'O Cinturão de Hipólita' - Os 12 Trabalhos de Hércules

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Os 12 Trabalhos de Hércules 

O Cinturão de Hipólita 

Monteiro Lobato 

O cinturão de Hipólita 

De volta ao acampamento Emília passou a tarde a virar e desvirar coisas. "Vira que vira, virade" eram as palavras que tinham de preceder ao toque da varinha — e o objeto em que a varinha tocava realmente virava na coisa pedida.

Até o Visconde ela virou em jacaré, e o desvirou, porque o jacaré estava arreganhando uma enorme boca vermelha para devorá-la. E virou o Templo de Avia em uma encantadora casinha de boneca. E virou a clava de Hércules em mão de pilão — e assim por diante. Depois desvirava e deixava tudo como antes.

Enquanto isso Hércules, de mão no queixo, seguia matutando no nono Trabalho que Euristeu lhe havia imposto: ir ao reino das amazonas conquistar o célebre zóster da rainha das amazonas, isto é, o cinturão que Ares ou Marte dera a Hipólita, e ela usava como distintivo da sua realeza.

As amazonas formavam uma curiosa raça de mulheres guerreiras, filhas de Marte e Harmonia. Habitavam as paragens do Termodonte, perto de Temiscira, no Ponto. O Reino do Ponto ficava na Ásia Menor, junto ao Ponto Euxino.

As amazonas eram a contraparte feminina dos centauros; não que tivessem metade do corpo cavalo, metade mulher, mas, como só andassem a cavalo, pareciam formar com os cavalos um só corpo. Em seu reino não havia homens, só mulheres, e valorosíssimas — as maiores guerreiras da antiguidade. Desde mocinhas comprimiam o seio esquerdo de modo a atrofiá-lo. Para quê? Para não atrapalhá-las no lançamento das flechas.

Além de valentíssimas eram de grande beleza e trajavam-se à moda dos bárbaros: vestes bem justas no corpo, barrete frígio, bombachas diferentes das dos gaúchos. Para a defesa traziam um escudo redondo; e como armas, o arco e o dardo.

Homem nenhum entrava no reino das amazonas, e o que ousasse fazê-lo era imediatamente destruído. Vinha daí a preocupação de Hércules. Como, sozinho, invadir aquele reino e arrancar da cintura de Hipólita um zóster que a não abandonava nunca? E Hércules pensava, pensava. Por fim resolveu levar bons companheiros. Só com a ajuda de outros heróis poderia conseguir alguma coisa e pensou em Teseu, Peleu, Telamon e outros grandes amigos. Tinha, pois, antes de mais nada, de procurar esses heróis e propor-lhes a aventura. Mas moravam em cidades diferentes. Procurá-los todos e discutir o assunto era empresa demorada. Hércules chamou Pedrinho.

— Escute. Tenho de reunir vários amigos para a aventura das amazonas. Isso vai exigir uma série de viagens a uma série de terras. O melhor me parece que eu parta sozinho. Depois de formar o meu bando, venho buscar vocês.

Hércules partiu em primeiro lugar para Atenas em procura de Teseu, o herói da Ática. Os pica-paus ficaram sozinhos.

O primeiro dia se passou numa "viração" furiosa. O "Vira que vira, virade" não parava. Até o ribeirão Emília virou num pastorzinho da Arcádia que não sabia falar, apenas "murmurejava", como murmurejam os ribeirões. E Pedrinho, que nunca fora um menino adulador, estava agora todo amor e cuidados com a Emília. Como não adular uma criaturinha armada de tanto poder? E por mais absurdo que isto pareça, até Juno lá no Olimpo começou a ter medo de Emília — segundo informações do mensageiro de Palas no dia seguinte.

— Acabo de chegar do Olimpo — disse ele. — Palas está radiante com a nova derrota de Hera no caso da mudez, e me disse que já agora nada tem Emília a recear das peças da deusa. "Se um leão for lançado contra Emília, ela o recebe com uma varada e transforma-o no que quiser — mosca, borboleta, pão-de-ló. Aquela varinha de condão é realmente um prodígio — mas é bom que ela saiba de uma coisa. Todas as varas de condão possuem um poder limitado. A de Emília só dá para cem viradas. Depois de cem viradas, torna-se uma vara comum, como as de marmelo, que só servem para surrar crianças. Avise-a disso."

Ao saber da limitação de sua varinha mágica, Emília quase chorou de desespero. Com a brincadeira do vira-vira ela já tinha gasto quase todo o poder da vara mágica — e de maneira tão boba, meu Deus! virando até pedregulhos do chão, pedacinhos de pau, moscas... Pelos cálculos do Visconde, só devia haver na vara umas trinta viradas de resto! Quer dizer que Emília tinha desperdiçado setenta em puras bobagens. Cumpria-lhe agora poupar com o maior ciúme as restantes. E Emília, com um suspiro, guardou na sua canastrinha a vara de condão já quase no fim.

Depois perguntou ao Visconde:

— Que é "condão" Visconde? Às vezes a gente leva usando uma palavra toda a vida sem saber certo o que é.

O sabuguinho explicou que a palavra "condão" vinha da palavra persa "condo", que queria dizer "sábio ou adivinhador". De modo que na língua portuguesa condão significava "prerrogativa", "privilégio", "graça", "dom" . E vara de condão queria dizer vara de adivinhar.

— Mas a minha vara não adivinha — objetou Emília. Vira só.

— Adivinha, sim — respondeu o Visconde. — Quando você diz "Vira que vira, virade", ela adivinha o que você quer e executa a ordem.

Todos engoliram a explicação.

Lá pelas cinco horas estavam os três sozinhos ali no acampamento, à espera de Meioameio que saíra em procura de frutas e queijo para o jantar. De repente...

— Que é aquilo lá? — exclamou Pedrinho apontando. Parece uma meninada...

Era realmente uma meninada que vinha naquela direção —uma molecada de Micenas. Vinham correndo, numa gritaria.

— Já sei! — berrou Emília. Souberam da minha vara e vêm atacar-nos...

Numa das viradas ela havia virado um besouro em menino, e como naquela afobação se esquecera de desvirá-lo, o menino fugira e fora contar à molecada de Micenas a prodigiosa história. Os moleques ficaram no maior assanhamento e vinham em bando conquistar a vara.

Que fazer? A resistência era impossível, pois se tratava dum bando de vinte.

Recurso único: virá-los em qualquer coisa. Mas para virar vinte meninos era necessário gastar vinte viradas — e das trinta viradas que ainda sobravam na varinha só ficariam dez...

Emília berrou: — Não quero! Não quero!... Não quero gastar quase todo o resto das minhas viradas à-toa...

— Não quer? então muito pior. tomam a vara — e zero...

Emília, na maior aflição, compreendeu que tinha de ceder. Mesmo assim pensou num jeito de economizar uma virada:

— Pois está bem. Vou virar dezenove moleques. O vigésimo você atraca-se com ele. Ou aguenta dois?

Pedrinho declarou que dois ele aguentava. Ela que virasse dezoito que ele dava conta dos dois restantes. Desse modo bastavam dezoito varadas. Emília ainda ficava com doze viradas na varinha.

Os moleques já vinham bem perto. Já se ouviam perfeitamente seus gritos. "A vara de condão é minha!" — berrava um. "É minha!" — berrava outro. "É de quem pegar!..." berrava a maioria. Tal qual a molecada do século 20 que corre atrás de balão queimado. Se os moleques de Micenas pegassem a vara, iriam espatifá-la — exatamente como os moleques modernos espatifam os balões caídos...

A virada

— E no que é que os viro? — perguntou Emília.

— Em moscas! — sugeriu Pedrinho.

— Em livros! — lembrou o Visconde, que andava com saudades de umas leituras.

Mas Emília, ciganinha como era, resolveu virá-los em coisas de utilidade prática de muita falta ali no acampamento — uma faca, um canivete daqueles gordos que têm saca-rolha, lima de unha, chavinha de parafuso etc., e em mais coisas que no momento veria.

Os moleques chegaram e pararam. O mais taludo adiantou-se e disse:

— Soubemos que há por aqui uma varinha de condão muito boa para virar coisas. Se nos entregarem por bem essa varinha, tudo acabará sem estragos. Se não entregarem por bem, entregarão por mal — e nós deixamos vocês todos reduzidos a pó de traque...

Emília ainda correu os olhos pelo campo, na esperança de avistar Meioameio. Com o centaurinho ali talvez lhe fosse possível economizar mais umas viradas. Não vendo sinal de Meioameio, respondeu ao insolente ultimato do moleque:

— A vara está aqui! Venham tomá-la, se são capazes. Viro a todos vocês em sapos horrendos...

A ameaça tonteou os meninos, mas como prudência não é coisa que existe em moleque da rua, o chefe do bando avançou para arrancar a vara das mãos de Emília. Ela, porém, mais que rápida, cantou o "Vira que vira" e transformou-o em canivete. E com a mesma presteza virou um segundo em faca. E deu uma varada num terceiro, virando-o em tesourinha de unha. Enquanto isso Pedrinho achatava dois com os seus tremendos golpes de cow-boy de cinema. Emília virou um quarto em rolinho de esparadrapo, lembrando-se da falta que isso fizera no dia da cortadura do dedo. E foi virando os outros. Meioameio apontou lá longe, mas muito tarde. Não tinha mais tempo de ajudar na guerra.

Estavam completamente derrotados os moleques de Micenas. Em vez deles só se viam por ali, espalhados pelo chão, os objetos de uso a que a vara mágica os reduzira. Dezenove moleques, dezenove objetos — isso porque, no calor da luta, Emília dera também uma varada num dos dois já derrotados por Pedrinho.

— Avé, avé, evoé!... berrou a vitoriosa criaturinha, enquanto recolhia as preciosidades — o canivete de saca-rolha, a faca, a tesourinha, o rolo de esparadrapo...

Só havia escapado um atacante, mas lá estava nocaute, com Pedrinho ajoelhado em cima de seu peito e a berrar: — “Conheceu, papudo? Pensa que pica-pau tem medo de molecada grega?”

Que festa foi aquilo! Emília, radiante como a deusa Palas, examinava um a um os objetos. Sua canastrinha nem dava para tanta coisa...

Depois, fez a conta das viradas restantes na varinha. Tinham sobrado onze. Ótimo! Com onze viradas na vara, quanta coisa não poderia fazer no futuro?

E o Visconde? Ninguém havia prestado atenção nele durante o calor da luta.

— Que é do Visconde? — berrou Emília.

Foram encontrá-lo caído no chão, a gemer.

— Que houve, Visconde? Que gemidos são esses?

— Estou ferido — disse ele com voz fraca. Parece que me quebraram a perna...

Emília ergueu-o. O Visconde caiu de novo. Não podia agüentar-se de pé. Pedrinho veio examiná-lo.

— Sim, quebrou a perna esquerda, o coitadinho.

Nada mais certo. O pobre escudeiro estava com a perna esquerda quebrada — quebradíssima... Mas para quem dispõe dos milagres duma vara de condão, perna quebrada de Visconde é o de menos. Com uma simples varadinha troca-se uma perna quebrada por uma nova — e Pedrinho gritou:

— Emília, venha virar a perna quebrada do Visconde em perna nova.

A cigana aproximou-se. Examinou a fratura e disse:

— Com duas talas e um pouco de esparadrapo você conserta muito bem essa quebradura. Não vale a pena gastar uma virada com isto.

E daí não se arredou. Por mais que o menino insistisse, a ciganinha não se animou a gastar uma virada no conserto do Visconde.

— Bem diz Nastácia que você não tem coração, — queixou-se Pedrinho. E ela:

— Tenho coração, sim, mas também tenho cabeça. Se com duas talas e um pouco de esparadrapo ele se arruma, por que hei de gastar com esta perna uma virada inteira, eu que só tenho onze na varinha? Não e não e não.

— Então não quer bem ao Visconde?

— Quero, sim, e muito — mas... e se eu não estivesse na posse da varinha? Tudo não se arranjaria muito bem com as talas? Pois faz de conta que não tenho vara nenhuma...

E não houve meio. Pedrinho teve de preparar duas talas e entalar entre elas a perninha quebrada do Visconde. Depois fez-lhe um par de muletas.

O moleque nocaute ainda estava ali, sob a guarda do centaurinho. Que fazer dele? Soltá-lo era perigoso: voltaria correndo para Micenas, avisava lá o povo e as complicações poderiam ser terríveis.

Os pais iriam dar queixa ao Rei Euristeu — e nada mais natural que o "antipatia" mandasse uma escolta justar contas com eles. A solução era conservá-lo ali.

Chamava-se Melampo o jovem prisioneiro, muito vivo e ar de remador. Pedrinho propôs-lhe um negócio:

— Soltar nós não soltamos, porque você vai lá e conta tudo e temos complicações. Os vencidos na guerra são prisioneiros de guerra. Mas não queremos abusar da nossa força. Somos de bom coração e boa vontade. Proponho que fique aqui conosco, fazendo parte do nosso bando. As aventuras são tremendas — e contou a história dos oito Trabalhos de Hércules já realizados com a ajuda deles.

— E agora vamos seguir para o reino das amazonas, em busca dum tal cinturão duma tal Hipólita. Quer ir conosco?

Perguntar a um menino daqueles se quer tomar parte em aventuras é o mesmo que perguntar a gato faminto se quer bofe. Melampo aceitou a proposta com o maior entusiasmo. E para animá-lo ainda mais Pedrinho disse:

— Para começo, pode dar um galope por esses campos montado em Meioameio.

O rosto de Melampo iluminou-se. Uma galopada de centauro, quanto não vale isso? Montou e lá se foi na disparada e de volta aderiu de coração ao grupo dos pica-pauzinhos, como se também fosse um neto de Dona Benta.

Os dias passados ali foram dos mais agradáveis que tiveram na Grécia. Melampo era mestre em brincadeiras. Ensinou a Pedrinho todos os brinquedos dos meninos de Micenas e foi ensinado em todos os brinquedos modernos. Quem não gostou da história foi Meioameio.

— Gente demais para o meu lombo — disse ele. — Se vocês arranjassem um jumentinho...

A ideia foi recebida com palmas. Um jumentinho para Melampo! Mas onde encontrar um jumentinho? Melampo sabia. Não havia o que Melampo não soubesse ali daqueles arredores. Contou que a certa distância ficava uma bela criação de cavalos e jumentos, dum homem rico lá da cidade. Podiam chegar até lá e...

Melampo montou em Meioameio e partiu no galope em procura do jumentinho.

Emília ficou a consolar o Visconde.

— Isso sara — dizia ela. — E se não sarar, tia Nastácia troca essa perna por outra, novinha e linda.

Depois, mudando de assunto: — Que quer dizer Avé, avé, evoé?... Eu vivo berrando esse Ale guá dos gregos mas sem saber o que significa.

O sabuguinho científico, gemendo, gemendo, explicou que naquela célebre guerra entre os deuses e os titãs, Zeus transformou o seu filho Baco num leão terribilíssimo e atiçou-o em cima dos gigantes com estas palavras: "Eu, uie, evohé, Bacche!" — Bem, meu filho, coragem Baco! Nas festas ao deus Baco os seus adoradores repetiam essas palavras sacramentalmente.

— Mas o avé, avé, evoé? — insistiu Emília.

— Isso é asneirinha sua, Emília. "Avé" quer dizer "Salve". "Evoé!" quer dizer "coragem." Salve, salve, coragem! é asneirinha sua, Emília.

— E o "Ave" da "Ave Maria" também é "salve"?

— Sim. Tanto faz dizer Ave Maria como Salve Maria... Ai, ai, ai... Como me está doendo a perna...

O asno de ouro

Meioameio e Melampo voltaram trazendo pelo cabresto um belo asno de peludas e compridas orelhas, e antes de apear já Melampo gritou para Pedrinho:

— Não foi necessário furtar jumento nenhum lá da criação do tal homem. Encontramos este sem dono logo ali adiante...

Todos correram para ver. Emília achou-o com "muito ar" do Burro Falante.

— Por que ar?

— Tem ar até de falar — disse Emília; — e dirigiu-lhe a palavra: — Não será você também dos tais que falam, asno?

— Sim — foi a resposta. — E falo porque sou homem e não asno. Esta aparência que estão vendo não é a com que nasci.

Meninos comuns que ouvissem essas palavras da boca dum asno haviam de encher-se de verdadeiro terror — mas os pica-pauzinhos eram crianças que não se admiravam de coisa nenhuma neste mundo. Tudo lhes parecia naturalíssimo. Em vez de se sentirem tomados de terror, pediram ao asno que contasse a sua história.

E o asno contou:

— Chamo-me Lúcio. Em certa excursão que fiz a uma cidade da Tessália hospedei-me em casa do velho Milon, ao qual me haviam recomendado; e lá vim a saber que sua esposa era uma grande mágica. Quem mo revelou foi a criada Fótis. "Se quiser convencer-se, espie aquele quarto. É nele que a esposa de Milon prepara as suas feitiçarias." Espiei e vi a velha esfregando-se com uma pomada — e logo se transformou em coruja e saiu voando pela janela. Fiquei ansioso por fazer a mesma experiência: transformar-me em coruja e gozar a delícia dum passeio noturno pelos céus da Tessália.

Com a ajuda de Fótis, penetrei no quarto da feiticeira e lá dei com uma bela coleção

de potinhos de pomada. Cada uma transformava uma pessoa numa certa coisa. Peguei na que me pareceu pomada de coruja e esfreguei-me todo. Mas, ai de mim!... Eu havia errado de potinho e a pomada que passei no corpo me transformou em asno em vez de coruja. Meu desespero foi enorme. Que fazer? Fótis me disse que só havia um meio de perder aquela forma e readquirir o aspecto humano: comer rosas. Mas como não houvesse rosas por ali, eu tinha de esperar pelo dia seguinte. Era noite fechada. Fiz o que podia fazer: fui em procura duma cocheira; de manhã eu sairia pelo mundo em procura de rosas. Súbito, um rumor estranho. Eram ladrões que tinham vindo assaltar a casa de Milon — e lá me levaram pelo cabresto para uma caverna muito escura nas montanhas. E como eu resistisse a coices, quantas pancadas me deram! Fiquei mais morto que vivo, quase descadeirado. Lá pela madrugada passei por um soninho e tive um sonho.

Nesse sonho a deusa Ísis me apareceu e disse: "Breve haverá uma festa em minha honra. Quando o sacerdote vier com a braçada de rosas que costumam depositar em meu altar, aproxime-se e coma uma.

Voltará imediatamente à sua antiga forma humana." Fiquei radiante por dentro, mas como sair dali? Os ladrões não me levavam ao pasto — e preso lá fiquei longos dias, até que ontem foi a caverna assaltada por ladrões de outro bando.

Houve luta e mortes. Aproveitei-me da confusão para fugir...

— E foi pegado por Meioameio, não é assim?

— Exatamente. Eu vinha vindo pela estrada, quando me surge à frente este centaurinho. Murchei as orelhas, submissamente — pois que pode fazer um pobre asno diante dum centauro? E agora estou aqui...

Pedrinho ficou radiante. Dispor de um asno para conduzir Melampo já era uma grande coisa, mas dispor de um asno falante era mil vezes melhor — e propôs-lhe um negócio.

— Nós não somos daqui, somos do mundo moderno, lá do sítio de vovó. Viemos para tomar parte nos Trabalhos do famoso Hércules. Conhece-o?

O asno respondeu que não havia na Hélade quem desconhecesse o grande herói.

— Pois é isso. Somos os companheiros e ajudantes de Héracles. Já estivemos em oito Trabalhos e agora vamos caçar o cinturão da Hipólita, a rainha das amazonas. Proponho um negócio: você adere ao nosso bando na qualidade de cavalgadura de Melampo. No fim das aventuras, come as rosas do sacerdote de Ísis e volta a ser Lúcio. Topa?

O asno coçou a cabeça. Aquilo de tornar-se cavalgadura dum menino desconhecido não era nada agradável, mas que fazer? Acabou concordando.

— Pois está fechado. Fico na qualidade de cavalgadura deste menino. No fim, como as rosas e pronto.

Melampo deu um pulo para cima do lombo do asno e disse:

— Pois vamos a um passeio por estes campos. Quero ver se é bom de andadura.

O asno resignou-se. Não tinha prática nenhuma de levar cavaleiros em seu lombo. Trotou desajeitadamente. Levou esporadas do calcanhar de Melampo. Mas como fosse muito inteligente, breve se ajeitou às suas novas funções de cavalgadura.

Estavam nisso, quando Hércules apareceu. Vinha com um fulgor de satisfação nos olhos. Ao ver aqueles personagens novos, um asno e um menino desconhecido, fez cara de ponto de interrogação. Emília explicou:

— Este é o Melampo, nosso ex-prisioneiro de guerra e agora amigo. E este é um tal Lúcio que em vez de pomada de coruja usou pomada de quadrúpede.

Hércules não entendeu. Foi preciso que Pedrinho tudo explicasse miudamente. Depois contou que havia sido muito feliz em sua excursão.

— Estive com Teseu, Peleu, Telamon, Sólon e outros heróis. Todos aderiram ao meu plano de ataque às amazonas e estão a preparar-se. Vim buscar vocês. Amanhã partiremos. Vamos nos reunir em Temiscira, no Ponto.

— Teseu ainda continua lindo? — indagou Emília, que na aventura de Creta muito se impressionara com a beleza do herói.

— Sim — respondeu Hércules. — A beleza de Teseu é quase divina. Encontrei-o em Atenas às voltas com um touro capturado nos campos de Maratona. Sabem que touro era?

Ninguém sabia.

— Aquele mesmo que pegamos em Creta e Euristeu soltou. Teseu conduziu-o a Atenas a fim de sacrificá-lo no altar de Palas. E o meu escudeiro?... perguntou Hércules, notando a ausência do sabuguinho. Não o estou vendo...

Pedrinho contou a história do assalto dos meninos de Micenas, a luta havida, as dezenove viradas da varinha, o aprisionamento de Melampo e por fim a desgraça do Visconde.

— Levou um tranco dos tais moleques e quebrou a perna. Já a encanei e fiz-lhe um par de muletas. Agora está dormindo um soninho.

Hércules foi vê-lo. Lá estava o Visconde numa cama de musgos da floresta, a dormir um sono agitado. De vez em vez saíam-lhe da boca palavras inconexas.

— Está delirando, — explicou Pedrinho. — Febre alta...

Hércules ficou apreensivo. Se estava febrento assim o seu escudeiro, como poderiam partir no dia seguinte?

— Dá-se um jeito, disse Emília. Pode ir numa redinha no lombo de Lúcio. Amanhã a febre passa. Logo que acordar hei de fazê-lo beber um chazinho de quina.

— E onde acha quina por aqui, Emília? — perguntou Pedrinho.

— Na Farmácia do Faz-de-conta... — respondeu ela, muito lampeira.

Rumo a Temiscira

Hércules tinha de ir por mar até ao Ponto Euxino, que era como então se chamava o Mar Negro de hoje. Por lá ficava o tal reino do Ponto, perto da Capadócia — a terra de S. Jorge. Próximo de Temiscira, a capital desse reino, é que deviam reunir-se para a aventura das amazonas os amigos convidados por Hércules.

A viagem por mar correu péssima para o herói, com aquela sua mania de enjoar o tempo inteiro, mas foi boa para a perninha do Visconde. Os ossos da quebradura soldaram-se; mesmo assim ficou mancando e não dispensava as muletas. Meioameio também foi — e também enjoou. Era a primeira vez que um centauro entrava em navio.

No desembarque tiveram uma agradável surpresa. Foram recebidos pelo mais lindo e amável dos deuses: Zéfiro.

— Mas Zéfiro não é um vento? — perguntou Emília — e o Visconde:

— Sim. Para os modernos é um agradável ventinho de primavera. Para os gregos é um deus — e que lindo deus! Suave, tão

fresquinho, tão perfumado das primeiras flores da primavera! Tem lindas asas de borboleta e a fronte cingida duma coroa de "primaveras".

Pedrinho observou que no sítio de Dona Benta havia muitos pés de "primaveras”.

— As lá do sítio são outras — disse o Visconde. São buganvílias, nome dado em honra a Bougainville, um famoso navegador francês. As daqui são flores duma plantinha rasteira que abrem no começo da primavera. Zéfiro usa na cabeça violetas e "primaveras" das daqui. Tem o corpo diáfano...

— Que é diáfano? — quis saber Emília.

— É um vocábulo composto de duas palavras gregas: "dia", através, e "phaino", eu brilho... Diáfano quer dizer quase transparente, ou translúcido. Quando a luz atravessa completamente um corpo, como no caso do cristal, diz-se que o corpo é transparente e quando não o atravessa completamente e sim "mal e mal", diz-se que é diáfano.

O Visconde explicava as coisas tal qual Dona Benta: havia aprendido com ela.

— Muito bem — disse Emília. — Zéfiro tem o corpo diáfano; e que mais?

— Muito lépido e leve, desliza pelo espaço graciosamente, com uma cesta de flores na mão — daí os perfumes que vai espalhando à sua passagem. Zéfiro casou-se com Clóris, a mesma divindade que os romanos chamavam Flora, e é o pai de Carpo, uma das três Graças.

— Quais são as outras?

— Essas lindas divas têm nomes variáveis. Chamam-se Aglaia, Tália e Eufrosina, segundo diz o antiquíssimo poeta Hesíodo em seu poema sobre os deuses. Outros dizem que são Cleta, Pasitéia e Pito; outros, que são Faena, Hegémona e Auxo; outros, que são Talo, Auxo e esta Carpo, filha de Zéfiro. As Graças em grego chamavam-se Cárites, nome que vem de caris, isto é, graça, alegria, agrado, amabilidade. E são um encanto as três Cárites. Só se preocupam de uma coisa: agradar — e possuem de fato o maravilhoso dom de agradar. Tudo no mundo que é macio, fino, afável, gostoso vem das Cárites...

— Que mimo!... — exclamou Emília. — Já estou me encantando com elas. E juro que das três a mais bonita e agradável é Carpo, a filha de Zéfiro e Flora. Que delícia ser filha dum vento ou brisa tão leve e da deusa das flores perfumadas! e Emília ficou de narizinho para o ar, num enlevo, respirando com delícia o Zéfiro que perpassava.

O Visconde continuou:

— Zéfiro teve mais filhas: as Brisas...

— As Brisas? — berrou Emília. — Que amor!... Qual a diferença que há entre ventos e brisas?

— A mesma que há entre adultos e criancinhas. O vento é o pai — forte, valente, enérgico; a brisa é uma menininha de três ou quatro anos que só cuida de brincar.

— Eu que sou? Brisa ou vento?

O Visconde olhou bem para ela e respondeu:

— Você, às vezes, Emília, é um verdadeiro Pé-de-Vento...

Enquanto assim conversavam a bordo da barca de vela, o pobre herói, de bruços na amurada, com os olhos muito brancos, vomitava as tripas. Pedrinho olhava-o com expressão condoída.

— Mas não haverá um remédio para tanto enjôo? Nossa viagem vai ser longa — mais de trezentos quilômetros. E se Hércules morre?

Emília teve uma idéia.

— Visconde, os gregos possuem um deus para cada coisa. Será que não há um para o enjôo?

— Ignoro — respondeu o sabuguinho. — Pergunte a Melampo.

Nada mais inútil do que perguntar certas coisas a Melampo. Apesar de grego, sabia muito menos da história e das lendas gregas do que o Visconde, um simples sabugo. Melampo era mestre só numa coisa: reinações. Chegava até ao absurdo de, ali naquela barca tão apertadinha, montar no asno de ouro e fingir que estava galopando. E fincava-lhe os calcanhares como se fossem esporas e batia-lhe nas ancas tapas estalados...

O Visconde contou que a história de Lúcio transformado em asno ia ser narrada por um escritor romano chamado Apuleio, que ainda estava no calcanhar da bisavó. Ao saber disso, o asno derrubou as orelhas. "Quer dizer que vou me prestar para a risota do mundo, ai, ai...”

Antes do embarque já havia Lúcio descoberto uma linda roseira carregada de rosas e quase chorou de desespero.

Bastava abocanhar uma delas e estaria devolvido à sua forma humana. Mas teve de engolir em seco. Estava ligado àquele grupinho pela palavra de honra. O pior era que sua função ali se resumia a uma coisa só: funcionar como besta de carga dum moleque de Micenas...

Afinal chegaram — e não foi sem tempo. Hércules parecia Tony Galento quando foi tirado a braços do ringue.

Teve de apoiar-se em Meioameio para não cair. O Visconde aconselhou-lhe um repouso de dois dias em terra.

— Sim — acrescentou Emília — porque desse jeito, Lelé, se aparecer por aqui alguma das amazonas, quem perde o cinturão é você — e apontou para a pele de leão invulnerável. Depois da luta contra o leão da Neméia o herói nunca mais abandonara a preciosa pele.

Pedrinho encarregou-se de procurar um sítio adequado ao repouso de Hércules. Escolheu um grupo de árvores, cuja sombra ficou sendo o "sanatório". Lá a vítima do enjôo se deitou e regalou-se com a delícia de sentir-se em terra firme. No dia seguinte Hércules amanheceu quase bom.  

O chazinho que lhe deu o Visconde era um porrete para "herói enjoado" — como disse Emília.

Melampo fora bater papo com uns viandantes lá na estrada. Perguntou-lhes se os outros heróis já estavam em Temiscira. Ninguém sabia de herói nenhum. Quando o menino contou que fazia parte da comitiva de Héracles, o qual estava no "sanatório" descansando de sua viagem por mar, todos espantaram-se; e um deles, o mais corajoso, foi fazer uma visita ao herói. Encontrou-o estirado à sombra da árvore, comendo um carneiro assado. A fome já havia renascido. Emília explicou:

— Ontem parecia um bacalhau de porta de venda. Hoje até fome tem. Chegou tão descadeirado, o pobre...

O visitante supôs que o "descadeirado" se referia a alguma derrota em luta. Por maiores que sejam os heróis, às vezes apanham boas tundas no lombo, como tanto aconteceu a D. Quixote.

— Quem o descadeirou?

— Um gigante chamado Mar — respondeu Emília — o único que derrota Lelé. Queria que você visse como ele ficou de olho branco...

À tarde chegou outro navio: era o de Peleu — e também ressurgiu Minervino. Hércules foi receber o recém-vindo enquanto o mensageiro de Palas atendia à curiosidade dos pica-paus contando quem era Peleu.

— Oh!, um grande e famoso herói disse ele. — Rei de Iolcos, irmão de Telamon. Foi o verdadeiro causador da guerra de Tróia...

— Como? — exclamou Pedrinho. Pois a causadora da guerra de Tróia não foi Helena, a mulher do rei Menelau?

— Foi — mas quem meteu Helena no embrulho, se não Peleu? Logo, o verdadeiro causador de tudo foi ele.

— Conte lá isso.

— Peleu, depois de muitas aventuras, tomou posse da cidade de Iolcos e fêz-se rei. E como estivesse viúvo, desposou a Nereida Tétis.

— Que é nereida? — quis saber Emília.

Minervino coçou a cabeça. A eterna curiosidade de Emília não tinha fim.

— As nereidas são as filhas de Nereu e Dóris. As nereidas personificam as particularidades das ondas: o movimento, a cor, o marulho. Glauce é a nereida do azul; Talia, a da cor verde; Cimodocéia, a do marulho; Dinamene, a dos movimentos rápidos dos vagalhões... Pois bem: Peleu casou-se com Tétis, lá na gruta de Quiron, no Monte Pélio. Foi um dos mais importantes casamentos da antiguidade. Até os deuses vieram assistir à cerimônia e trouxeram os mais lindos presentes.

Peleu havia mandado convite para todas as divindades, maiores e menores, exceto uma: Éris ou a Discórdia. E estavam no melhor da festa, quando a terrível Éris surgiu. Chegou e colocou em cima duma pedra um pomo de ouro com esta inscrição: À mais bela! Aquilo era uma provocação às três grandes deusas ali presentes: Juno, Palas e Vênus. A qual fazer-se a entrega do pomo? Como decidir qual das três a mais bela? Tornou-se necessário um julgamento. Convidam para julgador ao jovem Páris, um príncipe filho do rei de Tróia. Páris olha para as três divindades e entrega o pomo a Vênus.

— E fez muito bem — disse Emília — porque Vênus é a deusa da beleza.

— Isso pensamos nós, mas Juno e Palas não tinham a nossa opinião. Roeram-se por dentro de ódio—e quem pagoufoi Tróia. Para se vingarem do julgamento daquele juiz, provocaram a guerra entre os gregos e os troianos, da qual Tróia saiu completamente destruída. Se não fosse Peleu apaixonar-se por Tétis e promover aquela festa, não teria havido a guerra de Tróia...

Hércules apresentou a sua comitiva ao rei de Iolcos, o qual muito estranhou que um herói tão grande andasse com um escudeiro tão pequeno e esquisito, de cartola e muleta. Mas gostou muito de Pedrinho e Emília. Ao saber da atuação desta nos casos do javali do Erimanto e do gigante Anteu, suspirou.

— Ah, quanto desejava eu dispor duma "dadeira de idéias" assim! Minha vida tem sido das mais atormentadas porque sempre me faltam boas idéias nos momentos decisivos. E este asno?

— É Lúcio! — gritou Emília, — um homem que virou asno porque no escuro do laboratório da feiticeira errou de pomada. E fala como gente, Senhor Peleu. Quer ver?

E para o asno:

— Diga alguma coisa:

Lúcio, muito desapontado daquele papel de "fenômeno" exibido em feira, disse, depois dum suspiro:

— Bem-vindo seja a estas paragens o nobre rei de Iolcos...

Peleu quase caiu para trás de susto. Era a primeira vez que via um asno falante. Emília deu uma grande risada.

— Isto de asnos falantes diz Dona Benta que é o que há mais no mundo. Diz que até nos tronos há asnos falantes — e nos congressos, nos ministérios, nas academias. Mas só asnos de dois pés e com forma humana. Asno falante de quatro pés, só sei deste. Lá no sítio também temos um burro falante, mas asno não é burro. Chama-se o Conselheiro — e como fala bem! Só diz coisas filosóficas — sabe o que é, herói?

Peleu já estava tonto com a parolice de Emília.

Pedrinho aproveitou um momento em que a ex-boneca fez uma pausa para engolir e disse:

— Já sabemos da sua história, senhor Peleu, e muito lamentamos a desastrada sentença de Páris no caso das três deusas, lá na festa do seu casamento.

— Por quê? — exclamou Peleu, admirado.

— Porque foi dali que saiu a Guerra de Tróia.

Peleu franziu a testa. Jamais havia pensado em tal coisa. Emília meteu o bedelho:

— Aquele Páris não tinha a menor habilidade. Se fosse Salomão, a sentença seria uma beleza e todos ficariam contentes.

— E qual seria a sentença desse tal Salomão? — quis saber Peleu.

— Ele dividiria o pomo em três pedaços e daria um a cada deusa, dizendo: "Empatou!"

— Mas um juiz não pode empatar — observou Peleu. Justamente quando as coisas empatam é que os homens recorrem aos juizes. Que é uma sentença se não um desempate?

Emília atrapalhou-se, mas não querendo dar o braço a torcer, veio com outra solução das suas:

— Salomão chegava ao ouvido de uma dizia: "A mais bela é você, mas não diga nada às outras." Cochichando as mesmas

para as três, deixava-as contentíssimas e sem guerra nenhuma.

Peleu riu-se e voltou à carga:

— Mas Páris tinha de entregar o pomo a uma das três...

— Eu, se tivesse de entregar o pomo, fazia um passe de mágica e sumia o pomo na manga. E depois, com cara inocente: "Ué! Que fim levou o pomo?", e desse modo embrulhava a todos...

— Já sei — interrompeu Pedrinho. — Embrulhava a todos e ia guardar o pomo lá na sua canastrinha. Ah, Peleu, esta bicha só nós é que sabemos o que ela é.

Peleu fez uma festinha com o dedo no queixo de Emília e voltou a tratar com Hércules o assunto das amazonas.

— Estive pensando, Hércules, que talvez nos seja possível conseguir às boas o que à força vai ser bastante duro. Proponho que mandemos à Rainha Hipólita um parlamentar.

— É uma idéia — disse Hércules, e eu poderia enviar o meu escudeiro, se não fosse o desastre que o pôs de perna quebrada. Talvez Pedrinho possa substitui-lo — e, voltando-se, chamou o menino.

— Escute, oficial. Tenho de mandar um mensageiro à Rainha Hipólita. O Visconde era o naturalmente indicado, mas a fratura da perna o põe fora de serviço. Pensei em você. Quer ir ter com Hipólita em nosso nome?

Pedrinho esfriou. Nunca em sua vida lhe haviam feito uma proposta semelhante. Apresentar-se como parlamentar à presença duma rainha — e que rainha! Hipólita, a grande Hipólita do cinturão! A surpresa daquelas palavras deixou-o tonto por uns instantes.

— Vamos, responda! — insistiu Hércules.

Pedrinho, afinal, desengasgou:

— Estou às ordens.

Hércules voltou os olhos para Peleu como quem diz: "Está vendo que firmeza de decisão?" E para o menino: — Pois apronte-se, que vamos redigir a mensagem.

Logo depois partia Pedrinho montado em Meioameio, levando no bolso a mensagem de Hércules e Peleu a Hipólita:

"Formosa rainha das invencíveis amazonas! Incumbidos estamos de uma empresa que muito nos vexa: apresentar ao Rei Euristeu o vosso zóster. Altos interesses humanos e divinos assim o querem. Mas longe de nós a idéia de usar da violência contra a rainha das formosas guerreiras; e, assim sendo, esperamos que nos conceda um encontro no qual o assunto possa ser discutido. Respeitosamente beijam a linda mão da rainha das amazonas, Peleu e Héracles."

Evidentemente o estilo da mensagem denunciava o dedo de Peleu. Hércules era ali no golpe. Na pena, coitado!...

Pedrinho lá se foi no galope e depois de muito andar pressentiu sinais de mudança.

— Meioameio — disse ele — parece que estamos chegando. Sinto um cheiro de estrebaria no ar. Deve haver muito cavalo no reino das amazonas.

O centaurinho concordou. Seu ótimo faro disse-lhe que a menos de meia légua encontrariam a primeira amazona — e assim foi. Vencida a meia légua, ouviram um trote, e logo depois deram com uma guerreira amazona, de aspecto hostil e lança erguida. Pedrinho empalideceu, mas dominou-se. Quem leva missões como a dele não pode fraquear — e foi com voz deliberademente firme que abordou a guerreira.

— Senhora — disse ele — aqui estou na qualidade de mensageiro de Hércules e Peleu, dois tremendos heróis, e deles trago uma mensagem para a Rainha Hipólita. Quererá ter a gentileza de dizer-me onde posso encontrá-la?

A amazona mediu-o de alto a baixo e sorriu. Um menino apenas. As instruções que todas recebiam eram para matar qualquer homem que cruzasse as fronteiras do reino; não falavam em menino. E a amazona, baixando a lança, respondeu:

— Na tenda branca à margem esquerda do Rio Termodonte. Lá encontrará a nossa grande rainha — e mostrou o rumo.

Pedrinho respirou, enquanto Meioameio dizia: — Ela nada fez porque você ainda é um menino. Se se tratasse dum homem feito, ah, tê-lo-ia espetado com a lança! Às vezes vale a pena ser-se crila...”

Pedrinho tomou pelo rumo indicado e depois de algum tempo defrontou o Termodonte — um riozinho à-toa.

— Margem esquerda disse ela. É a de lá.

Ponte era coisa que não havia. Tiveram de atravessar a nado. Depois foram andando. Súbito, viram ao longe uma espécie de campo de guerra, com barracas e movimento de animais.

— Deve ser lá — disse Pedrinho. — Mulheres guerreiras hão de viver em acampamentos como aquele.

E de fato era lá o acampamento da Rainha Hipólita. Assim que as amazonas viram chegar um centaurinho cavalgado por um "homem", voaram com as lanças em riste para recebê-los conforme as ordens. Mas vendo tratar-se dum potrinho de centauro e dum filhote de homem, detiveram-se, como havia feito a outra.

— Quem é você, menino?

O neto de Dona Benta respondeu com voz firme:

— Sou Pedrinho Encerrabodes de Oliveira, oficial de gabinete do Senhor Héracles. Trago desse grande herói e do Rei Peleu uma mensagem para Hipólita, a rainha das amazonas.

As guerreiras entreolharam-se, trocando palavras que Pedrinho não pôde ouvir. Depois:

— Siga-nos! —disseram. —Nós o escoltaremos até à tenda de Hipólita — e lá se foram com o menino à frente.

Que estranhas aquelas criaturas! Que fortes! E que aspecto belicoso!

Acostumado a ver nas mulheres do século vinte uns seres delicados, frágeis, graciosas, Pedrinho espantava-se do porte imponente e da rija musculatura das amazonas. Cada qual era o que se chama "uma mulher e tanto". Belas, sim duma beleza forte de estátua. E que cavaleiras! Realmente davam idéia de centauras, isto é, de formarem um só corpo com os cavalos. Uma que passou a galope num formoso cavalo branco trouxe a Pedrinho a lembrança das correrias do William Boyd nas fitas americanas.

A escolta deteve-se diante da tenda real. Uma das amazonas apeou e entrou. Logo depois aparecia a majestosa figura da rainha. Bela, sim! Bela como as estátuas. O zóster que trazia à cintura indicava a sua dignidade realenga.

Pedrinho gaguejou:

— Majestade, eu... eu venho da parte de Hércules com esta... esta mensagem e com mão trêmula tirou do bolso o pergaminho. Hipólita estendeu a mão muito branca e tomou-o. Desenrolou-o e leu. Parece que lhe soube bem o estilo porque sorriu. Depois disse:

— Este meu zóster, presente de meu pai Ares, anda a virar a cabeça de muitas princesas. Como posso desfazer-me dele sem prejuízo da minha dignidade de rainha das amazonas? Dizei a Hércules, ó pequeno mensageiro, que o caso não pode ser decidido levianamente. Ele que venha conversar comigo. Darei ordens às minhas guerreiras para que o acolham gentilmente.

Pedrinho, ainda trêmulo, fez uma saudação de cabeça e com o calcanhar ordenou a Meioameio que rodasse para trás.

O fato de vir montado num centaurinho havia causado grande surpresa àquelas mulheres. Inúmeras tinha acorrido de todos os lados para verem a maravilha. E comentavam, cochichavam umas ao ouvido das outras.

Meioameio afastou-se dali a passo, como que também peado pelo medo. Mas assim que se viu a certa distância, disparou no galope.

De volta ao acampamento deu Pedrinho contas a Hércules do desempenho de sua missão, transmitindo-lhe com toda a fidelidade as palavras de Hipólita. Hércules olhou para Peleu.

— Parece que tudo vai bem. Se a rainha nos marcou um encontro, é que não está hostil.

Tudo vai bem

No dia seguinte chegaram as naus de Teseu e dos outros heróis. Desembarcaram e foram para o navio de Hércules combinar o plano de assalto às amazonas.

A noticia do bom acolhimento da mensagem causou-lhes agradável impressão.

— Ótimo se não houver luta — disse Helamon. — Conquanto sejam guerreiras terríveis, a mim me repugna ter de lutar contra mulheres. Ficarei satisfeitíssimo se chegarmos a um acordo com Hipólita.

Estavam ainda no navio de Hércules a discutir o assunto, quando Emília gritou:

— Lá vem vindo um bando de guerreiras! — e era verdade. Hipólita aproximava-se da praia seguida de enorme séquito de amazonas.

O encontro da grande rainha com os heróis foi dos mais auspiciosos. Trataram-se como amigos velhos, e não tardou que a beleza de Teseu amolecesse o coração de Hipólita. Ficou tão amável que com surpresa de todos se propôs entregar-lhe o zóster. Hércules, radiante, viu que tudo ia acabar em festa — e assim seria se não fosse a intervenção de Juno.

Sim, de Juno, porque a vingativa deusa, que lá do Olimpo acompanhava o desenvolvimento da aventura, avermelhou de cólera ao perceber a amável disposição da rainha das amazonas. E que faz? Desce imediatamente à terra, disfarça-se em amazona e com ar muito aflito entra a promover o levante das guerreiras que de longe assistiam à conferência de Hipólita com os heróis.

— Eles vão raptar a nossa rainha! Se a não defendermos, Hipólita estará perdida — e tais e tantas coisas disse que acabou virando a cabeça de todas.

— Ataquemo-los já! Não temos um minuto a perder. Salvemos a nossa amada rainha!...

E o que houve então foi coisa que abalou a terra.

Como que movidas por mola única, as amazonas lançaram-se ao mais terrível dos ataques contra os heróis. Vinham cegas de ódio, no galope furioso de seus cavalos brancos, as lanças em riste, os olhos a despedirem fagulhas. Hipólita quis intervir, mas não pôde. O tropel do ataque abafava-lhe a voz. Colhidos de surpresa, os heróis mal tiveram tempo de tomar suas armas.

E foi a luta que os poetas gregos contam — luta de gigantes. Golpes de clava tremendos, lançaços, avanços e recuos.

Teseu defendia-se como um leão encurralado. Os golpes de Telamon reboavam. Sólon derrubou duas com uma só clavada. Tão terrível foi o pega que o carro de Apolo, já a descambar no horizonte, como que entreparou, assustado.

Os pica-paus haviam corrido para bordo. Só Melampo ficara em terra. O bobinho julgou que aquilo fosse como as lutas dos moleques lá de Micenas — lutas de brincadeira, sem outras conseqüências além de arranhões, galos na testa, manchas roxas pelo corpo — mas foi cruelmente pisado pela pata dos animais.

Em certo momento Hércules tomou uma resolução decisiva. Ficar ali naquela luta era acabar perdendo a batalha. Por maior que fosse a potência do seu grupo, como vencer o número? Eles eram um punhado; as amazonas, uma legião. Nas lutas entre o valor e o número quem sempre acaba vencendo é o número. O jeito eram irem combatendo e recuando na direção dos navios — e de repente agarrar Hipólita e levá-la para bordo como refém.

Lá no navio de Hércules os pica-paus, em companhia de Minervino, estavam vendo tudo como de uma frisa de teatro.

— Hera, Hera! — exclamava o mensageiro. — Bem que Palas me advertiu. Vendo que tudo ia acabar em acordo, a rancorosa divindade veio em pessoa arengar e amotinar as amazonas...

Emília ia dizendo "Que bisca!" mas engoliu em seco e deu um tapa na boca. Pedrinho estranhou a ausência de Melampo.

— Está lá ele! — gritou o Visconde. — Caído no chão — talvez morto. Vi quando foi meter-se na refrega.

O combate continuava cada vez mais furioso, mas os heróis já estavam recuando. Defendiam-se como leões e recuavam — recuavam na direção dos navios. Súbito, Hércules, que durante toda a luta não se afastara de Hipólita, agarrou-a pela cintura e voou para o navio. Seus companheiros também abandonaram a luta e se sumiram nas naus. O desapontamento das amazonas foi imenso. Não tinham contado com aquele golpe estratégico. Em campo raso eram poderosíssimas, mas que poderiam fazer contra os heróis refugiados a bordo?

Hércules berrou da amurada:

— Detende-vos, valorosas guerreiras! Tenho comigo um precioso refém: Hipólita. E de bom grado a libertarei se depuserdes as armas.

As amazonas entreolharam-se, como que indecisas. Que fazer? Uma delas, a mais feroz de todas, justamente a que as havia amotinado, gritou que não, que não deporiam as armas, que lutariam até o fim, que abordariam as naus.

— É Hera quem fala — observou Minervino. — Conheço-lhe o tom da voz... — e Emília correu a cochichar para Hércules que a que estava estimulando as outras era a bisc... era a boa deusa Hera. O herói compreendeu tudo e falou de novo para as guerreiras:

— Sei quem vos amotinou no momento em que tudo obtínhamos de Hipólita pacificamente, mas sei também de que nada valerá essa intervenção. A grande Palas me protege e permitiu-me capturar a vossa grande rainha. Se não depuserdes as armas, levantarei âncora e partirei com Hipólita prisioneira. Se de fato amais à vossa grande rainha, deixai de atender à voz do despeito e atentei unicamente no que vos digo.

As amazonas entreolharam-se de novo e compreenderam a situação. Ou baixavam as armas ou perdiam a sua rainha e de nada valeram os gritos histéricos da falsa amazona que as havia amotinado. Baixaram as lanças em sinal de trégua.

Hércules então disse a Hipólita:

— Grande rainha, fomos ambos prejudicados pela vingativa deusa que me persegue. O acordo feliz que estávamos a justar desfechou na desastrosa luta em que tantas guerreiras perderam a vida e vi-me na contingência de aprisionar nesta nau aquela a quem eu só queria render homenagens. Mas restituir-vos-ei incontinenti à liberdade se, cumprido o acordo feito, me entregardes o vosso zóster.

Hipólita não fez objeção nenhuma. Destacou da cintura o zóster e entregou-o a Hércules.

— Ei-lo. Levai-o à princesa que tanto o ambiciona. Rainha sou por força do sangue e do devotamento de minhas súditas —não por força dum objeto material.

Hércules tomou o cinturão e beijou-lhe a mão, dizendo:

— O mais humilde súdito da grande Hipólíta, a rainha das invencíveis amazonas.

Emília sorriu e olhou para Pedrinho. "E não é que ele sabe falar? Lida com as damas que nem D. Quixote."

Estava finda a missão que Euristeu incumbira a Hércules. Admeta ia usar na cintura o zóster de Hipólita — mas nem por isso adquiriria a imponente beleza da rainha das amazonas, nem a sua esplêndida majestade. Uma coisa é nascer-se rainha, outra vestir-se de rainha. Hipólita nascera

rainha e era-o até à ponta das unhas. Com grande majestade respondera a Hércules e com a maior dignidade deixou o navio para ir juntar-se ao bando de suas guerreiras.

Teseu lá de seu barco tudo via. A beleza de Hipólita o tinha impressionado tão tremendamente que na hora da partida dos outros heróis declarou a sua intenção de ficar.

— Ficar? — exclamou Peleu com espanto.

— Sim. Hércules aprisionou Hipólita e Hipólita aprisionou o meu coração. Já não poderei viver sem ela.

Horas depois os navios levantavam ferro — todos, menos o de Teseu. O herói da Ática ficou e casou-se com Hipólita.

De volta para Micenas, depois de mais uma desagradável travessia do mar, Hércules teve uma aventura de todo inesperada. Ao passar por certa aldeia foi detido por um mensageiro de Litierses, filho de Midas, rei da Frígia. Esse homem possuía ali uma suntuosa propriedade onde passava uma verdadeira vida de filho de rei, a regalar-se com banquetes e vinhos dos mais preciosos. E divertia-se de um modo muito extravagante: obrigando aos que passavam pela estrada a servirem-no por um dia nas tarefas da lavoura — ceifar trigo, colher uvas ou azeitonas; e à tarde cortava-lhes a cabeça e jogava os corpos no Rio Meandro.

— Litierses ordena-te que vás limpar o seu chiqueiro de porcos — disse o mensageiro.

Hércules riu-se.

— Quem é Litierses? — perguntou.

— O filho do Rei Mídas. Mora aqui nesta grande propriedade e executa todos os trabalhos com um dia apenas de tarefa imposto aos passantes.

— E se o passante recusa-se?

— Ele corta-lhe a cabeça e joga-o no Meandro.

— E se o passante submete-se e dá o dia de serviço reclamado?

— Ele corta-lhe a cabeça e joga-o no Meandro.

Hércules respondeu:

— Leve-me à presença de Litierses. Desejo ter com ele um pequeno entendimento.

O homem obedeceu. Levou-o à presença do filho de Midas.

— Com que então — disse o herói com a maior calma — esta propriedade é lavrada à custa do trabalho e da vida dos passantes?

Litierses, que estava à mesa se banqueteando, deu uma grande gargalhada violenta.

— Claro, homem! Vou assim executando os trabalhos agrícolas e ao mesmo tempo engordando os peixinhos do rio. Não acha inteligente o meu processo?

Hércules engasgou de cólera e, agarrando o malvado, cortou-lhe a cabeça com a própria faca com que o filho do rei se servia — e foi jogá-lo no Meandro, dizendo: — Os peixinhos devem estar sequiosos por esta sobremesa.

Pedrinho assombrou-se com a facilidade com que na Grécia os heróis mandavam gente para o outro mundo. Roubar, matar —tudo coisas naturalíssimas. Hércules matou aquele filho de rei e lá prosseguiu na viagem como se não houvesse havido coisa alguma. E nada de polícia, inquérito, processo, júri, promotor, juiz, sentença, cadeia. Tudo muito rápido e expedito.

O Visconde observou que nos tempos modernos havia a "justiça organizada", mas ali a Justiça eram os heróis. Eles andavam à caça dos maus, como lá no mundo moderno faz a polícia. E pegavam-nos e liquidavam-nos com a maior simplicidade. Que era Hércules, afinal de contas, senão a Justiça em pessoa? Às vezes errava e matava inocentes — mas que justiça neste mundo não erra?

Depois da luta, das amazonas Pedrinho descera à praia em busca de Melampo e havia encontrado o menino desacordado e muito cheio de machucaduras. Com a ajuda de Minervino conduzira-o para bordo, onde o deixou entregue aos cuidados do Visconde. O sabuguinho estava se revelando um excelente médico. Entendia de chás e pomadas como qualquer curandeiro. E assim foi que antes de finda a viagem marítima já estava Melampo completamente "novo", como se tivesse saído do caldeirão de Medeia.

E como ia o Asno de Ouro? Cada vez mais cheio de suspiros pelo termo daquelas aventuras. Volta e meia encontrava rosas pelo caminho. Uma só que comesse e estaria restituído à forma humana. Tinha entretanto de respeitar a palavra e permanecer peludo até o fim das façanhas do herói. Isis em sonho lhe falara nas "rosas de seu sacerdote", mas o Visconde era de opinião que isso não passava de bobagem. — Não há diferença nenhuma entre uma rosa na roseira e essa mesma rosa nas mãos dum sacerdote.

Mas não foi assim. Certa vez em que o Asno de Ouro, enfurecido com as esporadas de Melampo, pregou um coice na palavra de honra e comeu a primeira rosa encontrada, ficou desapontadíssimo: continuou o mesmo asno de sempre, só que com uma rosa no papo. Tinha pois, de aguardar pacientemente as rosas do sacerdote de Isis.

E afinal chegaram a Micenas. Chegaram e tiveram uma grande decepção: o acampamento estava destruído! Do Templo de Avia, tão bonitinho, só viram destroços. As estacas com as esculturas das façanhas de Hércules jaziam caídas no chão, sem escultura nenhuma.

— Juro que os moleques de Micenas vieram até cá em procura dos outros e nos escangalharam o acampamento! disse Pedrinho. Só há uma coisa que não muda no mundo: os moleques! Que diferença entre os nossos lá do século 20 e estes aqui do século... Que século é este em que estamos, Visconde?

— Certeza não tenho, mas calculo que é o 12 ou 13 antes de Cristo.

Pedrinho ficou de olho parado. Depois disse, como que falando consigo mesmo:

— Parece incrível que estejamos a trinta e dois ou trinta e três séculos do nosso, isto é, a 3.200 ou 3.300 anos de distância do nosso tempo...

Emília suspirou.

— Uma coisa me aborrece, Pedrinho. É que depois da nossa volta ninguém vai acreditar uma isca do que contarmos. Dizem logo, com aquelas caras muito bobas:

"É imaginação... É fantasia de criança..." E, no entanto, nós estamos realmente no "fundo das idades" — como diz o Visconde. Com meus olhos estou vendo o nosso Lelé com a sua clava e a sua pele de leão. Estou vendo Melampo com a sua cara suja. Estou vendo suspiros lá nas tripas deste Asno de Ouro. Estou vendo Miner... Que é de Minervino? — e Emília correu os olhos em redor.

Não havia por ali Minervino nenhum. "Com certeza voltara ao Olimpo a fim de combinar novas coisas com Palas" — sugeriu Pedrinho.

— Para mim ele foi mas é ver a cara de Juno, disse a ex-boneca. A bisc... a grande deusa deve estar com o nariz bem comprido. Chegou até a descer à terra e disfarçar-se em amazona — e que amazona — e que ganhou? Zero. Coitada!...

Aquele "Coitada!" de Emília era uma desajeitadíssima e irônica adulação a Juno.

Hércules levantou-se para ir a Micenas dar conta ao rei do novo Trabalho realizado. Emília gritou: — Não vá ainda, Lelé. Deixe-me brincar um pouquinho com o zóster de Hipólita. — Não havia capricho do diabrete a que o herói resistisse — e lá lhe deu ele o cinturão para brincar...

Emília ajeitou-o na cinta e, pegando numa vara, berrou:

— Companheiras! Vinde rodear a vossa rainha ameaçada de rapto por este bando de heróis. Ataquemo-los e destruamo-los. Eles querem roubar este presente que meu pai Ares me deu... e avançou para Hércules com a varinha em riste como se fosse lança.

Hércules ria-se, ria-se...

Os bois de Gerião

Hércules só voltou da cidade ao cair da noite.

— Euristeu alegrou-se muito com o cinturão de Hipólita. Parece que desta vez não se aborreceu com a minha vitória, tanto era o empenho de sua filha Admeta em possuir aquele zóster.

— E que outro Trabalho ele marcou?

— Quer que eu traga para Micenas os bois selvagens do mais horrendo gigante que há nesta Hélade — um de várias cabeças... Gerião.

— Já sei — disse Pedrinho. — Ele quer esses bois para ter o gosto de soltá-los. Euristeu é o maior soltador de monstros. Só preciosidades como o cinturão de Hipólita é que ele não solta. Espertinho... E onde fica esse tal Gerião?

— Muito longe daqui, na Ilha de Eritia, no Mar Jônio. Mar, mar... e Hércules fez cara de vítima — estava se lembrando dos enjôos...

Pedrinho correu a contar aos outros o que tinha ouvido.

— Mais boi? — exclamou Emília. Como há bois nesta Grécia!...

O Visconde aproximou-se, toque, toque, toque, na sua muletinha. Veio sugerir que o verdadeiro era soltar Melampo.

— Não nos adianta nada —explicou. Passa o tempo a judiar de Lúcio e não tem juízo nenhum. Um perfeito louquinho. Aquela sua idéia de meter-se na luta entre os heróis e as amazonas é de menino que já teve meningite. Bem capaz de se meter em outras funduras e babau...

Pedrinho deu razão ao Visconde, mas Emília protestou.

— Não! Nada disso. Se o soltarmos, vai correndo a Micenas e conta a história das minhas viradas e pronto — estamos no maior dos embrulhos. Ele que fique até o fim. Depois da última aventura nós o soltaremos a ele e ao Asno de Ouro.

O centaurinho vinha no galope com o jantar aos ombros. Todos suspiraram. Emília disse:

— Ando com medo que de repente viremos rebanho. Já estou tão enjoada que só de pensar em carneiro já sinto um embrulho no estômago. Hoje só quero frutas — e mandou que Melampo montasse no asno e fosse em busca de frutas — figos, maçãs, morangos, o que houvesse. Melampo foi, mas como não encontrasse fruta nenhuma pelas redondezas teve a idéia absurdíssima de ir procurá-las na feira de Micenas. E lá... ah!... lá foi pilhado pelo seu pai e agarrado, de modo que Lúcio voltou num trote muito sem jeito e de lombo abanando.

— Que é de Melampo? — indagou Pedrinho, já com um pressentimento nas tripas.

— Foi ao mercado em busca de frutas e lá o pai o agarrou...

Era a pior coisa que podia acontecer. Pedrinho ficou pálido como cera.

— Estamos perdidos!... Daqui a pouco vem cá o exército inteiro do "antipatia" nos assaltar que nem uma Alemanha e como é? Tenho de prevenir Hércules.

O herói também não gostou daquilo. Ficou no ar, sem saber que fazer. Chamou Emília.

— E agora, figurinha?

— Agora — disse ela — o remédio é um só: partimos já, já, já — e quem vai montado no Lúcio sou eu.

Depois pediu ao herói que recuasse a pedra que escondia os seus "bilongues".Estava com medo de deixar lá a canastrinha.

Hércules afastou a pedra e Emília tirou do fundo a canastra, Abriu-a e guardou lá dentro mais uma lembrança: a mensagem a Hipólita. Ao ser aprisionada a bordo, a rainha das amazonas deixara cair do cinturão o pergaminho — e Emília bifou-o.

Não era fácil levar aquela canastra em cima do lombo de Lúcio. Pedrinho veio estudar o caso.

— Só com um contrapeso — disse ele. — As cargas dos asnos tem que ser duas, uma de cada lado.

— Pois arranje um contrapeso.

Pedrinho pensou, pensou. Teve uma idéia:

— O Visconde!... Com as muletas o Visconde mal pode agüentar-se em cima do centaurinho. Faço um picuá de cipó e ponho-o como contrapeso da canastra.

E assim foi. Meioameio voou à floresta em busca de cipós. Pedrinho teceu com muita habilidade um picuá onde o sabuguinho podia ir comodamente reclinado.

— Venha, Lúcio!

O asno aproximou-se, suspirando. Pedrinho dispôs sobre o seu lombo o picuá, já com o Visconde contrapesando a canastra.

— Ótimo!... Até galopar com isso em cima Lúcio pode.

Em seguida montou Emília e pulou para o lombo de Meioameio.

— Pronto, Hércules! Podemos partir.

O herói tomou a frente, em marcha rumo à Ilha de Eritia. Nesse momento soou um tropel de cavalos à distância. Eram os homens de Euristeu. Tudo exatinho como a ex-boneca previra. Melampo contara ao pai a história das viradas da Emília e a notícia breve se espalhou pela cidade inteira. Os pais e parentes dos dezenove meninos virados em objetos foram ao palácio dar queixa a Euristeu.

— Majestade, a feiticeirinha que anda em companhia de Hércules usou dum talismã mágico e virou nossos filhos em objetos. Melampo, o único que se salvou, acaba de reaparecer e nos contou tudo.

Euristeu olhou para Eumolpo. Depois avermelhou de cólera e deu um grande berro:

— Já! Ordeno aos meus guardas reais que partam sem demora a cavalo em perseguição de Hércules e do seu bando. Quero-os aqui, vivos ou mortos!...

Minutos depois cem cavaleiros partiam a toda para o camping dos picapaus, com Melampo à frente levado como guia. Mas nada mais encontraram a não ser a fogueira dos assados ainda fumegantes e os destroços comuns a todos os acampamentos.

— Maldição! — exclamou o comandante. Fugiram...

Hércules com o seu bandinho já estavam a uma légua dali.

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