'Hércules e Cérbero' - Os 12 Trabalhos de Hércules

ler hercules e cerberus

Os 12 Trabalhos de Hércules 

Hércules e Cérbero 

Monteiro Lobato 

Hércules já realizara onze grandes Trabalhos, saindo plenamente vitorioso. Estava agora incumbido do último e o mais difícil. Tinha de descer ao sombrio reino de Hades, e trazer de lá o famoso Cérbero.

— Que é esse reino? — quis saber Pedrinho; e o mensageiro de Palas explicou:

— É o reino subterrâneo para onde vão as sombras dos mortos. À entrada está Cérbero, o horrível mastim de três cabeças e cauda de dragão — três cabeças diferentes. A missão de Cérbero é impedir que os heróis penetrem nos domínios de Hades. Só isso. Porque os heróis se atrevem às maiores loucuras até a se baterem com os deuses, como no caso de Héracles e Ares. Os deuses, pois, têm que tomar precauções.

Emília quis saber pormenores do deus Hades. Minervino contou.

— É irmão de Zeus e Posseidon, de Hera e Deméter. Filho do velhíssimo deus Cronos, que é o Tempo. Na repartição do mundo coube-lhe o reino dos infernos subterrâneos, de onde só saiu uma vez para raptar Perséfone, filha de Deméter, com a qual se casou.

— Está aí uma coisa que não compreendo — disse Pedrinho. — Como é que a filha duma deusa do Olimpo se conforma em deixar a beleza do céu para ir morar na feiúra do inferno? Maior mau gosto nunca vi...

— É que ela não foi morar lá por gosto. Hades raptou-a — e foi o rapto mais célebre do mundo.

— Conte, conte...

— Aquilo não passou de uma conspiração. Condoído da sorte de seu irmão Hades, Zeus consentiu nesse rapto. Que linda era Perséfone! Estava um dia brincando na praia com as filhas do Oceano e a colher flores num prado vizinho: rosas, belas violetas, gladíolos. Súbito, deu com um jacinto maravilhoso de brilho e aroma. Não parecia um jacinto comum...

— E aposto que não era — adivinhou Emília.

— Sim, não era. Aquilo fazia parte da conspiração. A maravilhosa flor brotara justamente para atrair Perséfone ao ponto onde ia abrir-se o solo e da fenda irromper Hades em seu carro de corcéis infernais. Agarrada pela cintura, a pobre Perséfone foi levada aos gritos para dentro da terra...

— E Deméter, sua mãe, não fez coisa nenhuma lá no Olimpo?

— Sim. Fez um barulho medonho, até que afinal conseguiu um entendimento: Perséfone passaria metade do ano com ela no Olimpo e outra metade no inferno com Hades.

Pedrinho tentou imaginar como seria o palácio de Hades. Não conseguindo formar idéia, consultou Minervino.

— Ah, um palácio severíssimo, de colunas de prata, rodeado de altas rochas. À sua frente espraia-se a Lagoa Estígia, de águas paradas. Como lá não existem ventos, nunca as agitam a menor ondulação. Nela despejam vários rios que descem como torrentes da superfície da terra. Para chegar ao palácio é preciso atravessar a lagoa. Só existe uma barca, a do velho Caronte. Mediante o pagamento de um óbulo, o sinistro barqueiro transporta a sombra dos mortos.

— Eu sei! — berrou Emília. — Daí vem o costume grego de enterrar os mortos com uma moedinha no peito. É para pagamento a Caronte. Já vimos isso em nossa primeira viagem a esta Grécia.

— Sim. Todos têm que pagar o seu transporte. No reino de Hades há várias zonas. Para as mais sombrias, lá nos abismos do Tártaro, vão as sombras dos inimigos dos deuses. As sombras dos amigos dos deuses ficam nas zonas mais agradáveis, onde em vez de trevas há penumbras. São os Campos Elísios.

— E como é a corte desse deus Hades?

— Na entrada fica o temível Cérbero de três cabeças, filho do titã Tifon e da ninfa Equidana — "ninfa imortal e perpetuamente livre do envelhecimento". Cérbero deixa entrar as sombras, mas não permite que nenhuma saia. Depois há os três juizes que julgam os mortos e os mandam para esta ou aquela zona: Radamanto, Minos e Éaco...

Um arrepio perpassou pelo corpinho de Emília — brr... Viu-se lá, diante dos três severíssimos juizes, interpelada a respeito dos insultos que andou lançando contra Zeus e Hera... Minervino continuou:

— Depois de Hades e sua esposa Perséfone, vêm as divindades infernais menores. Em primeiro lugar as Queres ou as Moiras, que são gênios da morte e da vingança; perseguem todos os culpados, sejam homens ou deuses, e não descansam antes de castigá-lôs. As Queres são negras de dentes alvíssimos e olhos ferozes, sanguinárias e implacáveis. Atiram-se sobre os que caem nas lutas, arrancam-lhes a alma, e lá se vão com elas para o reino de Hades.

— Então andam pela terra?

— Sim, mas invisíveis para os vivos. São as matadoras dos homens. Andam pela terra matando gente para lhes arrancar a alma.

— Bom, então isso é o que lá no mundo moderno nós chamamos Morte — observou Pedrinho. Aqui são verdadeiras cachorras de caça — caçadoras de almas...

— E que mais há lá? — quis saber Emília.

— Há as Harpias — continuou Minervino. São aves com cabeça de mulher, asas e garras. Também andam pelo mundo caçando gente para abastecer de sombras o reino de Hades. E há as Erínias, ou Eumênides, que do mesmo modo que as Harpias, são demônios de asas com cabelos de serpentes. Também caçam almas. Voam às vezes com um archote em punho, outras vezes com um látego. A voz delas é como a dos touros enrouquecidos. Por onde passam, as plantas morrem, vítimas do seu hálito pestilento. As Erínias caçam as almas dos culpados e sobretudo as dos maus filhos.

E Minervino ainda contou muita coisa do reino de Hades, deixando-os arrepiado-se com muito pouco desejo de acompanhar Hércules em sua aventura.

O grande herói estava imerso em profunda meditação. Aquele Trabalho nada tinha de semelhante aos anteriores. Obrigava-o a preparar-se. Cumpria-lhe, antes de mais nada, iniciar-se nos "mistérios de Elêusis", a fim de conquistar a boa vontade de Deméter, mãe da rainha dos infernos.

— Temos que ir a Elêusis — disse ele — e para lá partiu o bandinho, do mesmo modo que havia partido para tantos outros lugares. Hércules à frente, abrindo a marcha. Depois, Pedrinho montado em Meioameio. Depois, o pobre Lúcio com o picuá e Emília montada de banda, como as amazonas de saia comprida.

Os presentes ganhos das Hespérides e mais coisas tinham ficado no acampamento, debaixo da grande pedra.

Chegados a Elêusis surgiu uma complicação. Nos famosos mistérios de Deméter não podiam iniciar-se os de fora — e Hércules era ali um estrangeiro. O meio foi fazer-se adotar por Filio, um seu amigo residente lá. Depois outra complicação: Hércules estava manchado pelo crime da matança dos centauros. Teve de submeter-se a uma purificação. Só depois disso pôde iniciar-se nos mistérios de Elêusis e conquistar as boas graças de Deméter.

E agora? Por que porta penetrar no reino de Hades? Havia diversas. Uma, o Rio Aqueronte, que em vez de despejar-se no mar despejava-se num pantanoso lago de exalações pestilentas, perto da cidade de Efira. Era esse lago uma das bocas do inferno. Outra boca era uma fenda no Cabo Tenaro, na Lacônia. Hércules escolheu esta última.

Bom. O herói ia penetrar no Hades, mas seus companheiros? Seria absurdo levá-los também. Hércules deu as suas razões e ordenou que ficassem por ali à espera. Pedrinho respirou. Se havia uma coisa no mundo que não desejasse fazer era aquilo: penetrar no inferno. Mas com grande surpresa de todos Emília disse:

— Pois eu vou. Não posso abandonar Lelé justamente na sua aventura mais perigosa. Quem sabe se não vai precisar de mim por lá?

O herói comoveu-se com tamanha dedicação; seus olhos umedeceram-se, e mais ainda quando o sabuguinho declarou: "E eu também. Dona Benta me recomendou que não largasse da Emília."

Hércules ainda tentou demover os dois pequenitotes de um passo tão perigoso. Não conseguiu. Quando Emília encasquetava uma idéia, não era à toa: não havia no mundo o que a demovesse.

E Hércules, Emília e o Visconde desceram pela fenda que dava nos campos fronteiros à Lagoa Estígia.

No Inferno

A primeira coisa que Emília e o Visconde viram ao pisarem naquele plaino foi uma grande quantidade de sombras de mortos. Sombra não tem medo de sombra, mas foge de quem não o é e todas fugiram ao darem com o herói e mais as duas criaturinhas vivas. Fugiram, desapareceram ao longe. Só duas ficaram: a sombra de Meleagro e da Medusa degolada por Perseu. Meleagro era amigo, pois fora um dos companheiros de Hércules na expedição dos argonautas, mas a Medusa era a Medusa e Hércules armou o dardo para combatê-la. Uma voz o advertiu:

— Não vês que é uma sombra, Héracles?

Voz de Minervino! Sem que eles vissem o mensageiro de Palas também descera ao Hades. Hércules baixou a arma, desapontado. Depois seguiu rumo à barca de Caronte. Tinham de atravessar a Lagoa Estígia. Surgiu uma complicação. O velho Caronte só transportava sombras, não vivos. Recusou-se a recebê-los em sua barca.

— Mas nós trazemos os óbulos — xereteou Emília.

Caronte baixou os olhos para aquele pelotinho de gente e até se assustou: e mais ainda quando deu com o sabuguinho de cartola. De cartola e falante, pois o Visconde também meteu o bedelho.

— Sou o escudeiro deste grande herói e aconselho ao velho Caronte a não nos atrapalhar. Meu amo já se desempenhou das mais temerosas incumbências do rei Euristeu, e não será um velho barqueiro quem lhe irá barrar o passo.

O espanto de Caronte não tinha limites. Hércules, que estava disposto a agir com prudência, olhou para Emília. "Que fazer, dadeira?"

Emília aplicou o faz-de-conta.

— Faz de conta que somos sombras mal — disse isso e já o rosto de Caronte demudou. Enfitou-os de novo com maior atenção e por fim disse:

— Perdoem-me. Pareceu-me a princípio que eram seres vivos, agora vejo que são sombras — e estendeu a mão para receber os óbolos. Hércules não se lembrara desse detalhe. Não havia trazido óbolo nenhum. Nem Emília, nem o Visconde. Quem salvou a situação foi Minervino. Tirou do bolso quatro óbolos e apresentou-os ao velho. Emília interveio:

— Esperem! São três óbolos só. O Visconde não paga, porque não é gente.

Caronte não compreendeu — mas Emília explicou tão bem a "sabuguice" do Visconde que o velho se deu por convencido. "Vá lá, três óbolos" e recebeu-os da mão do mensageiro de Palas. Emília enfiou no bolso o quarto — para o seu museuzinho!...

A barca de Caronte atravessou a lagoa. Todos saltaram do outro lado. Começava ali a mansão de Hades. Atrás do palácio é que ficava a porta do inferno, com o cão de três cabeças de guarda. Era um pátio imenso, cheio de sombras com vários vivos que de um modo ou de outro tinham atravessado a lagoa e lá estavam prisioneiros.

— Olhe quem está cá!... — berrou Emília apontando.

Hércules olhou. Era Teseu...

Mas encadeado, como o titã no Cáucaso. Hércules dirigiu-se ao grande herói e perguntou como viera parar ali. Teseu contou a sua estranha aventura. Ele e Pírito, seu companheiro tinham imaginado a mais tremenda de todas as aventuras: desceram ao Hades para raptar Helena e também Perséfone, a esposa de Hades.

Emília estremeceu ao ouvir tal confissão. Que loucura! Vá que Pirilo pensasse em raptar Helena; mas o atrevimento de Teseu com sua idéia de raptar a própria esposa do deus dos infernos era dessas coisas para as quais a ex-boneca só tinha em seu vocabulário uma palavra: "batatal!"

— Pois cá viemos — disse Teseu. Enganamos Caronte, atravessamos a Estígia. Chegamos a entrar no palácio de Hades, o qual nos recebeu muito bem mas só na aparência. Mandou-me sentar em certo assento. Sem desconfiar de coisa nenhuma, sentei-me — e imediatamente senti minhas carnes aderidas àquele assento, de baixo do qual saíram serpentes que se enlearam em meu corpo. Mesmo assim consegui escapar. Fui, porém, agarrado e encadeado aqui a esta pedra...

Hércules não respeitava cadeias de bronze. Fez com as que prendiam o herói da Ática o mesmo que com as do titã lá no Cáucaso: despedaçou-as com um empuxão violento. Estava livre o grande Teseu.

— Obrigado, Héracles. Vamos agora libertar o meu companheiro.

Mas na voz de libertar Pirilo, tudo mudou. A terra foi sacudida de um violento terremoto. Era sinal de que os altíssimos deuses se opunham à libertação do audacioso maluco que planejara o rapto de Perséfone.

— Não convém insistir — cochichou Minervino ao ouvido do herói. — O crime de Pirilo é grande: é dos que os deuses supremos jamais perdoam; e Hércules desistiu da idéia. Lá deixou Pirilo entregue à sua infeliz sorte.

Hércules, coitado, tinha um grande coração. Os horrores que por ali viu confrangeram-no. Entre outras coisas, sombras de defuntos que estavam esperando a vez de transpor as portas e se estorciam nos horrores da sede. Tanta água ali perto e sombras morrendo de sede...

— Por que não bebem a água da lagoa? — indagou Emília — e Minervino respondeu que eram ainda mais salgadas que as do mar.

Hércules, compadecido, teve uma lembrança feliz. Degolou um dos bois do rebanho de Hades que pastava por ali e deu o sangue às sombras sequiosas.

Aquele rebanho, porém; era guardado pelo pastor Menetes, o qual acudiu em defesa do boi capturado, com palavras de desafio ao herói. Hércules agarrou-o pela cintura e

amassou-o, quebrando-lhe várias costelas. Nesse momento, um grito. Era Perséfone. Tinha presenciado a cena e correra a salvar o pastor. Pediu a Hércules que o largasse. Hércules atendeu.

— Deusa, disse ele, não vim para brigar, senão para conferenciar com o vosso divino esposo.

— Acompanhe-me — respondeu Perséfone, e introduziu-o à presença do rei. Minervino, Emília e o Visconde seguiram atrás, como três sarnas.

Hades estava no trono. Um deus sombrio, soturno, cujo nome os gregos não gostavam de pronunciar. Todas as coisas a ele associadas eram terríveis e tétricas. Nada em seu reino que lembrasse as amenidades do Olimpo. Emília esfriou ao vê-lo. Teve medo. Foi uma das raras vezes em que realmente teve medo.

Hércules adiantou-se e disse:

— Divindade, aqui estou por ordem de Euristeu para levar vivo a Micenas o cão Cérbero.

Hades sorriu — e que sorriso impressionante! Era o sorriso dum deus que conhece a sua quase onipotência. Perséfone, ao seu lado, majestosamente bela, tinha os olhos na figura titânica do famoso herói. Conhecia toda a sua história e em seus músculos sentia a força de Zeus, cujo sangue corria nas veias de Hércules.

Depois daquele apavorante sorriso de Hades e duma pausa de alguns segundos — a mais sinistra pausa que se possa imaginar — o deus dos infernos disse:

— Cumpri a ordem do vosso rei. Levai Cérbero, mas não consinto que o ataqueis com arma nenhuma.

Hades tinha a mais absoluta certeza de que corpo a corpo, sem uso de arma nenhuma, Hércules, ou qualquer outro herói, jamais conseguiria apoderar-se do guardador da porta do inferno. E se lhe deu licença para levar Cérbero, foi na convicção de que o herói acabaria nos dentes do monstro. O seu sorriso era o antegozo do fim trágico duma criatura considerada invencível.

— Ide.

Foi assim que deu por encerrada a audiência. Hércules fez uma saudação para retirar-se. Perséfone o deteve.

— Quem são essas figurinhas que o acompanham?—perguntou com os olhos em Emília e no Visconde.

Hércules fez a apresentação de seu escudeiro e da sua "dadeira".

— Dadeira? — repetiu Perséfone, que pela primeira vez ouvia semelhante palavra.

— Sim — respondeu Hércules respeitosamente. — Emília me fornece idéias nos momentos graves. Sua inteligência me assombra; e a pedido da deusa contou duas ou três passagens da criaturinha.

Perséfone fez um ar apiedado. "Héracles já esteve demente. Correu que sarara. Vejo agora que sua loucura é das incuráveis..." foi o pensamento da deusa.

O herói retirou-se acompanhado das "sarnas". Dirigiu-se para a porta do inferno.

— Lá está ele!... — berrou Emília.

Ele sim. Cérbero... Lá estava à porta da mansão das sombras o horrendo mastim de três cabeças. Bem certo o que diziam: três cabeças diferentes, corpo de mastim e cauda de dragão.

Cumprindo as exigências do deus, Héracles abandonou as armas que trazia, inclusive a pele do leão. Como a usasse feito escudo, lealmente considerava aquilo arma.

Mas a dadeira interpôs-se.

— Isso não, Lelé! Hades falou em armas, não falou em pele.

— Mas esta pele tem sido o meu escudo, já que é invulnerável.

— Isso sabemos nós e mais ninguém. E como ninguém sabe que essa pele é o

melhor dos escudos, meu conselho é que não a ponha de lado.

Hércules, indeciso, olhou para o Visconde e para o mensageiro de Palas. Ambos foram da mesma opinião. Três votos contra um. Hércules, que já havia largado a pele revestiu-a novamente — e foi o que lhe valeu!...

Emília ficou de coração parado e fôlego suspenso quando o herói se dirigiu para Cérbero com o mesmo passo firme com que se dirigira para o touro de Creta. Impavidez era ali! Coragem era ali!

Ao vê-lo avançar, Cérbero piscou três vezes com os seus seis olhos, porque nunca em vida sua acontecera semelhante coisa: um homem desarmado avançar contra ele. Mas a vacilação foi rápida. Seus olhos espirraram fogo, seus dentes se arreganharam — e Cérbero atirou-se contra o herói com o ímpeto dos mastins que se sabem invencíveis.

O herói desviou-se do bote e agarrou-o por dois pescoços, um braço em redor de cada um. Mas o terceiro pescoço de Cérbero não teve braço que o agarrasse... e com aquela cabeça livre o canzarrão atacou. Ferrou uma dentada no ombro do herói, que o teria liquidado se não fosse a pele invulnerável.

Nela se quebraram metade dos dentes da boca atacante. Que luta tremenda foi! O jeito de Hércules era um só: matar uma das cabeças agarradas para libertar um braço, e com esse braço agarrar o pescoço da cabeça atacante. O herói tinha ordem para levar a Micenas o cão vivo, mas Euristeu não falara em levá-lo com as três cabeças vivas. Num esforço gigantesco Hércules torceu um dos pescoços agarrados; depois que viu a respectiva cabeça morta, com os olhos esbugalhados e a língua pendente, desembaraçou o braço e colheu o pescoço da cabeça livre.

Estava terminada a luta. Cérbero moleou o corpo. Sua cauda de dragão aplastou-se no solo.

Minervino, que para ali viera por ordem de Palas e tudo previra, aproximou-se com uma corda ajeitada em forma de focinheira. Hércules enfiou-a num dos focinhos do mastim; depois ajeitou outra focinheira no outro focinho. O terceiro dispensava esse cuidado — era o focinho da cabeça morta.

Pronto. Só restava conduzir até Micenas aquele molambo mais morto que vivo — e lá saiu Hércules com ele às costas.

Quando Hades viu o herói passar pela frente do palácio com Cérbero às costas, quase morreu de paixão. Pulou do trono para lançar contra ele todas as fúrias infernais. Perséfone o deteve.

— Palavra de deus não volta atrás — disse a majestosa deusa. — Fui testemunha de que o autorizaste a capturar Cérbero, se o atacasse sem armas — e Héracles não usou arma nenhuma.

Hades caiu em si e voltou para o trono a remorder-se de ódio impotente. Estava preso pela sua própria palavra.

Quando Caronte viu reaparecer o herói com o cão às costas, seguido das três sarnas, teve um colapso. Caiu sem sentidos no fundo da barca. Minervino tomou-lhe o remo e fez a travessia. Minutos depois estavam todos na superfície da terra, onde se juntaram aos companheiros.

Pedrinho arregalou os olhos no maior assombro. Depois fez bico. Ele, um heroizinho tão promissor, havia estragado a sua carreira — havia ficado na rabada!

Um momento de medo o fizera permanecer na segurança da terra superficial enquanto Emília e o Visconde ousavam a imensa proeza de penetrar na mansão de Hades...

— Então. Emília? — perguntou ele muito desconchavado; e ela, toda importante:

— Pois é. Fomos lá e salvamos Teseu e conversamos com Hades e Perséfone e liquidamos com a prosa de Cérbero. Nossa aventura vai ser a mais célebre de todas nos anais das grandes façanhas do mundo.

— Eu, eu... — tentou Pedrinho desculpar-se.

— Você pexoteou, Pedrinho, e vai ficar de cara à banda por toda a vida. Teve ocasião de fazer uma coisa que nenhum menino moderno jamais fez nem fará e perdeu-a. Agora é chorar na cama.

Pedrinho não se conteve: chorou ali mesmo.

— E agora, Lelé? — perguntou Emília. — Vai levar esse monstro às costas até Micenas? Bobagem. Cachorro é ali na focinheira e puxando por uma corda.

Hércules viu que era mesmo. Largou Cérbero no chão. Estava vivo, mas de corpo mole como os lutadores nocautes. Minervino obteve mais corda e, improvisando duas coleiras, passou-as pelos dois pescoços. O terceiro ficou sem coleira porque pertencia à cabeça morta.

— Eu puxo-o, — Pedrinho — e foi o seu triste consolo naquele Trabalho de Hércules: puxar pela corda o monstruoso mastim derrotado...

Desapontamento do rei

Quando iam se aproximando de Micenas, Pedrinho voltou-se para Hérculese gritou:

— Ando com uma idéia, amigo: entrarmos na cidade todos juntos, assim em procissão...

— Por quê? — perguntou o herói lá atrás.

— Para despedida. Meu palpite é que Euristeu não vai "nos" dar nenhum outro Trabalho.

Hércules sorriu.

— Você não o conhece, oficial. Ele já me impôs doze Trabalhos e imporá outros e outros, sempre com a esperança de que um dia eu fracasse. E não tem culpa, coitado. Não passa dum instrumento de Hera.

— Não tem culpa mas bem que podia ser mais delicado, Lelé — interveio Emília. — O modo como trata você, todo importante, como quem tem o Olimpo na barriga, me deixa tinindo de raiva.

Uma idéia lhe passou pela cabecinha: vingar-se de Euristeu — e imediatamente lhe acudiu o meio.

— Uma coisa, Lelé: por que não havemos de entrar todos juntos no palácio de Euristeu? Estou com vontade de conhecer aquilo lá por dentro.

Era mentira. Não estava querendo conhecer coisa nenhuma e sim "dizer uma boa" nas fuças do "antipatia".

Hércules objetou, achou inconveniente a entrada em massa no salão de audiências do rei, mas Emília insistiu e destruiu completamente a objeção do herói com vários argumentos "batatais". Hércules cedeu.

— Pois não seja essa a dúvida. Entraremos todos juntos no palácio de Euristeu.

Chegados a Micenas, não se dirigiram ao camping como de costume — foram penetrando na cidade com a maior sem cerimônia. O fato de passarem com Cérbero pelas ruas — Cérbero, C é r b e r o, CÉRBERO!... o tremendíssimo e terribilíssimo mastim infernal, parecia-lhes a coisa mais natural do mundo. E para maior assombro dos povos, vinha Cérbero, C é r b e r o, o tremebundo CÉRBERO, puxado pelo cabresto. E puxado por quem? Por um menino... Aquilo era até profanação- um verdadeiro fim da Grécia Heróica.

A multidão começou a juntar-se. Todo mundo acudia às janelas e portas para ver a passagem do cortejo.

As ruas encheram-se. Formou-se logo o clássico "acompanhamento de procissão." Centenas de criaturas sem serviço e toda a molecada formaram um magote atrás deles.

Súbito, uma voz na multidão gritou:

— É ela!... É ela!... A feiticeirinha que virou nossos filhos em coisas. Temos de agarrá-la e entregá-la à justiça.

Emília tremeu lá em cima de Lúcio, mas reagiu de pronto e voltando-se para Hércules, lá atrás, gritou com voz ressentida:

— Lelé, olhe aqui um cara-de-coruja me ameaçando...

Hércules fechou o sobrecenho e olhou para a

janela de onde havia saído a voz. A voz engoliu em seco. Emudeceu. O olhar de Hércules parecia o olhar da Medusa. Petrificava as pessoas.

Chegaram defronte ao palácio de Euristeu e foram entrando. Os guardas, assustadíssimos com a visão de Cérbero, jogaram as armas e sumiram-se. O grupo foi varando, atravessando corredores e salas até chegar ao salão das audiências. Lá estava Euristeu no trono, com Eumolpo, o xereta, ao lado. Ao ver surgir aquele monstro de três cabeças, seguro pela corda dum menino montado em centauro, e depois um asno com uma feiticeirinha em cima, e mais um milho de cartola no picuá e lá no fim o invencível Hércules, Euristeu desmaiou. A cena fora muito imprevista e muito forte para os seus reais nervos. Eumolpo, a tremer de medo, abanava o amo, borrifava-lhe água no rosto.

O desmaio de Euristeu foi curto. Seus olhos abriram-se. Emília, então, que estava com o discurso preparado,"lascou":

— Senhor rei, aqui estamos de novo e para nunca mais. Chega de Trabalhos. Não somos "servos da gleba" e Lelé é mais que um herói — é um semideus maior e melhor que muitos deuses lá do Olimpo. Tem um coração que só eu sei. Por isso não quero que ele continue executando trabalhos perigosíssimos, inventados por esse cara-de-coruja que está aí todo treme-treme. Não quero e não quero, ouviu? Doze Trabalhos já. Boa conta. Uma dúzia. Além disso, Dona Benta está ansiando pela nossa volta, coitada. O grande Héracles vem comunicar ao pequeno Euristeu que vai soltar neste salão o bicho encomendado e partir para longes terras. Tenho dito.

O discurso de Emília achatou Euristeu como se fosse uma sola de sapato. Viram-no olhar para Eumolpo como quem pede socorro, mas Eumolpo perdera até a voz, de medo!

Pedrinho então soltou Cérbero ali na sala e fincou a espora em Meioameio sinal de retirada. O Asno de Ouro rodou nos pés —e Emília ainda espichou um palminho de língua para o estarrecido soberano. Hércules também girou nos calcanhares e lá se foram todos. Na sala do trono só ficaram os três: Cérbero, a olhar para aqueles dois homens com expressão de quem já não entende coisa nenhuma deste mundo, e Euristeu e Eumolpo agarrados um ao outro de medo do monstro.

Mas quando Hércules e seus companheiros alcançaram a rua, deram com um grupo de autoridades locais. A mais graduada de todas deteve o asno e disse apontando para Emília:

— Em nome da lei, está presa!

— Homessa! Por quê?

— Por crime de feitiçaria. Seu processo está concluso. Em dia deste ano, lá na margem do ribeirão, a acusada virou em objeto de uso caseiro dezenove meninos desta cidade.

Hércules, que tinha se aproximado para ver o que era, quis "espalhar" a justiça. Mas o Visconde ergueu-se lá no picuá e falou:

— Nada de violências, Hércules! Se até os deuses do Olimpo encerram suas brigas com entendimentos, como no rapto de Perséfone, por que nós, mortais, não fazermos o mesmo? Na qualidade de advogado e defensor perpétuo de Emília, proponho o arquivamento do processo em troca da "desvirada" dos meninos de Micenas.

Ninguém entendeu. Os juízes e xerifes entreolharam-se com caras dasno. O Visconde explicou:

— Sim. Do mesmo modo como a acusada virou os meninos em objetos, poderá agora virar os objetos em meninos, desse modo devolvendo-os à forma primitiva.

Os juizes e xerifes entreolharam-se de novo; e como na multidão estivessem os pais e mães dos dezenove meninos, uma grita se levantou:

— Sim, sim! Ela que desvire nossos filhos e suma-se destas plagas.

Estava lavrada pelo povo a decisão do processo. Com a restituição dos meninos, ficava o dito por não dito.

Emília enrugou a testa. Depois sorriu.

Com incrível rapidez havia formulado e resolvido um problema. Qual o problema? Este: "De que modo uma varinha de condão, já só com dez viradas, pode desvirar dezenove meninos virados em objetos?" Sim, porque se ela gastara dezenove viradas para virá-los, tinha agora de gastar outras tantas para desvirá-los.

Este o problema. Agora, a solução: "Enfileirar no chão os dezenove objetos, um junto do outro como teclas dum teclado de piano, e depois, com a pontada vara, dar uma "escala corrida", como fazem com a unha certos tocadores de piano — rrrrrrrrrr... Desse modo, com um mesmo toque da vara ela desviraria os dezenove moleques. Gastaria, pois, só uma virada.

A solução teórica do problema foi essa. Restava saber se a experiência a confirmaria.

Tudo pensou e resolveu Emília em meio segundo. Seu pensamento era um relâmpago.

Tomando então a palavra, disse:

— Senhores, prontifico-me a fazer aqui na praça deste palácio o que o Visconde de Sabugosa propôs e os pais dos meninos querem. A varinha de condão de Medéia está naquela canastra.

Pedrinho veio descer o picuá e despejá-lo do Visconde e da canastra.

Emília abriu-a, tirou a vara e em seguida, entre suspiros, foi atirando os dezenove objetos obtidos com as dezenove viradas —o canivete, a tesourinha, a faca de ponta, o rolinho de esparadrapo... Ao tirar o rolinho, Emília pensou: "Já me utilizei de um pedaço. Será que o menino vai aparecer com falta de orelha ou nariz?" Depois de tirá-los todos, colocou-os no chão da rua em forma de teclado de piano, um coladinho ao outro. Restava só correr por cima deles a ponta da vara e pronto.

Mas Emília, sem certeza de que o seu processo de "escala corrida" fosse dar certo, "pensou para adiante", como fazem os jogadores de xadrez, e tomou certas disposições que no momento ninguém entendeu.

— Pedrinho — disse ela — monte e fique firme em Meioameio. Lúcio, mantenha-se aqui bem perto de mim. Você, Visconde, monte já.

E, finalmente, voltando-se para Hércules:

— Erga-me em seus braços, Lelé. Tenho um particular a dizer no ouvido.

O herói ergueu-a. O particular de Emília era o seguinte: "Vou dar uma varada em "escala corrida" sobre aquele teclado de objetos, mas não posso garantir que essa idéia dê bom resultado. Se der, muito bem: os meninos reaparecerão e está tudo acabado. Se não der, eu tenho que os desvirar um por um, cada qual com uma virada. Ora, só tenho na vara dez viradas. Ficam, pois, nove meninos sem desvirada — e como é? A justiça aqui me agarra, me prende e me condena. Para evitar isso é que estou tomando estas disposições estratégicas. Corro a vara. Deu certo? Muito bem. Não deu certo? Ah, você desce a marreta neste povo, espalha os juizes e xerifes enquanto nós nos botamos no maior galope rumo ao acampamento. Lá arrumamos tudo num ápice, cheiramos o "pim" e adeus, Hélade! Se isto acontecer, é possível que não nos vejamos mais, Lelé e quero despedir-me aqui mesmo, e deu lhe um beijo na face. Largue-me no chão agora.

O herói, profundamente comovido, largou-a no chão. Emília voltou para onde estavam os objetos dispostos como teclado. Tomou a vara e disse para o povo:

— Atenção! Vou correr a vara por sobre estes dezenove objetos para o reaparecimento dos dezenove meninos. O reaparecimento se realizará meio minuto depois do toque.

A espertíssima criatura sabia muito bem que tanto as viradas como as desviradas eram instantâneas, mas inventou a história do meio minuto para ganhar tempo. Se a coisa falhasse, enquanto os micenianos estivessem esperando passar meio minuto eles fincavam o pé no mundo e pronto!

Emília correu os olhos nos seus companheiros para verificar se todos estavam a postos — e só então riscou a escala rrrrrrrr... cada "r" correspondendo a um objeto. Tudo correu exatinho conforme a teoria: os dezenove objetos viraram instantaneamente em dezenove meninos!

Que festa foi! Dezenove pais e dezenove mães lançaram-se aos dezenove meninos reaparecidos e abraçaram-nos com os olhos rasos de lágrimas. Todos já haviam perdido a esperança de rever os coitadinhos.

Emília, de mãos na cintura, gozava a cena. Que triunfo o seu!

Desasnamento de Lúcio

Tudo estava correndo muito bem. O povo de Micenas, que minutos antes só pensava no linchamento de Emília e seus companheiros, passou ao extremo oposto.

Eram aplausos e mais aplausos, e festinhas e convites para uma coisa e outra.

Mas Hércules e os pica-paus nada aceitaram. Só queriam uma coisa: a volta para o acampamento. Lá estava o banho do ribeirão, o Templo de Avia. Lá estava a liberdade de movimentos e a ausência de "corpos estranhos", como dizia o Visconde. "Que é o povo? Um conglomerado ou ajuntamento de corpos estranhos entre si." E Emília costumava dizer: "Povo? Passo."

De volta ao acampamento e depois do jantar, que era o último que iam ter juntos ali na Grécia Heróica, veio à berlinda o caso de Lúcio. Que fazer? Soltá-lo seria um desastre: logo adiante o pegariam e lá ficaria ele novamente escravo, talvez dalgum mau amo, desses que não têm dó de meter o chicote nos pobres animais. Lúcio pensou nisso e implorou que o não soltassem. Queria que o levassem a uma festa de Ísis. Unicamente devorando as rosas que os sacerdotes costumam depor no altar da deusa é que Lúcio poderia desasnar-se, voltando à sua forma humana.

— Quem é essa Ísis? — perguntou Emília.

O mensageiro de Palas, que misteriosamente aparecia e desaparecia, respondeu:

— É a mesma Deméter em sua primitiva forma egípcia. No começo não havia Deméter — havia Ísis, uma deusa importada do Egito. Em certos lugares há ainda hoje adoradores de Ísis que a festejam justamente nesta época do ano.

Bom. Tinham de sair pelo mundo em procura de velhos adoradores de Ísis. Emília danou:

— Maçada! Nós com tanta urgência de voltar ao Picapau Amarelo e este estupor...

Pedrinho interveio:

— Pare com os insultos, Emília! Que culpa tem Lúcio do que aconteceu? Largá-lo aqui será a maior das crueldades. Ele tem sido um ótimo companheiro, com grandes serviços prestados, sobretudo a voce.

— Reconheço — disse Emília, — mas que é um estupor, isso é. Foi-nos útil, mas agora está atrapalhando.

Lúcio quase chorou de sentimento. Suas orelhas murcharam com a maior humildade. Emília condoeu-se.

— Pois vamos em busca da tal Ísis. Eu às vezes digo certas coisas só por ímpeto — não é de coração.

As orelhas de Lúcio levantaram-se de novo.

Depois do banho no ribeirão e do sono daquela noite, o mais sossegado que dormiram na Grécia, lá se foram no dia seguinte atrás dos adoradores de Isis.

De caminho ia Hércules revelando tudo o que lhe tumultuava no coração. Confessou-se gratíssimo pelo que os pica-paus haviam feito. Chegou até a declarar que pelo menos um terço de seus triunfos cabia mais a eles do que a ele.

— Sim, porque se não fosse Emília, é bem possível que o javali do Erimanto me houvesse pegado. E no caso do boi de Creta, o verdadeiro herói foi Pedrinho.

— E o Visconde também — acrescentou Emília. — Não se esqueça da argola.

Hércules concordou.

— Sim, todos três me ajudaram muito. Todos três revelaram grande inteligência, fazendo-me compreender que se a força é uma grande coisa, a inteligência é a força das forças. Vem daí a minha idéia sobre a educação...

Quando Hércules se punha a desenvolver a sua idéia sobre a educação, os três pica-pauzinhos bocejavam. Tudo quanto ele dizia, certo de que eram idéias originais e pela primeira vez saídas de um cérebro, não passava de idéias emboloradas e até já aposentadas no mundo moderno. Emília fechou a discussão daquele ponto com um exemplo:

— Claro que é assim, Lelé. Pois não vê o Visconde? Nasceu sabugo, como todos os sabugos do mundo, mas com a educação recebida de Dona Benta virou o que é: um sábio de cartola.

E assim, conversando sobre cem coisas, chegaram a uma aldeia muito velha. Nas aldeias velhas há sempre homens e mulheres muito velhos, gente conservadora e apegada ao passado. Quem sabe se não existiam ali devotos de Isis?

Pedrinho foi perguntar a um ancião de longas barbas brancas que viu sentado a uma porta.

— Bom velho, dizei-me: não haverá nesta aldeia devotos duma antiqüíssima deusa egípcia de nome Isis?

O ancião ergueu para ele os olhos embaciados e sorriu.

— Como não, menino? Há muitos devotos, e eu sou um velho sacerdote de Ísis.

Pedrinho gritou para o bando lá atrás:

— Pronto!... Demos no centro do alvo! Há adoradores de Ísis aqui e até sacerdotes. Este bom velho é um.

Todos se aproximaram do sacerdote e o atropelaram com perguntas e mais perguntas.

— E quando se realizam as festas deÍsis?

— Justamente hoje, à tarde. As rosas estão no ponto.

Ísis era festejada com rosas, de modo que sua festa anual tinha de coincidir com o apogeu das rosas. E como havia rosas naquela aldeia! Lúcio espichava os olhos para os jardinzinhos e engolia em seco.

Emília observou:

— Esta nossa última aventura até parece fita de xerife do meio para o fim: tudo dá certinho, como se houvesse combinação...

Passaram o dia ali na aldeia, rodeados daqueles pobres campônios de bocas abertas e olhos arregalados. Héracles entre eles! Um centaurinho! Um menino dos séculos futuros! Uma feiticeirinha de língua solta! Um Asno de Ouro! Um aranho de cartola!... O assombro da pobre gente não tinha fim.

Tão alegre estava Lúcio com a idéia de seu próximo desasnamento que volta e meia zurrava.

— Por que zurra, Lúcio, já que fala tão bem?

— Por despedida — respondeu ele. Zurro para despedir-me desta pele que daqui a pouco vou abandonar.

Á tardinha começaram os preparativos para a festa de Ísis. Toda gente colhia rosas e mais rosas. O velho sacerdote armou o altar. Hércules e o bandinho colocaram-se na primeira fila. Ia ter começo a cerimônia.

O velho sacerdote saiu lá duma sacristia e aproximou-se do altar com uma cesta de rosas nos braços, em atitude ofertória, como quem traz bandeja de café.

— É hora, Lúcio! — sussurrou Emília.

Lúcio precipitou-se sobre as rosas com tamanho ímpeto que lá derrubou o velho e gulosamente devorou as rosas, com cesta e tudo. Sobreveio o tumulto.

— Blasfêmia! Blasfémia! ... e muitos fiéis se lançaram de porretes em punho contra o irreverente. Iam desancá-lo. Iam massacrá-lo. Iam linchá-lo...

Mas... que é do asno? Misteriosamente desaparecera. Procura que procura, nada! Nada de asno! Muita gente esfregou os olhos, como quem diz: "Estarei sonhando?" O velho sacerdote levantou-se, tonto, e: "Que é das minhas rosas?" Nem asno, nem rosas. Em vez disso, um moço estranho a conversar com a pequena feiticeira.

Emília pôs as mãos na cintura e balançou a cabeça.

— Que bonito rapaz você é, Lúcio! — dizia ela. — Vire de costas, quero ver. Vá até ali e volte... Sim, sim, um rapagão. É de Atenas?

— Não. Sou de Corinto...

Emília pôs as mãos na cintura e balançou a cabeça.

— Que mundo este nosso! Quem há de dizer que um moço de Corinto, bonito e desempenado como este, já foi o meu burro de carga...

Bom. Lúcio já não tinha mais nada a fazer ali. Sua ânsia de voltar para casa era enorme. Rever a família, os amigos, a noiva...

— Adeus, adeus, amigos! — disse ele.— Nunca me esquecerei das nossas aventuras, nem da bondade com que me trataram. Adeus, Héracles, o grande! Adeus Pedrinho, pequeno herói moderno! Adeus centaurinho gentil! Adeus, Visconde, o mais sábio dos sabugos! Adeus, Emília — pequenina fada que se aqui ficasse revolucionaria esta Grécia inteira...

Só não se despediu da canastrinha. Emília reclamou:

— Ela também é personagem, Lúcio.

E ele, já longe:

— Adeus, canastrinha mais rica de preciosidades que todos os museus do mundo...

Lúcio, muito lépido e radiante com a reconquista de sua forma antiga, ia pulando de contente. Dava três passos e um pulinho...

Hércules sorria feliz. Pela primeira vez se sentia plenamente satisfeito. Mas um pensamento melancólico lhe enrugou a testa. Emília percebeu.

— Que repentina tristeza é essa, Lelé?

Do peito do herói saiu um suspiro.

— Nossa associação está no fim — disse ele. — Daqui a pouco vocês partem e fico mais sozinho do que nunca, aqui nesta terra de monstros e deuses vingativos. Acostumei-me tanto com vocês que... e engasgou. Era a comoção.

Emília não disse nada — mas levou aos olhos o seu lencinho...

Belerofonte

Depois da partida de Lúcio, deram começo aos arranjos para a viagem.

Que fazer das coisas ali do acampamento? Deixar de pé o Templo de Avia para que os moleques de Micenas viessem profaná-lo? Nunca! Deixar fincados os espeques com as esculturas dos trabalhos de Hércules? Não.

Emília veio com uma lembrança.

— Podemos demolir o templo, arrancar as estacas e fazer uma grande fogueira em honra a Palas.

— Feliz idéia! — exclamou uma voz conhecida. Emília olhou. Era Minervino, "o aparece-e-desaparece". Estava ali de novo.

— Vem vindo do Olimpo?

— Sim. Acabo de estar com Palas. Minha deusa mostra-se encantadíssima com você, Emília. Anda a contar histórias da "feiticeirinha" a todas as deusas do Olimpo.

— E Hera?

— Ah, Hera está cada vez mais rabujenta e furiosa. Tem feito mil queixas ao seu divino esposo, mas Zeus dá lá sua risadinha e é só. Ele conhece a esposa que tem. Os Doze Trabalhos que por meio de Euristeu ela impôs a Hércules resultaram em doze derrotas. Hera já não sabe o que inventar. E vai enfurecer-se ainda mais com essa fogueira que vocês vão acender em honra a Palas.

— Pois que se enfureça — berrou Emília. — Já "passei" essa deusa. É o mesmo que não existir. E mudando de assunto: Como é o seu verdadeiro nome, Minervino? Isto de "Minervino" foi invenção minha.

— Donde veio a idéia?

— De Minerva, que vai ser o futuro nome de Palas em Roma, como explicou o Visconde. Todos estes deuses vão mudar de terra. Seu nome verdadeiro qual é?

— Belerofonte...

Emília arregalou os olhos, no maior dos assombros.

— Belerofonte, aquele herói que nos apareceu lá no sítio montado no Pégaso?

— Isso mesmo...

O espanto de Emília continuava.

— Mas a cara, o ar, os modos de Belerofonte não lembram você, Minervino...

— É que, como mensageiro de Palas, mudo de aspecto conforme as circunstâncias.

Emília duvidou. Seria Belerofonte mesmo? E para "caçá-lo" perguntou:

— Então diga: qual o outro herói que estava lá naquele tempo? O vestido de lata?

— D. Quixote de la Mancha, foi como vocês mo apresentaram. Tinha um escudeiro gorducho, muito comilão. Sancho Pança, creio...

Emília encantou-se. Não havia a menor dúvida: aquele Minervino era o mesmo Belerofonte de outrora, o famoso herói grego que lá surgira montado no cavalo de asas.

— E onde anda Pégaso? Sabe que Pedrinho o viu nascer do corpo degolado da Medusa? Degolado por Perseu?

— Sim. Ele me contou tudo.

Estavam ainda a rememorar passagens de D. Quixote no sítio, quando um tropel lhes distraiu a atenção. Um cavaleiro vinha no galope. "Quem será?"

Era um dos guardas do palácio de Euristeu. Chegou, pulou do cavalo e dirigiu-se para Hércules com cara muito aflita.

— Senhor herói — disse ele precipitadamente, vim pedir socorro. Está um horror no palácio. Sua Majestade Euristeu e o primeiro ministro continuam estarrecidos diante da figura horrenda do Cérbero lá na sala do trono. Não podem sair de medo do monstro, e os guardas não se animam a entrar para socorrer o soberano. Vim a galope implorar que volte e tire do palácio aquela abantesma.

Hércules riu-se, com ar de dó.

— Medo de Cérbero! — exclamou. — Mas Cérbero não é mais Cérbero, o antigo e terrível guardião do reino de Hades. Não passa de sombra do que foi. Está vencido, destruído por dentro.

— Mas não se arreda de lá, senhor herói, e com os quatro olhos que lhe restam olha para o rei de um modo que arrasa o nosso soberano. E como ninguém ousa tirá-lo da sala, vim voando pedir socorro.

Hércules, sempre a sorrir, deu ordem a Pedrinho que fosse buscar Cérbero. Pedrinho saltou sobre o lombo de Meioameio, fincou o Visconde na garupa e lá partiu a galope para a cidade.

Sem o Visconde ele não se arranjava.

Chegado ao palácio, Pedrinho foi entrando. Na sala do trono viu tudo como no começo: Euristeu encolhido no trono e Eumolpo a seu lado, pálido e trêmulo.

O mastim de Hades olhava-os com uns olhos sem expressão e por isso mesmo terríveis para aqueles dois poltrões. Pedrinho, que havia levado um rolo de corda, fez gesto ao Visconde para que atasse a corda a uma das coleiras de Cérbero. O sabuguinho suspirou mas cumpriu a ordem: atou a corda à coleira de Cérbero, sem que o monstro opusesse a menor resistência. Em seguida Pedrinho puxou-o para fora. Lá na rua cavalgou Meioameio e tocou para o acampamento. A multidão aglomerada nas ruas assistiu maravilhada àquela estranhissima cena: um menino, montado num centaurinho e com uma aranha de cartola na garupa, a puxar pelo cabresto o monstro mais impressionante para a imaginação dos helenos — Cérbero, Cérbero,CÉRBERO, o terrível guardião do reino dos mortos!

— E agora? — exclamou Emília quando os viu chegarem ao acampamento.

— Que vamos fazer deste estupor? — Tudo para Emília era estupor.

Hércules achou melhor matá-lo e enterrá-lo por ali. Emília opôs-se.

— Não. Estou com uma idéia: levá-lo para o sítio de Dona Benta — e pôs-se a rir. Estava imaginando o susto de tia Nastácia...

Ficou assentado isso. Levariam Meioameio e Cérbero.

Muito bem. Agora, a fogueira e o sacrifício a Palas. Pedrinho demoliu o Templo de Avia e amontoou tudo.

Pronta que foi a fogueira, o Visconde atafulhou capins bem secos e acendeu-a com o último fósforo da caixa de fósforos da canastrinha da Emília. Minutos depois um lindo fogaréu lançava rumo ao Olimpo rolos negros de fumaça.

Emília adiantou-se e, erguendo os olhos para o céu, disse com voz de sacerdotisa:

— Palas, divina Palas, nós te agradecemos os benefícios e a ajuda constante com que nos honraste em nossas aventuras. Tu és a deusa mais bela e boazinha de todas. Não andas a perseguir os grandes heróis, como uma tal que eu conheço. Peço-te que apareças um dia lá em casa para regalo e glória de Dona Benta e Narizinho. O teu mensageiro Belerofonte sabe onde é; já nos deu a honra de sua presença nos dias em que também lá esteve D. Quixote. Está ali um bem precisado de tua gloriosa ajuda, grande Palas! É um herói o contrário de Héracles: em vez de dar, apanha sempre. Mas com tua ajuda, grande deusa, dará cabo até do mágico Freston que tanto o persegue. Tenho dito.

Todos aplaudiram o seu discursinho e Belerofonte deu-lhe um beijo na testa — por conta de Palas.

Despedidas

Tudo estava pronto para a volta. Emília abriu mais uma vez a canastrinha para dar balanço na colheita. Não faltava nada. Fechou-a de novo com a chavinha que trazia pendente dum cordel ao pescoço.

— Por mim podemos partir.

A bagagem de Pedrinho era pequena; só as esculturas comemorativas.

O Visconde nunca andou com bagagens. Apenas trazia uma coisa consigo, a velha cartola — e lá estava com ela na cabeça, mais amarrotada do que nunca.

O peso da pata do dragão das Hespérides tinha-a deixado que nem lata de monturo.

Pedrinho mediu as pitadas do pó de pirlimpimpim e deu uma para cada um.

Depois calculou a de Meioameio e a forte dose a esfregar nos focinhos de Cérbero. Mas antes de aspirarem o pó tinham de despedir-se do herói.

Ah, como foram comoventes as despedidas!

— Hércules — disse Pedrinho — vamos partir, mas levamos no coração a imagem do nosso grande amigo e bondoso companheiro de tantas aventuras.

Aprendemos a conhecer o maior coração que ainda existiu nesta Hélade, o herói que é a verdadeira justiça sob forma humana... — e Pedrinho engasgou. Estava emocionado demais.

Emília tomou a palavra.

— Lelé, se eu fosse dizer tudo quanto sinto, ficava aqui a falar durante dez séculos. Você foi a primeira criatura que realmente me encheu as medidas. Conheci lá no sítio inúmeros heróis da Fábula: D. Quixote, Belerofonte, Peter Pan, o Príncipe Codadad, Aladino, os anões de Branca-de-Neve. Nenhum se compara a você, Lelé, porque além da maior força você tem o maior dos corações. Pedrinho engasgou no discurso e eu já estou começando a me engasgar. Você, Lelé... — e não podendo conter as lágrimas, Emília rompeu em choro e atirou-se aos braços do herói. Hércules recebeu-a, também com os olhos rasos dágua. Ele, o grande herói nacional grego que jamais chorava, estava chorando...

O Visconde passou a mão disfarçadamente pelos olhos e tomou a palavra.

— Hércules! — disse ele. — Permita que eu também levante minha débil e fraca voz para uma saudação de despedida. Neste grande momento eu queria ter a eloqüência de Demóstenes ou Cícero para bem dizer tudo quanto me passa pela mente. Mas a emoção embarga-me a voz. Não posso continuar, como Pedrinho e Emília não puderam...

E o Visconde também engasgou.

Belerofonte abriu a boca para falar, mas não saiu nada. Engasgadíssimo também. Houve uma longa pausa de silêncio — a pausa do engasgo geral.

Quando serenaram, Hércules tomou a palavra e disse:

— Meus amigos: não sei falar. Não recebi a educação...

Emília olhou para Pedrinho.

...que é o que transforma as criaturas. Minha educação foi só física, como muito bem diz o meu escudeiro. Criaram-me ao ar livre, ensinaram-me a desenvolver unicamente os músculos e a agilidade. Quanto ao resto, fiquei como nasci: um terreno baldio, como diz a Emília, onde o mato cresceu sem disciplina. Ela acha que uma criatura sem educação é como um terreno onde só há mato. A educação é que transforma esse terreno em canteiro de cultura das artes e ciências úteis e belas. Muito aprendi com vocês. Minhas conversas com Emília, com o Visconde e Pedrinho foram verdadeiras lições de que jamais me esquecerei. Sempre convivi entre brutos — reis cruéis, deuses vingativos, heróis do meu molde, gente "ineducada", como diz o Visconde. Fui encontrar "produtos da educação" em vocês. No meu oficial Pedrinho vi um modelo de herói dum novo tipo. Apreciei muito as suas qualidades, e sobretudo a sua prudência. Por que não desceu conosco aos infernos? Por prudência — e hoje eu percebo que a prudência deve ser uma das mais belas qualidades do que vocês chamam "herói moderno".

Pedrinho baixou os olhos. Hércules prosseguiu:

— Emília me enlevou pela sua presença de espírito, pela vivacidade e prontidão da inteligência, pelo engenho de sair-se bem de todos os apuros. E que idéias felizes! A de cortar a ponta de uma das asas do abutre de Prometeu foi "batatal", como ela diz. Tão simples o expediente — e nem que eu pensasse cem anos me ocorreria. Certas coisas da "dadeira" estão acima do meu entendimento.

O "faz-de-conta", por exemplo. Penso e penso nisso e não entendo. Vi, senti, presenciei os maravilhosos efeitos desse "recurso supremo", mas confesso que não entendi. Emília explicou-mo com a sua admirável clareza — mas não entendi.

Emília riu-se para Pedrinho. Hércules continuou:

— E que direi do meu escudeirinho? Há nele uma alma generosissima de herói sob as singelas exterioridades dum grande sábio. É o tipo do "herói resignado". Como é modesto e humilde! Não o vi gabar-se nem uma só vez. Executa as incumbências mais perigosas sem um só protesto...

— Isso não! — berrou Emília. — Bem que ele suspira.

— Sim, suspira apenas. Haverá nada mais eloqüente que a humildade do suspiro? Em situações em que o comum das criaturas se debate, protesta, grita, ele suspira com toda a discrição. Tenho em meus ouvidos todos os seus suspirinhos: quando recebeu ordem de levar o anzol iscado ao abutre de Prometeu, quando teve de pegar a argola do laço na aventura do touro de Creta, quando foi deitar ópio na água do dragão de cem cabeças... Foi o único do nosso grupo que sofreu desastre, pois quebrou a perna e quem o viu lamuriar-se, queixar-se?

— Ele não sente dor — disse Emília. — É sabugo...

— Nós é que não sentimos a dor dos outros — respondeu Hércules. — Se o Visconde é um ser vivo, claro que tem de sentir dor. Quando, na chegada, Pedrinho me propôs o Visconde para escudeiro, ri-me, como era natural. Julguei que fosse brincadeira. Hoje, duvido que qualquer outro escudeiro me ajudasse tanto. Posso até afirmar que um ou dois dos meus trabalhos chegaram a feliz termo graças à sua discreta e oportuna atuação.

O Visconde, de cabeça baixa, ouvia modestamente os louvores do herói. Hércules ainda disse muita coisa elogiosa sobre seus companheiros; depois ia voltando ao assunto educação.

Mas Emília interrompeu-o:

— Pare aí, Lelé. Já conhecemos as suas idéias sobre o assunto. A educação é que faz as criaturas, não é isso? Já sabemos.

Hércules parou. Pedrinho veio apertar-lhe a mão. O herói abraçou-o. Depois veio o Visconde com a mãozinha espichada. Hércules abraçou-o duas vezes. Depois veio Emília com os dois braços abertos. Atirou-se-lhe ao pescoço, abraçou-o e beijou-o furiosamente. Parecia um sabiá bicando laranja.

Havia chegado a hora da partida. Pedrinho deu as últimas instruções. Depois mandou que o Visconde esfregasse o pirlimpimpim nos focinhos de Cérbero, que lá estava de cabeças pendidas, amarrado a um tronco. O Visconde suspirou discretamente e foi cumprir a ordem. Hércules riu-se, ponderando lá consigo: "A prudência dos heróizinhos modernos..."

O Visconde esfregou o pó nos dois focinhos de Cérbero sem que o pobre cão desse por isso. Soou um fiun grosso, como de bordão de Viola — e Cérbero desapareceu...

— Agora nós! — gritou Pedrinho. — Adeus, Hércules, grande amigo!

— Adeus, Lelé! — berrou Emília.

— Adeus, zênite da mitologia grega! — saudou cientificamente o Visconde.

Hércules respondeu numa só palavra, dirigida a todos:

— Adeus!...

Pedrinho contou: Um... Dois... e TRÊS! Quatro fiuns soaram ao mesmo tempo e os quatro companheiros de Hércules sumiram-se como por encanto.

O herói ainda ficou ali por longo tempo, sentado a uma pedra, junto à fogueira do sacrifício a Palas. E como até Belerofonte houvesse desaparecido, não teve com quem desabafar. Depois levantou-se e lá seguiu de cabeça baixa para a cidade de Corinto. Ia em procura de Lúcio para conversar sobre os pica-pauzinhos.

Era um meio de matar as saudades...

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