Biografia de Castro Alves

biografia Castro Alves

Se o primeiro romantismo tem seu ponto culminante com Gonçalves Dias, cantando, sobretudo, o Indianismo, a segunda etapa do movimento conhecerá seu ápice com a presença surpreendente de CASTRO ALVES, que, principalmente com seus poemas fundamentados na escravidão negra, levará esse ciclo de trabalhos, abarcador de elementos não-europeus constitutivos do povo brasileiro, a uma dimensão jamais atingida. Mas, se no Indianismo, houve uma exaltação mítica da origem do país, em Castro Alves, a tensão entre negros e escravagistas, entre oprimidos e opressores, além de demarcar o contínuo conflito inerente a todo e qualquer processo histórico, está a serviço do futuro. Este poeta, que sempre lutou pela abolição da escravatura, combateu igualmente pelas liberdades e justiças sociais; a eloquência retumbante, o virtuosismo rítmico, a forte carga dramática e a imaginação plástica de seus poemas inflamavam as massas liberais, para quem muitas vezes ele recitou seus poemas. Já afirmaram o poeta baiano ter sido o maior episódio da literatura participante do Brasil; para muitos, o último adjetivo é inteiramente dispensável.

OBRAS

Espumas Flutuantes (1870); Gonzaga ou a Revolução de Minas (1875); A Cachoeira de Paulo Afonso (1876); Vozes D'ÁfricaNavio Negreiro (1880); Os Escravos (1883); Obra Completa (1921).

UM POETA QUASE INCONCEBÍVEL

“Nesse poema, que vai da mais doce emoção ao falar do mar e dos marinheiros aos mais terríveis gritos de dor ao contar do sinistro bailado dos escravos [...] nesse poema ele sobrepujou a si mesmo. É quase inconcebível o reunir de tanta beleza e tanta emoção. A língua portuguesa se enriquece com ele e a humanidade também. É um canto de dor e de revolta como poucos se hão escrito.” (Jorge Amado, ABC de Castro Alves)

A MAIOR FORÇA VERBAL

“E há que reconhecer nele a maior força verbal e a inspiração mais generosa de toda a poesia brasileira.” (Manuel Bandeira, Notícia sobre o Poeta)

Extrato da obra "Navio Negreiro"

Era um sonho dantesco... o tombadilho,/ Que das luzernas avermelha o brilho,/ Em sangue a se banhar./ Tinir de ferros... estalar de açoite.../ Legiões de homens negros como a noite/ Horrendos a dançar...// Negras mulheres, suspendendo às tetas/ Magras crianças, cujas bocas pretas/ Rega o sangue das mães:/ Outras, moças, mas nuas e espantadas,/ No turbilhão de espectros arrastadas,/ Em ânsia e mágoa vãs!// E ri-se a orquestra irônica, estridente.../ E da ronda fantástica a serpente/ Faz doidas espirais.../ Se o velho arqueja, se no chão resvala,/ Ouvem-se gritos... o chicote estala.../ E voam mais e mais...// Presa nos elos de uma só cadeia,/ A multidão faminta cambaleia,/ E chora e dança ali!/ Um de raiva delira, outro enlouquece,/ Outro, que de martírios embrutece,/ Cantando, geme e ri!// No entanto o capitão manda a manobra,/ E após fitando o céu que se desdobra/ Tão puro sobre o mar,/ Diz do fumo entre os densos nevoeiros: — “Vibrai rijo o chicote, marinheiros!/ Fazei-os mais dançar!...”// E ri-se a orquestra irônica, estridente.../ E da ronda fantástica a serpente/ Faz doidas espirais.../ Qual num sonho dantesco as sombras voam!/ Gritos, ais, maldições, preces ressoam/ E ri-se Satanás!

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