, uma garota de dez anos, com um lindo presente de queijo e azeitonas. O gosto dessa pastorinha era contar coisas ali da Arcádia e indagar de como era a vida no mundo moderno. As histórias do sítio de Dona Benta, que Emília narrou, andavam a lhe virar a cabeça.

Que linda menina a Climene! Pele dum lindo moreno claro e perfil perfeitamente grego, com o clássico nariz em linha reta. Emília lembrou-se daquela escrava Aglaé lá da casa de Péricles. O mesmo tipo, o mesmo modo de falar e até as mesmas curiosidades. Seu maior prazer era montar com os outros no centaurinho para galopadas pelos campos.

Assim que a Climene apareceu com o queijo e as azeitonas o Visconde corou. Pedrinho pôs-se a observá-lo disfarçadamente. Sim, o Visconde "ficava outro" perto da pastorinha. Se ia falar, engasgava. Se ia andar, tropeçava. E não tirava os olhos dela. Em certo momento afastou-se do grupo, e foi colher um buquezinho de flores silvestres, muito desajeitadamente, que veio oferecer à menina.

Climene foi o primeiro amor do Visconde de Sabugosa —primeiro e último. Nunca mais a tirou do coração. Tudo lhe eram pretextos para procurá-la, para ensinar-lhe coisas de ciência. E não cessava com os presentinhos. Climene acabou notando aquela assiduidade e disse-o à Emília.

— Por que é que ele tanto me olha e lida comigo?

Emília riu-se.

— Ah, Climene! O Visconde era uma coisa antes da fervura e está muito diferente agora — e contou o caso da passagem do Visconde pela caldeira de Medeia. Até aquele dia, era um sábio como outro qualquer. Só cuidava de ciência. Mas de repente enlouqueceu, e então nós o levamos ao palácio da grande feiticeira para uma boa fervura no caldeirão mágico. Do vapor que saiu, a famosa Medeia fez um viscondinho novo, muito diverso do primeiro. Ele hoje ainda gosta de ciência e sabe coisas — mas a ciência já não é tudo para ele, como no começo. E isso, sabe por quê? Porque está amando.

— Amando? — repetiu a menina muito admirada.

— Sim. Está perdidinho de amor por você...

Climene abriu a boca. Era muito criança ainda e nada sabia do amor. Emília teve de explicar-lhe tudo.

— E que devo fazer? — perguntou Climene.

— Oh, deve corresponder ao amor do Visconde. Quando ele piscar, você pisca também — e explicou-lhe o "pisco" do namoro. E quando ele suspirar, você também suspira. E se ele revirar os olhos, você também revira os olhos.

— E quando me der um buquezinho de flor?

— Você beija as flores e prende-as no vestido. Também pode, de vez em quando, dar-lhe uma flor...

O namoro do Visconde tornou-se o divertimento de Emília e Pedrinho durante horas de espera ali no "camping" de Estinfale. Até Hércules percebeu o jogo e encantou-se.

Hércules estava começando a ficar seriamente apreensivo. Três dias já se tinham passado e nada de Minervino aparecer. Uma idéia lhe veio à cabeça. Chamou o oficial de gabinete e disse:

— Estou com medo duma coisa: que Hera tenha descoberto a função de Minervino e esteja a atrapalhá-lo. Lembre-se como ele nos aparecia tão de pronto nas viagens anteriores — e agora, nada justamente agora que nos prometeu vir. Receio que lhe tenha acontecido alguma coisa.

O herói estava certo. Os repetidos aparecimentos de Minervino no Olimpo fizeram que Hera desconfiasse. Ele aparecia por lá e ficava pelos cantos aos cochichos com Palas, a protetora de Hércules. E tantas Hera fez, que afinal descobriu a função daquele homem: era o leva-e-traz de Palas, o seu mensageiro secreto.

— Hum! — rosnou a vingativa deusa.

— Espera que te curo — e chamou Hermes. — Escute aqui. Palas anda tramando coisas contra mim, para favorecer Hércules. Vive aos cochichos com aquele mensageiro lá — e apontou para Minervino. — Quero que você vire mosca e pouse perto deles para ouvir o que conversam.

Hermes assim fez. Virou mosca e foi pousar no ombro de Minervino, naquele momento muito entretido com Palas.

— Ele já está lá? — havia perguntado a deusa. (Ele era Hércules.)

— Deve estar — respondeu Minervino. — Separamo-nos em Micenas, depois que Euristeu o encarregou de destruir os avejões do Lago Estinfale. Eu, porém, aconselhei-o a ir para a cidade desse nome e a nada fazer antes de receber instruções minhas — e cá estou para receber as ordens da grande Palas. Aquelas aves são indestrutíveis pelos meios comuns flechas e clava — por causa das penas de bronze que as revestem. Se Hércules as ataca, ei-lo perdido. Neste momento já deve o herói estar acampando nos arredores de Estinfale, à minha espera.

Palas ficou momentos a refletir. Depois disse:

— Sim, sem a minha ajuda Hércules nada conseguirá. Aquelas aves de bronze são um estratagema de Hera, que as pôs naquele pântano justamente como armadilha para Hércules. Mas ando cá com uma idéia. Sou dona daqueles címbalos com que Hefaistos me presenteou.

O som do bronze desses címbalos é tão terrível que não há ouvidos que o suportem. Vou mandar meus címbalos para Hércules. Ele que se aproxime do lago e vibre-os com toda a força. As aves, atordoadas, fugirão para longe, porque nem sequer as aves de penas de bronze suportam a vibração dos címbalos de Hefaistos.

Disse e foi buscá-los. Embrulhou-os num pedaço de nuvem e disfarçadamente entregou-os ao mensageiro. Minervino partiu.

A mosca sentada em seu ombro imediatamente voou e, depois de assumir a forma de Hermes, apressou-se em contar tudo à vingativa esposa de Zeus.

— Hércules só usará desses címbalos se eu deixar de ser a deusa das deusas rosnou Hera — Vá colocar-se à porta do Olimpo, Hermes. Quando o mensageiro aparecer, arremesse-o montanha abaixo, de modo que role por entre as pedras e se despedace. Ah, Palas! Tu não sabes com quem estás lidando...

Hermes cumpriu fielmente as instruções recebidas. Correu a colocar-se na porta do Olimpo, e quando Minervino apareceu, com os címbalos, arremessou-o morro abaixo com um grande tranco. O pobre mensageiro rolou pela escarpa da encosta do Monte Olimpo, dando de pedra em pedra e fazendo-se em mil pedaços.

Mas Palas, espertíssima que era, percebeu a manobra e acudiu-o dum modo curioso: fazendo que os seus pedaços fossem cair bem dentro da caldeira de Medeia. A grande feiticeira, que estava a ferver um novo picadinho humano, levou susto no momento de condensar os vapores. Em vez de um "rejuvenescido", apareceram dois — o que lhe haviam encomendado e um novo, totalmente imprevisto.

— Quem é você? — perguntou Medeia a Minervino, que voltara à vida novo em folha, jovem e corado — e ao saber de tudo a feiticeira alegrou-se. Ela era amiga de Hércules, ao qual já salvara da loucura e que estava a lhe dever o rejuvenescimento do "escudeiro."

Minervino, ainda tonto da fervura, pegou os címbalos de Palas, ali caídos ao pé da caldeira, e encaminhou-se a toda pressa para Estinfale. Foi encontrar o herói ao pé do braseiro, comendo o assado de todos os dias. Quem primeiro o avistou foi Emília.

— Lá vem um lindo moço! — disse ela, ao vê-lo aparecer lá longe. — Quem será? — Todos olharam. Sim, um moço de bela aparência, com um embrulho debaixo do braço. Ninguém ali o conhecia.

Minervino aproximou-se e disse:

— Pronto, Hércules. Aqui estou, conforme prometi.

O herói não entendeu.

— Quem é você?

— Não me conhece mais, Hércules? Não conhece mais o mensageiro de Palas?

Todos riram-se.

— O mensageiro de Palas é um velho — disse o herói. — Você é moço.

— Fui velho — explicou Minervino mas o caldeirão de Medéia me rejuvenesceu — e contou toda a história. Depois para documentar as suas palavras, desembrulhou os címbalos e entregou-os a Hércules.

— Aqui tem — disse ele — os prodigiosos címbalos com que Hefaistos, o deus do fogo e dos metais, presenteou minha deusa Palas. Ela os oferece a Hércules como o único meio de afugentar as aves de penas de bronze.

— Como? — indagou o herói, sem nada compreender.

— Se estes címbalos forem vibrados à beira do Estinfale, as aves de bronze, atordoadas, abandonarão o pântano e se sumirão para sempre no espaço.

Pedrinho aproximou-se para ver o instrumento. Era um triângulo de ferro com uma série de campainhas do mais sonoro bronze que ainda houve no mundo. Hefaistos, que tinha o segredo de todos os metais, jamais fundira um tão poderoso como aquele — e justamente porisso o oferecera a Palas, a sua grande amiga do Olimpo. Emília teve a má idéia de experimentar o som duma das campainhas e nela bateu com uma lasca de Pedra. Apesar da pancadinha ter sido na realidade insignificante, o som produzido deixou-os completamente atordoados por mais de uma hora, com a impressão de haverem ensurdecido. Imaginem-se o efeito de todas aquelas campainhas tocadas ao mesmo tempo pela força hercúlea do grande herói!

— Quem é Hefaistos? — quis saber Emília — e o mensageiro de Palas explicou.

O esparramo das aves

— Hefaistos, menininha, é um dos filhos de Zeus e Hera. Como nascesse muito feio, sua mãe, furiosa, arremessou-o do Olimpo abaixo.

— Que peste! — exclamou Emília mas bateu na boca, como quem retira a expressão. — Isto é, que danada...

— Sim, Hera horrorizou-se com aquele filho e arrojou-o do Olimpo abaixo,bem em cima da Ilha de Lemnos, onde havia um vulcão. Lá cresceu Hefaistos e virou ferreiro e que ferreiro! ... Um ferreiro como nunca houve outro no mundo, cuja forja era o vulcão.

O Visconde cochichou para Climene que aquele ferreiro era conhecido no mundo moderno por Vulcano. Minervino prosseguiu:

— Nessa forja gigantesca ficou ele a trabalhar os metais —todos os metais, inclusive o bronze maravilhoso com que fez estes címbalos. E era a Hefaistos que Zeus encomendava os seus raios. Periodicamente o divino ferreiro galgava a montanha do Olimpo para levar a Zeus novos feixes de raios e consertar os que entortavam. Construiu suas oficinas dentro da terra, junto ao vulcão, e lá trabalhava com os Ciclopes, os gigantes de um só olho no meio da testa. Todas as afamadas peças de metal da nossa grande Grécia têm sido fabricadas por ele. Foi ele quem fez o trono e o cetro de Zeus. Foi quem fez o carro de Hélios...

O Visconde explicou a Climene que Hélios era o cocheiro que conduzia o carro do sol.

— ... o escudo de Aquiles, e tantas coisas mais. Como fosse muito feio e coxo, a título de compensação deu-lhe Zeus como esposa Afrodite, a deusa da formosura suprema.

O Visconde cochichou para Climene que Afrodite era a mesma Vênus, mãe de Eros ou Cupido.

— Mas — continuou Minervino — em trabalho nenhum Hefaistos se aprimorou tanto como na têmpera do bronze destes címbalos — e vocês acabam de ter prova. Com a pancadinha que Emília deu num deles, quase ficamos todos com os tímpanos arrebentados.

— Mas por que cargas dágua esse Hefaistos fez semelhante presente a Palas? — quis saber Pedrinho.

— Ah, porque não há deusa que Hefaistos mais queira, visto como veio ao mundo justamente por intermédio dele.

— Como?

— Certa ocasião fora Zeus assaltado por uma dor de cabeça horrível. Remédio nenhum a aliviava. Por fim, levado pelo desespero, mandou chamar Hefaistos lá na Ilha de Lemnos. "Que desejas de mim, Zeus?" — perguntou o ferreiro."Quero que me fendas o crânio com um golpe de malho, porque já não suporto a imensidão desta dor." Hefaistos não discutiu; ergueu o malho e desfechou sobre a cabeça do deus dos deuses um golpe tremendo, tal o de Hércules no crânio do javali.

— E os miolos de Zeus saltaram longe... — disse Emília.

— Não. Da cabeça de Zeus não saíramos miolos; saiu Palas Atena, armadinha de escudo e lança. Daí a ligação entre Hefaistos e a minha grande deusa.

Minervino ainda contou muita coisa do ferreiro coxo, enquanto ia mastigando o naco de carne assada que Pedrinho lhe dera.

— Bom — disse Hércules depois de finda a história. — Tenho de cuidar da minha missão. Vou ao lago atordoar as aves com estes címbalos. Fiquem vocês aqui e tapem o mais que puderem os ouvidos.

— Com quê? — indagou Emília. — Se houvesse uns chumaços de algodão...

Não havia algodão, mas na floresta abundavam musgos. Meioameio saiu no galope em busca dum sortimento. Todos atafulharam os ouvidos com musgo. Hércules fez o mesmo e lá se foi de rumo ao pântano, com os címbalos debaixo do braço.

Emília trepou à árvore mais alta de todas para espiar a cena de longe, e lá de cima foi descrevendo aos outros as peripécias da façanha. Parecia um speaker de rádio a dar conta dum jogo de futebol.

— Lá vai indo ele!... Firme, garboso, lindo... Que amor de atleta é o nosso Lelé!... Já chegou à beira do lago. Está correndo os olhos pelas aves, como a despedir-se delas... As aves já o viram. Começam a arrepiar-se...

Nesse momento um som terrível encheu os ares. Apesar de terem os ouvidos tapados e estarem tão longe, todos se sentiram completamente surdos. Emília lá do alto continuava a gritar embora ninguém mais a ouvisse.

— Começou!... Está sacudindo os címbalos com uma força tremenda. Parece que a gente vê o som espirrar do bronze... As aves estão aflitas... Não compreendem o que há. Estão tapando com toda a força os ouvidos... Inútil... O som dos címbalos vara qualquer obstáculo... Agora as aves começaram a pererecar como doidas... Sim... Parecem baratas em dia de chuva, quê não sabem se correm ou voam... Algumas já estão voando... E outras... E outras... E agora todas... Todas, sim!... Todas levantaram vôo e lá vão subindo para as nuvens... Vão ficando pequeninas... Pontos no espaço...pronto! Desapareceram.

Hércules havia parado de vibrar os címbalos.

— Vamos ao seu encontro! — gritou Pedrinho. — O nosso grande herói acaba de realizar maravilhosamente o seu Sexto Trabalho.

Foram-lhe ao encontro, ainda com os ouvidos surdos e uma zoada lá dentro.

Acharam-no caído por terra, como morto. Pedrinho sacudiu-o:

— Hércules! Hércules!... Que há, amigo Hércules? — e o herói nada, mudo como um peixe.

— Será que foi ferido por alguma pena? — sugeriu Emília, mas o exame feito não revelou coisa nenhuma.

— Ele está em "estado de choque" por causa da violência do som — disse o Visconde. — Temos de deixá-lo em repouso por uma ou duas horas.

Mas não foi assim. Só no dia seguinte Hércules voltou a si daquele "estado de choque" causado pela violência do som dos címbalos de Palas Atena. Mas ficou como se acabasse de sair de um pesadelo.

Pedrinho tomou os címbalos e embrulhou-os muito bem no pedaço de nuvem, dizendo: "Se isto fica a descoberto, de repente recebe uma pancadinha por acaso e nos põe novamente surdos."

E o mensageiro?

Sumira-se misteriosamente.

O som dos címbalos não os atordoara apenas a eles ali nas proximidades do pântano. Alcançara também a cidade.

Não houve por lá quem não ensurdecesse. Mas depois de completamente restaurada a normalidade dos tímpanos, não houve quem não corresse a visitar as margens do lago. Que desolação!... Esqueletos e mais esqueletos, de gente comida pelas aves antropófagas. E uma quantidade de penas de bronze pelo chão! Cada qual levou uma para casa, como lembrança.

Minervino havia partido para o Olimpo e lá estava a cochichar com Palas num canto.

— Ah, deusa! Nunca vi trabalho mais bem feito. Assim que Hércules começou a sacudir os címbalos, o som "foi demais"; as aves entraram a agitar-se como que tomadas de súbita loucura. E foram levantando o vôo e todas se sumiram no espaço.

— Para onde iriam?

— Afastaram-se rumo sul. Com certeza, para os fundões da África.

Depois contou o tranco que Hermes lhe havia dado e de como caíra bem dentro da caldeira de Medeia...

— Sei, sei — disse Palas. — Vi tudo e foi por agência minha que você caiu em tal caldeira. Mais uma vez saiu Hera derrotada.

A alegria da população de Estinfale foi imensa. Estavam livres da maior das calamidades. Houve festas em honra do grande herói e seus amigos. Climene não largava mais do bando, cada vez mais cortejada pelo Visconde... e também por Pedrinho. Ah, que cena melancólica foi a da "desilusão do Visconde", quando percebeu que tinha um rival e era esse rival o realmente gostado por Climene! A pastorinha correspondia ao amor do Visconde por brincadeira. Gostar mesmo de verdade, só de Pedrinho.

Quando Hércules falou em partir, houve resistências.

— Por que tão cedo? — disse o menino. — É tão simpática esta cidade de Estinfale...

O Visconde suspirou e falou em ficar mais uns dias para "estudos do dialeto grego falado ali" — e até Climene puxou brasa para a sua sardinha.

— E se as aves voltarem? — disse ela. — Eu, se fosse Hércules, ficava por aqui ainda algum tempo — por prevenção...

De dó dos três, o herói retardou a volta por mais três dias. Por fim disse:

— Chega de namoros. Toca para Micenas.

Houve despedidas comoventes. Abraços. E por instigação da Emília o Visconde deu um beijinho em Climene o primeiro e último de sua vida...

A volta

A viagem de volta correu sem novidades. Como Emília mostrasse interesse em conhecer a vida do herói desde os começos, o Visconde tomou a palavra.

— Estive ontem conversando sobre o assunto com o mensageiro de Palas, e posso contar o que ouvi.

— Pois conte. Como foi o nascimento de Hércules?

O Visconde cuspiu o pigarrinho e começou:

— A mãe de Hércules era a mulher de maior beleza de seu tempo. Chamava-se Alcmena. Um dia deu à luz duas crianças gêmeas: Íficlo e Alcides, que foi o primeiro nome do nosso herói. Mas Juno desconfiou da alegria de seu divino esposo. Aquele Ínteresse de Zeus pelos gêmeos causou-lhe ciúmes — e a partir dali entrou a persegui-los. A primeira coisa que fez foi dar ordem a duas horríveis serpentes de escamas azuis para que fossem ao berço das crianças e as devorassem.

— Juno ou Hera? — interrompeu Emília.

— Hera é a mesma Juno. Eu prefiro dizer Juno porque o nome Hera confunde-se com o verbo "era" e às vezes atrapalha a história. Os meninos estavam no melhor dos sonos quando as serpentes se insinuaram no quarto, com os olhos vermelhos de fogo e as línguas de fora. A escuridão era completa; ninguém podia vê-las. Como salvar as duas crianças? Mas lá no Olimpo, Zeus descobre a maldade de Juno e faz que uma claridade intensa ilumine o quarto. Os gêmeos acordam ofuscados pela luz — e dão com as cobras!...

— Imaginem o susto dos coitadinhos! — exclamou Emília. —E depois?

— Íficlo foi o que despertou primeiro. Dá um grito de pavor e foge na disparada. Só então Alcides acordou. Acordou mas não fugiu, porque o seu destino era não fugir de perigo nenhum.

Em vez de fugir, agarra nas duas serpentes pelo pescoço e começa asfixiá-las como fez ao Leão da Nemeia. As serpentes enrolaram-se nele, tomadas de horríveis convulsões, mas suas mãos não afrouxavam o aperto, de modo que elas não tiveram outro remédio senão morrer.

— Bravos! Bravos!... — berrou Emília.

— Um filhinho assim até eu queria ter. E a tal Alcmena, mãe deles? Não fez nada?

— Alcmena dormia num quarto próximo. Ao ouvir o grito de Íficlo, despertou seu esposo Anfitrião e mais gente do palácio. Correm todos para o quarto das crianças — e lá dão com aquele quadro horrível: o pequeno Alcides agarrado ao pescoço das duas serpentes, uma em cada mão! Alcmena solta um grito de horror, mas o pequeno Alcides sorri e lança-lhe aos pés as duas serpentes mortas...

— Que gosto para Alcmena, ter um filhinho assim!... E depois?

— Depois Alcmena foi consultar um grande adivinho daqueles tempos, o famoso Tirésias, para que lhe tirasse a sorte do menino. Tirésias concentrou-se e falou que nem o Oráculo de Delfos:

"Vosso filho vai tornar-se um herói invencível e acabará transformado numa das constelações do céu, mas isso depois de haver cá na terra destroçado os monstros mais tremendos e sobrepujado os guerreiros mais temíveis. O Destino lhe impõe Doze Trabalhos de grande vulto. Por fim morrerá devorado pelo fogo de Nesso — e então sua alma irá viver no Olimpo.

— E tudo saiu certinho?

— Sim. Tirésias não se parecia com as tiradeiras de sorte do nosso mundo moderno, que erram muito mais do que acertam. Tudo quanto declarou se cumpriu fielmente. Depois da leitura da sorte do menino, Alcmena sossegou e tratou de criá-lo da melhor maneira. A educação de Alcides foi orientada por Linos, filho de Apolo, o qual lhe ensinou as ciências e as letras.

Emília fez focinho irônico e disse que não dava nada por aquele professor, visto como Hércules, em matéria de ciências e letras, valia menos que um sabugo científico. O Visconde explicou:

— É que as ciências ensinadas não eram as do nosso mundo moderno e sim as ciências da luta, ou a arte da luta, porque a luta é mais arte do que ciência. Ensinou-lhe todos os truques dos grandes lutadores, as rasteiras, como aplicar um bom swing no queixo do adversário, como fazer todas essas coisas de que Pedrinho tanto gosta. Também lhe ensinou a manejar a clava e a não errar um só flechaço. E ensinou-lhe a governar os carros de corrida, a enristar a lança, a defender-se com o escudo, a atacar o inimigo e livrar-se de seus golpes, a organizar um exército. Não houve o que lhe não ensinasse.

— Aposto que houve! — disse Emília. — Aposto que não lhe ensinou a ler e escrever.

— A leitura e a escrita de pouco adiantam aos heróis. Em geral são analfabetos. Com eles é ali no muque e na agilidade, só. E assim se foi formando Alcides, de modo a não deixar em má posição o grande Tirésias que lhe leu o futuro. Um poeta grego, de nome Teócrito, conta num dos seus poemas que a cama de Alcides menino era uma pele de leão, e que desde muito novo alimentava-se de carne assada, em vez de sopas de pão, leite condensado e outras delicadezas modernas. E já então comia mais que um carregador.

— Hoje, três carneiros é a conta — disse Emília. — Não faz por menos. Naquele dia em que só comeu dois, até tive dó dele. Que fome teve de noite!

O Visconde continuou:

— Mas a sua tremenda energia tinha de causar desastres — e dai tantas mortes ou homicídios que lhe enchem a história. Tornou-se um grande matador de gente e bichos — e sabem quem foi a sua primeira vitima?

— Quem?

— O seu próprio mestre Linos...

— Bem feito! — exclamou Emília. — Quem o mandou ensinar-lhe tanta "ciência"? E por que matou Linos?

— O caso foi assim. Querendo Linos certa vez avaliar os progressos do discípulo, pediu-lhe que escolhesse o melhor livro duma estante cheia de verdadeiras obras-primas das letras gregas. E vai Alcides e escolhe o Manual do Perfeito Cozinheiro dum tal Simão. Linos, danado, passou-lhe uma descompostura. E o jovem Alcides, perdendo a cabeça, pegou de uma citara, que estava ao alcance de sua mão, e aplicou em Linos um dos golpes que esse mestre lhe havia ensinado. Matou-o.

— Irra! Que gênio!... — exclamou Pedrinho.

— Era um crime aquele, dos que as leis punem — e lá vai o nosso Alcides para o tribunal de justiça. Lá se defendeu citando uma célebre "Lei de Radamanto" que não considerava crime o homicídio cometido contra um atacante. Linos o atacara com palavras violentas; ele respondera com uma citarada. Foi absolvido... Mas Anfitrião, com medo de outras façanhas como aquela, enviou o rapaz para o Monte Citeron, a viver entre pastores — e foi lá que o desenvolvimento de Alcides se completou. Em Citeron matou o primeiro leão — um terrível leão que andava a desbastar os rebanhos do rei dos Téspios. Começa neste ponto a sua verdadeira vida de herói.

— Para mim começou com o asfixiamento das cobras, quando ainda estava no berço — quis Emília.

— Seja — disse o Visconde. — Mas as grandes coisas de Alcides vieram depois da morte desse leão. Indo a Tebas, encontrou essa cidade vencida pelo Rei Ergino, o qual impôs aos tebanos o pagamento dum tributo anual de cem bois.

Hércules chegou à cidade exatamente no dia em que os emissários de Ergino estavam a reclamar os cem bois do primeiro pagamento.

— "Que história de bois é essa?" — foi ele dizendo — e ao saber da imposição de Ergino, agarrou os emissários e cortou-lhes os narizes e as orelhas. "Digam lá ao Rei Ergino que os cem bois são estes narizes e estas orelhas cortadas." Ofensa mais grave não era possível e Ergino levantou um exército para atacar os tebanos. A grande força desse exército estava na cavalaria, mas o nosso herói, à frente dos tebanos, usou dum recurso: forrou de enormes pedras a única passagem entre montanhas por onde poderiam entrar os cavalarianos. Isso atrapalhou grandemente o ataque de Ergino, o qual foi batido e morreu na luta. Os tebanos, então, impuseram ao reino de Ergino o pagamento dum tributo de duzentos bois. Graças a Hércules a situação invertera-se. Muito gratos da sua preciosa ajuda, os tebanos consagraram ao herói vários templos e lhe erigiram diversas estátuas. Uma delas, Héracles Rinokloustes, ou "o que corta narizes"; e outra dedicada a Héracles Hipodetes, ou "o que barra os cavalos." E ainda por cima o rei de Tebas concedeu-lhe a mão de sua filha Mégara.

— Sei, sei! — exclamou Pedrinho. A mesma que ele matou durante o seu período de loucura.

— Sim. Mégara deu-lhe três filhos, e tudo estava correndo muito bem, quando Juno...

— Ja estava demorando! Juno era dessas que não esquecem nem perdoam nunca. Uma perfeita me... ia dizendo Emília mas engoliu o resto da palavra "megera." Emília andava com medo de Juno.

Mais façanhas de Hércules

O Visconde continuou:

— A loucura de Hércules foi um artifício de Juno. A deusa o enlouquecera de propósito, para que ele matasse a esposa e os filhos — e já vimos como isso se deu. Em conseqüência desse desastre é que Hércules se condenou a si mesmo ao exílio, indo parar nas unhas de Euristeu.

Tudo isto contou o Visconde, bem acomodado no lombo de Meioameio, enquanto seguiam de rumo a Micenas.

Hércules, lá atrás, marchava calado, remoendo qualquer idéia. Emília lançou-lhe uma olhadela e disse: "Em que será que Lelé está pensando?"

— Aposto que no jantar — respondeu Pedrinho, medindo com os olhos a altura do sol. — Já estamos na hora.

Logo adiante, à beira de um riozinho, detiveram-se para cuidar dos estômagos.

Meioameio saiu no galope para "prear" os carneiros do costume e os pica-pauzinhos foram conversar com o herói.

— Em que é que está pensando, Lelé? — perguntou Emília.

Hércules fez cara de quem acorda de um sonho. Ficou de olhos parados por uns instantes. Depois disse:

— Estava pensando no mais que inventará Hera para me perseguir. Tenho medo duma coisa: que apesar da proteção de Zeus e de Palas, Hera acabe vencedora. Não descansa! Nunca vi ódio igual. Desde o dia em que matei as duas serpentes, jamais cessou de conceber meios de dar cabo de mim. E há aquela previsão de Tirésias que me preocupa...

— A tal da tal fogueira de Nesso?

— Sim. Não posso compreender o que seja. Fogo — fogueira — chamas... De que modo posso morrer queimado? Tenho horror ao fogo...

— Ah, o fogo é mesmo uma peste! — disse Emília. — Certa vez, no dia de S.João, lá no sítio, queimei o dedo com pólvora e como doeu! Só quando tia Nastácia molhou a queimadura com querosene é que a dor passou.

— Pólvora? Querosene? — repetiu Hércules, que pela primeira vez ouvia tais palavras.

— Pedrinho e o Visconde se aproximaram.

— Visconde — disse Emília — conte ao Lelé o que é pólvora e querosene.

O Visconde falou como um verdadeiro filósofo.

— A pólvora — disse ele — foi a invenção que deu cabo dos heróis. Nos tempos modernos não pode haver heróis como estes cá da Grécia justamente porque a pólvora não deixa. A força física pouco adianta. Com um tiro até um menino derruba um gigante.

— Tiro?...

— Sim. O tiro é um estouro da pólvora dentro dum cano — e o Visconde explicou como pôde o mecanismo do tiro. Falou das espingardas, dos revólveres, dos canhões, das bombas aéreas tudo artes da pólvora. Mas por mais que explicasse, Hércules ficava na mesma e vinha com perguntas desanimadoras.

— Então um leão como o da Nemeia, ou uma hidra de nove cabeças, ou um javali como o do Erimanto, vocês lá o derrubam com o tal tiro?

— Brincando, Lelé! — gritou Emília.

— Até os rinocerontes e hipopótamos da África, que são dos maiores bicharocos que existem, um caçador qualquer os derruba com uma bala na cabeça.

— Bala?

— Bala é a mensageira do tiro. Há o tiro, que é a voz da pólvora; e logo que o tiro estoura, lá vai a mensageira "bala" cravar-se no inimigo e pronto! Ele estrebucha e morre...

— E que tamanho tem essa mensageira?

— Oh, às vezes é bem pequenina. Para abater um leão da Nemeia ou um javali do Erimanto, basta uma balinha deste tamanho — e mostrou o dedo polegar de Pedrinho.

Hércules assombrou-se. Não podia conceber semelhante prodígio. Como uma coisinha tão minúscula podia dar cabo dum monstro? Emília ria-se.

— É que essas mensageiras varam tudo quanto existe. Varam escudos, varam couraças e penetram no corpo dos atirados.

— Hércules sorriu e, apontando para a pele do Leão de Neméia, que por ser invulnerável trazia sempre consigo, perguntou:

— Vara isto também?

— Se vara!... Brincando...

— Como, se esta pele é invulnerável?

— Invulnerável hoje, aqui, para setas e lanças. Para uma bala de carabina ou revólver, é tão vulnerável como um figo podre...

Emília falou em figo porque Meioameio vinha chegando com uma cesta de figos — e que deliciosos estavam!

— Bons como aqueles da casa de Péricles — disse Emília comendo um. — Está um mel.

— E também arranjei mel — disse o centaurinho apresentando uma ânfora que havia trazido. — E também estas maçãs...

Foi uma festa. Até o herói regalou-se — e a conversa recaiu sobre frutas. Pedrinho contou a história de todas as frutas do sítio de Dona Benta — as jabuticabas, as jacas, as ameixas, as grumixamas, as pitangas, as cabeludas...

—Temos lá as chamadas frutas tropicais — disse o menino. — Aqui na Grécia só há as frutas das zonas frias e temperadas — maçãs, uvas, peras. E tâmaras, Hércules, há por aqui?

Hércules contou que na Grécia só havia tâmaras importadas.

— Também lá onde moramos só há tâmaras importadas. Vêm em latinhas.

Hércules quis saber o que era "latinha".

A dificuldade de conversar com os gregos estava em que eles não podiam ter idéia nenhuma das coisas modernas.

"Lata", "garrafa", "caixa de fósforo",”cigarro"... Como explicar essas coisas para quem nunca as viu? Mas de tudo quanto os pica-pauzinhos disseram o que mais interessou ao herói foram as carabinas e os canhões modernos. Quando soube que um canhão lançava uma bala enormíssima a muitos quilômetros de distância, abriu a boca. E mais ainda quando soube que as balas "estouravam quando caíam."

— Então — disse ele — daqui deste ponto os guerreiros modernos podem destruir uma cidade como Micenas, que fica a dez léguas?

— Brincando! — respondeu Pedrinho.

— Nas lutas do nosso mundo o inimigo recebe balas sem enxergar quem as atira — e falou dos bombardeios aéreos.

— Ah, que custo foi fazê-lo compreender o que era um avião!

— Aves de ferro? Como as do Estinfale?

— Pior, mil vezes pior. São aves enormíssimas que voam a grandes alturas com velocidades prodigiosas, e lá de cima despejam bombas ou balas de tamanhos incríveis. A cidade de Berlim foi destruída por vários dias de chuva de bombas" arrasa-quarteirões."

— Que quer dizer isso?

— Quer dizer que cada bomba arrasava um quarteirão inteiro...

Hércules não parava de assombrar-se.

Depois perguntou:

— Mas então a vida lá no tal mundo moderno é um horror. Se chovem sobre as cidades bombas do céu, como se arranjam as mulheres e crianças?

— Vão todas para o beleléu. Ficam reduzidas a farelo. Aqui a luta é só contra os monstros ou outros guerreiros. Já a fúria das balas não distingue: pega o que encontra. O grande brinquedo dos nossos tempos modernos consiste em destruir, destruir, destruir. Cidades inteiras desaparecem em horas. Populações inteiras são estraçalhadas. Por isso é que nós gostamos tanto da Grécia, tão bonita, cheia de heróis que só atacam monstros, cheia de deuses amáveis, de pastores e pastorinhas, de ninfas nos bosques, de náiades nas águas, de faunos e sátiros nos campos.

Pedrinho confirmou as palavras da Emília.

— Sim, meu caro Hércules. Para nós modernos esta Grécia é tão bonita que por meu gosto eu me mudava para cá. Como vovó gostou da Atenas do tempo de Péricles! Até hoje ela suspira quando se lembra da semana passada lá. Houve uma panateneia em que Narizinho tomou parte — e vovó também, metida num vestido velho de Dona Aspásia... Por mim, eu não saía nunca mais daqui. Acho a Grécia o encanto dos encantos. Um suco!

Hércules recaiu em cismas de olho parado...

O jantar daquele dia foi o melhor de todos. Além dos assados do costume, tiveram uma esplêndida sobremesa. Depois o assunto caiu sobre a aventura de tia Nastácia com o Minotauro na Ilha de Creta. Isso fez que o herói se referisse ao que andava correndo na boca do povo.

— Fala-se muito num touro enfurecido que anda por lá a fazer os maiores estragos. Meu receio é que depois deste meu trabalho, Euristeu me mande dar cabo desse touro...

— "Receio", Hércules? — exclamou Emília. — Pois então Hércules receia alguma coisa?

O herói explicou que se tratava dum "touro louco", e ele tinha medo dos loucos.

— Depois do meu período de demência, fiquei com um verdadeiro horror à loucura. A gente nunca sabe como um louco vai agir. Os loucos me desnorteiam e me causam uma sensação muito desagradável de insegurança...

— Com os bêbados também é assim — disse Pedrinho. — É o que vovó vive dizendo. E por falar em bêbado, Hércules, será verdade o que contam do deus Baco? Que vive bêbado? Lá no nosso mundo moderno chamamos aos bêbados "devotos de Baco..."

Quem contou aos pica-pauzinhos a história de Baco não foi Hércules, e sim o mensageiro de Palas, que inopinadamente reapareceu naquele momento.

Dionisos

Antes de Minervino tomar a palavra, o Visconde explicou que na Grécia nunca houve nenhum Baco. Esse nome é romano.

Na Grécia houve Dionisos, que mais tarde os romanos transformaram em Baco.

— Que história é essa — observou Emília — dos tais romanos mudarem o nome de todos os deuses gregos?

— Ah, depois que os romanos dominaram e conquistaram a Grécia, eles reformaram tudo e foram mudando os nomes. Dionisos virou Baco.

Minervino, que não sabia nada disso, por serem coisas do futuro, admirou-se muito. Depois contou a história de Dionisos.

— Esse deus — disse ele — é filho de Zeus e de Semele, a qual veio a morrer fulminada meses antes que ele nascesse. Zeus então tomou o menino e colocou-o dentro de sua própria coxa, onde o deixou ficar até o dia marcado para o nascimento.

— Que coisa! — exclamou Emília. Esses tais deuses do Olimpo nascem de todos os jeitos. Palas brotou da cabeça de Zeus. Agora este Dionisos sai de sua coxa... Isto me faz lembrar a cartola daquele prestidigitador que apareceu lá na vila no circo de cavalinhos. Não havia o que não saísse de sua cartola: marrecos, pombos, coelhos...

Minervino continuou:

— Assim nasceu Dionisos e foi educado pelas ninfas de Nisa. Mas educado às soltas pelo mundo como um verdadeiro selvagem. Que vida a sua! Mais parecia um herói que um deus. Visitou muitos reis, fez-se amar por Ariadne na Ilha de Naxos, tomou parte na famosa guerra entre os deuses e os gigantes, comandou uma expedição à Índia. Tinha nomes em quantidade: Nísio, Brômio, Ditirambo, Evio, Baco, Zagreu, Sabázio... E andava seguido duma alegre comitiva de sátiros, faunos, ménades, bacantes, silenos e até do deus Pã.

— Que pândego não devia ser! — comentou Emília.

— E não foi o inventor do vinho?

— Indiretamente — respondeu Minervino — porque a uva é atribuída a ele. Vinho não passa de caldo de uva fermentado. Daí o ter-se tornado o deus mais popular de todos, o deus das alegres festas em que há muito vinho e todos ficam de cabeça tonta...

Estas histórias iam sendo contadas durante a marcha para Micenas. Minervino seguia ao lado de Meioameio, de modo a poder conversar com os pica-pauzinhos enquanto caminhavam. E ainda estava ele a falar de Dionisos, quando chegaram a uma aldeia em festas, justamente uma festa dionisíaca, isto é, com muita dança alegre e muito vinho mais alegre ainda. Hércules deu ordem de alto. Seria curioso mostrar aos pica-pauzinhos como era uma festa popular na Arcádia.

Na praça principal da aldeia todo o povo estava reunido para assistir ao desfile duma procissão cômica. Na frente vinha um bode enfeitado de flores e coroas; a seguir dançarinos e músicos tocando flautas e citaras. E uns cantavam e pulavam. E havia os que gritavam como que tomados de delírio. Depois a procissão parou diante dum tablado tosco onde estava sendo levada uma representação teatral muito cômica. Mas tudo no maior entusiasmo.

Minervino ia explicando:

— Eis a alegria dionisíaca. Há uma contaminação geral. Todos vibram de alegria. São as festas de que o povo comum gosta mais.

Pedrinho observou que aquilo devia ser a origem do carnaval moderno, e deu a Minervino uma idéia do carnaval moderno.

— Mas lá o deus do carnaval não é Dionisos, e sim Momo. Os devotos de Momo regalam-se, pulam e divertem-se como aqui, excitados pelo álcool e pelo “ar”. Fantasiam-se de todos os jeitos, com máscaras no rosto e as vestes mais extravagantes. Estou vendo que as coisas do mundo são eternamente as mesmas; só mudam de nome.

O Visconde assanhou-se e resolveu tomar parte na representação. Galgando o tablado, pôs-se também a pular, dançar e cantar. E como todos achassem muita graça naquela esquisitíssima aranha de cartola, tornou-se o herói da festa. Depois deram-lhe um gole de vinho. O Visconde bebeu de um trago — e começou a "exceder-se". Fez coisas de matar de vergonha Dona Benta e tia Nastácia, se elas soubessem.

— Quem o viu e quem o vê! — exclamou Pedrinho. — O nosso Visconde, que era tão grave e sisudo, está agora um perfeito malandro. Até bebe... Imagine se lhe pega o vício e dá em pau d'água

— Assim que chegarmos ao sítio temos de fazer tia Nastácia reformar o Visconde — disse Emília. — Este está cafajéstico demais. O bom era o antigo...

Hércules gostava de vinho e quase bebeu também. Emília não deixou.

— Nada, Lelé! Você com vinho na cabeça há de tornar-se a peste das pestes. É capaz de fazer as maiores loucuras e dar cabo de toda esta pobre gente. Não quero que beba!

Hércules suspirou.

Como já fosse tarde, resolveram dormir naquela aldeia. No dia seguinte, antes que a população saísse da cama, já estavam de novo a caminho.

— Estou achando um ar de quarta-feira de cinzas — observou Pedrinho — e contou ao mensageiro de Palas como eram as quartas-feiras de cinzas lá no mundo moderno, quando toda gente que tomava parte nas festas do carnaval aparecia com cara de ressaca e um gostinho de cabo de guarda-chuva na boca.

Minervino ainda contou muita coisa das festas dionisíacas e das outras festas populares dos helenos. Naquele tempo as palavras "Grécia e grego" não existiam. Aquilo ali ainda era a "Hélade", e os seus habitantes se chamavam "helenos."

— Por que é assim? — quis saber a Emília — e foi o Visconde quem explicou. Apesar da sua ressaca, o sabuguinho ainda estava funcionando muito bem.

— Houve por aqui um chefe de tribo de nome Helen, filho de Deucalião e Pirra, o qual se fez rei da Etiótida. Por causa disso seus súditos passaram a chamar-se helenos, e estas terras todas da Grécia passaram a ser conhecidas como a Hélade, ou o país dos helenos.

— Mas donde vieram esses helenos? — quis saber Pedrinho.

— Diz a história que procediam do Cáucaso, onde a raça é branca e muito bonita. Emigraram de lá para aqui no tempo dos pelasgos, que eram uma espécie de índios daqui, ou habitantes primitivos. Como fossem muito valentes e inteligentes, os helenos submeteram os pelasgos e se substituíram a eles.

— Como lá em nossa terra os portugueses se substituíram aos índios — cochichou Emília para Hércules — a quem andava ensinando muita coisa da história americana em geral: Bolívar, Washington, Frei Caneca.

O Visconde continuou:

— Foram os romanos quem mais tarde descobriram esse nome de Grécia. A mania deles era mudar o nome das coisas, e muitas vezes mudavam para pior, porque Hélade me parece muito mais bonito que Grécia.

A prosa foi logo depois interrompida por um incidente verdadeiramente maravilhoso. Em certo ponto, ao dobrarem uma curva da estrada, deram com um enormíssimo gigante a gemer sob um peso tremendo. Era Atlas!... Era o gigante Atlas, condenado a sustentar o céu sobre os ombros...

O espanto dos pica-pauzinhos não teve limites. Todos ficaram com os olhos tão arregalados que quase lhes caíam das órbitas, e Emília pela primeira vez na vida tremeu. Minervino explicou que Atlas era um dos gigantes, ou titãs, que haviam feito guerra aos deuses do Olimpo. Foram vencidos e castigados. A Atlas, Zeus condenou a ficar toda a vida suportando nos ombros o peso dos céus.

Hércules aproximou-se dele e perguntou por que gemia tanto.

— Ah, herói! — respondeu o gigante — Gemo porque estou ansioso por ir roubar um dos pomos do Jardim das Hespérides e não posso. Se largo isto, o céu cai sobre a terra e esmaga-a.

Hércules, herói de melhor coração que jamais houve no mundo, apiedou-se do titã e disse:

— Pois vá em busca do pomo de ouro que eu fico sustentando o céu. Mas não demore muito.

Atlas sorriu e, passando o céu para os ombros do herói, desapareceu.

— Emília ficou assombrada. Apesar de saber da força imensa do Lelé, jamais supôs que chegasse àquele ponto. Sustentar o céu nos ombros!... E com medo de que ele não agüentasse e caísse esmagado aproximou-se e:

— Não abuse dessa maneira, Lelé! Largue disso. O condenado a sustentar nos ombros o céu foi o gigante, não você — mas Hércules nada respondeu: não podia nem falar.

Aquilo assustou os pica-pauzinhos. E se Atlas não voltasse? Ou se quando voltasse já Hércules estivesse esmagado pelo peso? Mas felizmente Atlas voltou. Vinha radiante, com o pomo de ouro na mão.

— Pegue o céu depressa, que Lelé já está sem fala — não agüenta mais! — gritou-lhe Emília na maior impaciência.

Atlas piscou velhacamente.

— Arcar outra vez com esse peso, eu que consegui livrar-me dele? Ah, ah, ah... Quem é tolo que peça a Zeus que o mate e a Caronte que o carregue.

Emília viu as coisas mal paradas. Se aquele estafermo não retomasse o seu posto, Hércules arriaria a carga — e lá desabava sobre a terra a imensidade dos céus, com todas as estrelas, planetas, cometas — e como era? Nem uma perninha de pulga escaparia ao mais completo esmagamento. Foi o que Emília explicou ao gigante Atlas.

— Se você não segura o céu, já, já, que acontece? Lelé arreia, coitado, e o céu vem abaixo, e o primeiro esmagado vai ser justamente você, que é o mais grandalhão. A lua bate nessa sua cabeça antes de bater nas nossas.

E apontando para Hércules, que já dava sinais de exaustão:

— Não vê que suas forças já estão no fim? Mais uns segundos e pronto — Lelé arreia... Tenha dó, pegue um bocadinho enquanto ele toma fôlego.

Atlas, na sua imensa burrice de gigante, resolveu "pegar o céu um bocadinho enquanto Hércules tomava fôlego" — e recolocou-o aos ombros.

Que alívio! Ao ver-se liberto de tamanho peso, o herói caiu sentado, sem falar, pálido como a morte. Emília abanou-o no rosto, deu-lhe água a beber. Hércules foi voltando a si. Assoprou-se, tal qual o Visconde. O sangue foi-lhe voltando ao rosto. Por fim falou:

— Arre!... É peso... Estou como que esmagado por dentro. Mais uns segundos e arriava a carga.

Cinco minutos se passaram. Achando que Hércules já devia estar suficientemente descansado, Atlas chamou-o:

— Venha, amigo! Basta de fôlego...

Emília levou as mãozinhas à cintura e disse:

— Bobo alegre!... Quem vai ficar aí toda a vida é você, porque foi você, não Lelé, quem se revoltou contra os deuses. Agüente!...

Ao ouvir isso, Atlas teve um acesso de fúria, e mesmo de céu aos ombros espichou a mão para agarrar Emília e torcer-lhe o pescoço. Com esse movimento a abóbada celeste vacilou, quase caiu... Foi um instante terrível. Hércules, de um pulo, escorou o céu dum lado — enquanto Pedrinho quase arrancava o braço de Emília com o puxão que lhe deu.

O perigo passou. Todos respiraram O céu havia voltado ao equilíbrio de sempre, bem firme no ombro de Atlas.

Pedrinho ainda estava com o coração aos pulos, do tremendo perigo passado. Custou-lhe voltar ao normal. Nisto viu Emília arrumando qualquer coisa na canastrinha. Espiou. Era o pomo das Hespérides! Atlas o havia deixado cair no chão e ela, mais que depressa o apanhara e escondera...

Euristeu enfurece-se

Foi um alívio quando chegaram de novo ao acampamento de Micenas.

— Uf! ... — exclamou Emília. — Escapamos de boa. Tive medo que depois do caso do gigante ainda nos acontecesse mais alguma. Não há o que não aconteça nesta Hélade...

O herói estava derrancado. O esforço que tinha feito para sustentar o céu fora o maior de toda a sua carreira. Chegou e caiu na relva para um sono de vinte e quatro horas. Esqueceu-se até de comer. Os grandes cansaços tiram a fome.

Enquanto Hércules dormia, os pica-pauzinhos ocuparam-se das coisas do costume. Pedrinho deu ordem a Meioameio para "cavar" seis carneiros.

— Sim, porque a fome de Hércules, quando acordar, vai ser dupla. Traga seis, ou sete...

O sono de Hércules foi o mais prolongado de sua vida. Vinte e quatro horas! Meioameio voltou com a carneirada. Matou-os, assou-os e ali ficou com aquela carnaria toda à espera de que o herói acordasse. Só no dia seguinte, lá pelas onze, Hércules abriu os olhos. Espreguiçou-se.

— Onde estou eu? — disse estremunhado — mas ao dar com os seis carneiros no espeto sorriu e seu jantar foi verdadeiramente hercúleo. Só deixou os ossos.

— Que sono, Lelé! — exclamou Emília. — Pensei que não acordasse mais.

O herói sorriu.

— Sono de quem teve de sustentar o céu às costas... — disse ele. — Acha que é brincadeira? — E o resto do dia passaram ali no acampamento recordando as peripécias do Sexto Trabalho.

Pedrinho observou:

— Acontecem por aqui coisas que lá em nosso mundo ninguém acredita nem pode acreditar. A aventura do gigante Atlas, por exemplo. Quem lá em nosso mundo vai acreditar numa coisa assim? Começa que lá Atlas não é gigante nenhum, e sim um livrão com uma série de mapas — Europa, Ásia, África, América e Oceania...

— E é também o nome de um osso acrescentou o Visconde — uma das vértebras que sustentam a cabeça.

— E é também o nome duma montanha do norte da África — lembrou ainda Pedrinho. — Ah, cada vez gosto mais desta Grécia. Que terra! Vai a gente por um caminho e de repente que vê? Um titã sustentando o céu... Bem diz Emília que isto é a terra do "não há o que não haja..."

Hércules confessou que estava sentindo uma dor nas costas.

— Pudera! — exclamou Pedrinho. — E bom será que não esteja com qualquer quebradura lá por dentro. Você abusa, Hércules. Um dia se estrepa...

Hércules ainda ignorava que o pomo de ouro estivesse com Emília. Quando soube, quis ver. Tomou-o na mão, contemplou-o longamente e disse:

— Vocês não calculam o que tem havido nesta Grécia por causa destes pomos... Há certos tesouros que constituem uma verdadeira desgraça para o mundo. Todos querem possuí-los — e sobrevêm guerras, lutas, calamidades. Estes pomos têm dado o que fazer aos heróis — e o primeiro que sai lá do Jardim das Hespérides é justamente este...

Emília estava com medo de perder a preciosidade. Pensou, pensou, e por fim teve uma idéia: esconder o pomo dentro de uma casca de laranja. Assim camuflado, ninguém o furtaria. Mas onde a laranja?

— Não há laranjas por aqui, Minervino? — perguntou ela ao mensageiro de Palas.

— Sim, há. A laranja é uma fruta comum a todos os países destes mares.

Estes mares queria dizer o Mediterrâneo e os pequenos pedaços do Mediterrâneo que têm tantos nomes: Mar Tirreno, Mar Adriático, Mar Egeu, Mar Negro. Todas as terras banhadas por esses mares são laranjíferas. Mas como ali por perto do acampamento não houvesse laranjeira nenhuma, Emília pediu a Meioameio que, quando encontrasse alguma, não deixasse de lhe trazer.

— Quero uma laranja um pouco maiorzinha que o pomo...

No dia seguinte, bem descansado, foi Hércules para Micenas dar conta ao soberano da realização daquele últimoTrabalho. Ao saber que o herói havia espantado para longe as aves do Estinfale, Euristeu mordeu o beiço.

— Minha ordem não foi essa! — berrou erguendo-se do trono. — Minha ordem foi para que destruísse aquelas aves. Se se limitou a espantá-las, logo as teremos lá outra vez.

— Não há perigo, Majestade. A lembrança do som daqueles címbalos fará que nunca mais voltem.

— Que címbalos?

— Os címbalos com que Hefaistos presenteou a grande deusa Palas.

Euristeu, que de nada sabia, arregalou os olhos.

— E como os obteve?

— Diretamente do Olimpo, mandados por Palas por intermédio dum mensageiro.

Euristeu olhou para Eumolpo, ali muito lambeta ao lado do trono. O caso se complicava. Se Hércules andava assim tão protegido por Palas, então Hera tinha de tomar outras providências. E Euristeu esfriou. Conhecendo o poder de Palas, teve medo de que essa deusa, na fúria de proteger Hércules, acabasse dando cabo dele, Euristeu. Tinha de pensar naquilo.

— Bom, se é assim — disse para Hércules — apareça aqui amanhã. Vou pensar no assunto e ver qual o novo Trabalho.

Hércules voltou ao acampamento e no dia seguinte lá compareceu perante o rei, cujo ar já não era o da véspera. Mais alegre e confiante, como quem está de idéias novas. A razão da mudança era que em sua conferência com o ministro Eumolpo este lhe havia falado assim: "Há uma coisa que talvez Hércules não consiga realizar: a destruição do Touro de Creta." Euristeu ignorava o que fosse. "Que touro é esse?" perguntou. E Eumolpo respondeu: "Ah, Majestade, é um touro gigantesco que está tomado de loucura. Um touro louco! Se um simples cão hidrófobo é o que sabemos, imagine-se um touro louco! Impossível que desta vez Hércules saia vitorioso." Euristeu sorriu diabolicamente — e foi à esfregar as mãos que recebeu o herói.

— Às ordens de Vossa Majestade! — disse Hércules, humilde como sempre. — Aqui estou para receber a missão que Vossa Majestade haja por bem confiar-me.

E Euristeu, com um riso mau na boca feia:

— Quero que vá à Ilha de Creta e me traga vivo o Touro Louco. Só.

Hércules retirou-se bastante aborrecido. Touro louco! Depois de seu período de loucura viera-lhe um incoercível medo aos loucos. Mas que fazer? Eram ordens do rei. Tinha de cumpri-las — e voltou para o acampamento com a noticia.

— Temos agora de ir a Creta! — gritou de longe para os pica-pauzinhos. Há lá o tal Touro Louco. Euristeu quer que eu lhe traga vivo esse monstro...

Emília bateu palmas.

— Creta? A ilha do Minotauro? Que amor!... Eu já estava com saudades dessa ilha onde passamos dias tão interessantes — e contou a Hércules toda a história de tia Nastácia quando esteve detida no labirinto do Minotauro.

Hércules espantou-se.

— Como? Pois então entraram no labirinto e conseguiram sair? Isso me parece um portento, porque quem lá entra nunca mais encontra a porta de saída.

— Pois nós entramos e saímos. E descobrimos lá dentro tia Nastácia a fazer bolinhos e o tal Minotauro gordo como um porco de tanto comer bolinhos — e desfiou a história inteira.

— Hoje — disse ela — o coitado deve estar magríssimo e portanto muito mais perigoso. Quando terá mais daqueles bolinhos?

Hércules quis saber o que eram “bolinhos", e Emília os pintou tão gostosos que lhe veio água à boca. O herói suspirou. "Bolinhos", "pipocas", "cocadas de fita", "manjar branco", "quindins", "rosquinhas" — ah, como deviam ser deliciosos os doces e quitutes daquela cozinheira cujo nome vivia na boca dos pica-pauzinhos!

— Sim — disse Emília. — Tia Nastácia é a Circe da cozinha. Pega um pato e faz um "pato com arroz" que é da gente comer e berrar por mais. E para doces, então, não há igual. Dona Benta diz que ela é uma "doceira do céu..."

Meioameio, que tudo ouvia, lambeu os beiços.

O dia seguinte passaram-no em preparativos. O Templo de Avia foi reformado e enfeitado com uma série de placas comemorativas dos Trabalhos realizados.

Pedrinho fincou em redor do templo uma porção de estacas, cada uma tendo na ponta uma escultura tosca: um leão, uma hidra, um javali, uma ave de pena de bronze, uma corça — mas engasgou na representação do Quinto Trabalho: a limpeza das cavalariças de Augias. Como figurar aquilo numa escultura?

Emília resolveu o problema.

— Faz de conta que as cavalariças são um cavalo e os Rios Alfeu e Peneu são dois cachorros que se atiram contra o cavalo e foi assim que Pedrinho figurou em sua escultura o Quinto Trabalho de Hércules.

Em seguida pôs-se a diabinha a pensar na "defesa" do pomo de ouro. Não era conveniente andar com ele na canastrinha, viajando de um ponto para outro. Muito melhor guardá-lo bem escondido ali mesmo. E foi o que fez. Pediu a Pedrinho que cavasse um buraco bem fundo. Ajeitou lá dentro o pomo de ouro e a pena de bronze. E depois de tudo bem coberto com terra, mandou que Hércules botasse uma grande pedra em cima.

Postar um comentário

0 Comentários