'O Javali de Erimanto' - Os 12 Trabalhos de Hércules

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Os 12 Trabalhos de Hércules 

O Javali de Erimanto 

Monteiro Lobato 

1. O Javali de Erimanto

Hércules e seus companheiros lá iam de rumo à Arcádia. Nessa parte da Grécia ficava o Monte Erimanto, que vinha sendo assolado por um gigantesco javali. Cada vez que o monstro descia para os vales era para fazer estragos horrorosos. Daí o pavor dos seus moradores e o pedido de socorro que endereçaram ao Rei Euristeu: "Majestade, haja por bem dar jeito nesta fera, pois do contrário estamos perdidos." E com esperança de que Hércules perdesse na luta, Euristeu mandou-o combater o feroz javali.

A Arcádia era a região mais atrasada de toda a Grécia, por ser muito montanhosa e por isso mesmo pouco povoada. A indústria não ia além da pastoril. Sempre que um poeta grego fazia um poema bucólico, era na Arcádia que punha a cena. Se outro precisava dum pastor, ia buscá-lo na Arcádia, E com o passar do tempo a Arcádia ficou para o resto da Grécia como o símbolo do bucolismo, da vida simples e rústica. Até hoje a palavra Arcádia lembra pastores tocando flauta para os carneiros ouvirem e pastoras de cestinhas no braço atrás das margaridas do campo.

Quem deu essas noções sobre a Arcádia foi o Visconde, que andava passando bem do desarranjo cerebral. Pedrinho não sabia se ele sarara de todo ou se estava atravessando um "período de lucidez."

- E as pastoras também usavam grandes chapéus de palha de aba larga - lembrou Emília. - Vi pastoras assim num leque antigo de Dona Benta.

O Visconde contou que os poetas são uns mágicos: tomam as sujas pastoras da realidade e as transformam em mimos de criaturas, com açafates de flores ao braço, pezinhos bem calçados, saia rodada e o clássico chapéu de palha preso ao queixo por uma barbela de fita. Fazem delas uma coisa de leque e de poema, mas as pastoras de verdade são muito diferentes, coitadas: são mulheres do povo, grosseiras por falta de educação e trato - e nem sombra imaginam como aparecem faceiríssimas nos tais leques e poemas.

Nesse ponto da conversa Hércules, que seguia na frente parou para falar com um viandante. Queria saber onde ficava a residência do centauro Folo, seu amigo.

- Folo? - repetiu o viandante. Mora por aqui, sim, coisa de uma légua neste rumo. Mas está aí uma coisa que eu não sabia: que Hércules tivesse um amigo centauro...

- Tenho dois, esse Folo e o de nome Quiron, que mora na Maléia - respondeu o herói. - Confesso o meu antigo ódio aos centauros, do que aliás me arrependo, pois vi que com um pouco de educação eles se tornam excelentes criaturas, como o nosso amigo Meioameio.

O passante não sabia quem era. Hércules explicou:

- Um centaurinho novo que capturamos e amansamos. Lá vem ele... e apontou para Meioameio que vinha na volada com os carneiros do almoço aos ombros.

O viandante ficou apavorado, pois era a primeira vez que via um desses tremendos seres. Folo morava por lá, mas o nosso homem nem sequer passava por perto de seus domínios.

Enquanto o centaurinho preparava o almoço, Hércules deixou-se ficar sentado ali, a conversar com o passante, isso depois de ter feito a apresentação de Pedrinho, do Visconde e da Emília. Grande admiração e espanto do homem, sobretudo diante do Visconde, que ele achou parecidíssimo com uma aranha.

- E esse canudo com abas que ele tem na cabeça?

- Chama-se "cartola" - respondeu Emília. - É o chapéu usado no mundo moderno pelas pessoas importantes - presidentes de República, ministros, doutores, sábios. Estezinho é sábio.

Depois de informar-se de muita coisa do "tal mundo moderno", o homem pediu a Hércules que l he contasse por miúdo a sua atuação no célebre caso do choque entre os Centauros e os Lápitas. Hércules, porém, tinha vergonha de contar coisas da Grécia perto do seu escudeiro, o qual sabia de todos os assuntos muito mais que ele - e deu a palavra ao Visconde.

- Escudeiro, conte a este homem o que sabe dos centauros.

E o sabuguinho contou.

- Antes de mais nada - disse ele - temos de ver como os centauros surgiram nesta Grécia. A coisa começou no Olimpo, certa vez em que os deuses estavam se banqueteando com a ambrosia e o néctar. Entre os comensais figurava um criminoso asilado no Olimpo: Íxion, o Rei dos Lápitas, o qual era filho de Zeus e uma ninfa.

- Asilado por quê? - indagou Pedrinho.

- Porque havia matado o sogro, e Zeus, com dó do filho assassino, asilou-o na morada dos deuses. Mas êsse Íxion era do chifre furado. Em vez de ficar quietinho, sabem o que fez? Pôs-se a namorar Hera ou Juno, a esposa de Zeus.

- Que desaforo! - exclamou Emília. - E Zeus?

- Zeus estava de muito bom humor quando percebeu a coisa, e em vez de zangar-se com o patife, teve uma idéia: mandou que uma nuvem tomasse a forma de Juno e correspondesse ao namoro de Íxion.

- Que coisa engraçada! - exclamou Pedrinho. - Estou vendo que o Olimpo dos gregos é um verdadeiro teatro.

- Se é! E por isso não tem conta o número de dramas, comédias e tragédias da literatura clássica em que o enredo é uma passagem qualquer lá no Olimpo.

Nunca houve no mundo maior manancial de casos prodigiosos, e isso porque o Olimpo era filho da Imaginação grega, a mais rica de todas as imaginações da antiguidade. Esse caso de Íxion até hoje é recordado. Quando alguém toma uma coisa por outra, o uso é dizer-se: "Ele tomou a nuvem por Juno."

- E que aconteceu?

- Aconteceu que Íxion namorou a nuvem e depois andou se gabando. Zeus, então, encheu-se de cólera e arremessou-o ao Tártaro, que era o inferno dos gregos, onde Mercúrio, por ordem de Zeus, o amarrou a uma roda que iria virar eternamente - uma roda a que também estavam amarradas inúmeras serpentes...

- Mas que tem tudo isso com os centauros?

- Tem que os centauros começaram assim. Nasceram dos amores de Íxion com essa nuvem e um dia declararam guerra ao filho de Íxión que o sucedera no trono, reclamando sua parte na herança. Esse filho de Íxion teve medo da luta e fez com eles um acordo; depois convidou-os para a festa de seu casamento com Hipodâmia. A grande encrenca nasceu daí. Os centauros eram também filhos de Íxion, desses que puxam ao pai. No meio da festa ficaram com as cabeças muito esquentadas e puseram-se a namorar a noiva. Depois quiseram raptá-la, e também as outras moças presentes na festa.

- Que escândalo!

- E que desastre! - exclamou o Visconde. - Imaginem que entre os convivas estavam três tremendos heróis: aqui o meu amo Hércules, Teseu e Nestor.

Esses heróis se atracaram com os insolentes centauros, mataram a muitos e expulsaram da Tessália os restantes. Foi então que vieram refugiar-se aqui, nestas montanhas da Arcádia.

Hércules estava de boca aberta. Como é que aquela aranhinha pernuda sabia tanta coisa certa? Talvez fosse sortilégio "daquilo" que ele não tirava da cabeça e no mundo moderno se chamava "cartola." Daí a grande veneração e respeito do herói pela cartolinha do Visconde.

Depois falaram em Folo, o centauro amigo que o herói desejava visitar, e Hércules voltou-se para Meioameio.

- Escute. Vamos daqui à morada de Folo e é possível que encontremos por lá outros centauros. Tenho receio de que você sinta a voz do sangue e queira nos abandonar...

O centaurinho deu uma gargalhada.

- Ficar por aqui entre estes brutos? Nunca!... Depois do que ouvi de Pedrinho e Emília, só um lugar no mundo me serve: o sítio de Dona Benta.

- Então posso ficar sossegado? Sem receio de que você nos fuja e fique aqui por estas montanhas com os seus iguais?

- Claro que pode. Fiz tal amizade com Pedrinho que nada no mundo nos separara.

Hércules sossegou.

2. Luta com os Centauros

À tarde chegaram à morada de Folo, o qual, com grandes demonstrações de contentamento, veio à porta receber o amigo. Eram na verdade velhos camaradas. Folo admirou-se muito de o ver em companhia de um centaurinho, e mais ainda ao saber do modo como Hércules o pegara. Depois de muita prosa, Folo abriu um barril de vinho para festejar o aparecimento do herói. Era um vinho excelente e de cheiro muito forte - cheiro que o vento levou até à floresta onde estavam os outros centauros.

- Hum!... - fez um deles, farejando o ar. - Aposto que Folo abriu aquele barril de vinho que recebeu de presente. Isso quer dizer que está de visita. Quem será?

E, conversa vai conversa vem, surgiu entre eles a idéia de um ataque à morada de Folo para "raptar" o barril de vinho. Armaram-se de machados, paus e grandes pedras e partiram em desapoderado galope. Quem os viu foi Emília, com os seus olhínhos de telescópio.

- Estou vendo! - gritou ela do alto duma grande penedia. - Estou vendo um bando de centauros! Talvez sejam os parentes de Meioameio que o querem tomar de nós. Avise ao Lelé, Visconde! - e enquanto o Visconde corria a avisar o herói, Emília, depezinha na ponta dos pés, olhava, olhava.

- O bando vem vindo no galope! Uns trazem machados, outros trazem paus e pedras. Vêm de nariz para o ar, farejando o barril de vinho que Folo abriu...

Hércules estava de prosa com o seu amigo centauro, sem nada desconfiar do furacão em marcha. O Visconde aproximou-se com o recado.

- Senhor Hércules, a Emília manda dizer que os centauros vêm vindo no galope.

Hércules deu um pulo, já em guarda e de mão no carcás. E enquanto Folo perguntava o que era, ele sacava as flechas sem ponta e jogava-as a um canto. Só queria as bem pontudas.

- Os centauros vêm vindo! - repetiu Hércules. - Vamos ter luta feroz.

- É que cheiraram esta vinhaça - disse Folo. - Eles são a própria intemperança em pessoa.

Nesse momento chegou até eles o tropel dos centauros, cada vez mais próximos. Hércules passou a mão na clava e esperou. As flechas ele as usava para os ataques à distância.

Os tremendos monstros chegaram e pararam de brusco diante da morada de Folo, como param cavalos no galope quando o cavaleiro colhe dum tranco as rédeas. O mais alentado de todos avançou e disse:

- Sabemos do barril de vinho e queremos beber. O cheiro nos foi levado pelo nosso amigo vento.

Folo explicou que abrira aquele barril para obsequiar o seu velho amigo Héracles, que tinha vindo visitá-lo.

O nome de Héracles provocava ódio e pavor entre os centauros, de modo que ao ouvi-lo o bando caiu em guarda. E como já tivessem bebido naquele dia e estivessem com as cabeças quentes, a arrogância os empolgou. O chefe disse:

- Ótimo que o tenhamos encontrado! Entre nós e esse herói há velhas contas a ajustar. Por sua causa estamos reduzidos à nossa atual condição aqui nestas agrestes paragens. Ele que salte cá fora, se não é o poltrão dos poltrões.

Mal disse isso e, como uma bomba voadora que cai do céu, Hércules explodiu no meio deles. Sua clava, pesada como uma montanha, alcançou o chefe dos centauros pelo ombro e "apeou-o" isto é, fê-lo vir ao chão estrebuchando. Vendo aquilo, os outros atiraram-se contra o herói com as armas que traziam, mas foi o mesmo que agredir o rochedo de Gibraltar. O herói unia a força à agilidade; com esta desviava-se dos golpes e com a força golpeava uma vez só. Cada clavada era um centauro no chão. Caíram assim quatro, e os dois restantes fugiram. Hércules ainda teve tempo de espetar um deles com uma seta.

Folo ficou sentidíssimo daquilo, porque era parente e amigo dos cinco centauros mortos. Que loucos! Que imprudentes! Virem atacar a quem? A Héracles, o invencível herói que já os havia destroçado na festa dos Lápitas. Loucos, loucos!... Tinha agora de enterrá-los - e Folo reuniu todos os corpos num certo ponto para o funeral. Depois foi em busca do fugitivo alcançado à distância pela seta de Héracles. Tomou o cadáver nos braços. A seta estava cravada em suas costas. Folo arrancou-a, mas ao fazê-lo feriu-se na mão. Foi a conta. Dali a pouco estorcia-se em dores e morria uma morte horrorosa. O veneno que Hércules usava nas setas era infalível.

O triste fim de seu amigo centauro encheu de dor o coração do herói. Hércules chorou como uma criança, apesar das palavras de Pedrinho:

- Não adianta, Hércules! O que adianta é fazermos os funerais de Folo e enterrarmos o cadáver dos outros. Emília censurou-o com a maior severidade:

- Esse seu gênio exaltado não dá certo, Lelé. Por qualquer coisinha fica fora de si, enxerga tudo vermelho e lá vem a hecatombe. Matar cinco lindos centauros, que judiação! Bastava dar-lhes uma boa sova. De sova a gente sara, mas quem morre desaparece para sempre. O bom sistema é o dos americanos nas fitas de cowboys. Quando chega a hora, o pega é tremendo, é dos que fazem a gente se torcer na cadeira. O "bom", depois de ser quase vencido, acaba vencendo e pondo o "mau" nocaute. Mas ninguém morre! Era o que você devia fazer aqui: pôr nocaute estes centauros, mas só. Que direito tem uma criatura de tirar a vida de outra - não é mesmo, Visconde?

- Sim - respondeu o escudeiro. Entre os mandamentos da Lei há um que diz: "Não matarás."

- Está vendo Lelé? Até o seu escudeirinho sabe que isso de matar é só quando se trata de hidras de Lerna ou de leões da Lua. Matar cinco centauros é contra todas as leis, porque -há poucos centauros no mundo, e no dia em que todos desaparecerem o mundo ficará vários pontos mais sem graça.

O herói ficou envergonhadíssimo de sua ação, e concordou que era um bruto, indigno de ter um escudeiro como o Visconde de Sabugosa.

Depois do sermão moral da Emília e duma prédica do sabuguinho, Héracles disse:

- Muito bem. O que está feito, está feito. Vamos enterrar com toda a solenidade o meu querido Folo e depois prosseguiremos em nossa penetração rumo ao Erimanto.

O enterro de Folo foi um ato comovente. Pedrinho fez um discurso ao pé da cova, tão bonito que Hércules esvaziou toda a sua reserva de lágrimas.

Emília aparou uma dessas lágrimas num vidrinho de homeopatia lá da sua canastra, e escreveu no rótulo: "Lágrima hercúlea, recolhida por mim mesma no dia do enterro de Folo." A ciganinha não perdia ensejo de tirar partido de todos os acontecimentos.

Mas esse encontro de Hércules com os seis centauros não foi o último. Tempos depois o herói esqueceu as censuras da Emília e o sermão do Visconde, e teve outro encontro com o resto dos centauros, aos quais atacou a flechaços e fez fugir para a Maléia. Lá morava Quiron, o mais sábio de todos os centauros e também amigo de Hércules. A cólera de Hércules, porém, não respeitou coisa nenhuma: foi para a Maléia e mesmo nos domínios de Quiron continuou a perseguição dos centauros fugidos. E como aconteceu que uma das suas setas acertasse por acaso em Quiron, mais esse seu amigo veio a morrer por causa da cólera do herói.

O desespero de Hércules nessa ocasião não teve limites, e para vingar a morte de Quiron voltou-se contra o resto dos centauros com fúria maior ainda. Muito poucos se salvaram: só os que conseguiram alcançar um promontório onde o deus das águas, Netuno, os transportou para a Ilha das Sereias. E foi nessa ilha que se extinguiu a curiosa raça dos centauros, filhos do Rei Íxion e da nuvem E que ele tomou por Juno.

Bom, mas isso se deu tempos depois, não foi tragédia assistida pelos pica-pauzinhos. A parte a que eles assistiram foi apenas a luta entre Hércules e os seis centauros beberrões, atraidos pelo barril de Folo. Pedrinho não quis que Meioameio visse aquilo, para que não fosse testemunha do massacre de tantos parentes.

E durante todo o tempo tratou de mantê-lo afastado do antro de Folo, ora a fazer isto, ora a fazer aquilo, sempre coisas distantes. Uma delas foi informar-se lá pelos arredores do Monte Erimanto se o monstruoso javali ainda andava muito feroz.

- Cada vez mais calamitoso - veio dizer Meioameio depois de uma galopada até lá. - Dizem os moradores das vizinhanças que ainda ontem desceu o monte com a velocidade duma avalancha de pedras que rolam pela encosta abaixo. Por onde passou ficou uma estrada aberta no arvoredo. Ele galopava às cegas, preferindo derrubar as árvores a desviar-se...

- Quer dizer que é um tanque de carne - observou o menino, fazendo que Meioameio perguntasse o que era tanque.

- Tanque é um javali de aço que lá nos nossos tempos modernos os homens usam na guerra. Também não se desviam de árvores: derrubam-nas e passam-lhes por cima.

Meioameio ficou a ruminar aquilo.

"Javali de aço! Como era lá possível uma coisa assim?"

3. Rumo ao Erimanto

No dia seguinte, bem descansado da luta da véspera e já com a cabeça fresca, porque os seus remorsos só duravam algumas horas, lá partiu Hércules de novo.

Os três pica-pauzinhos, montados em Meioameio, seguiam ao lado do herói, entretidos no comentário dos acontecimentos da véspera.

- Pobre Folo! - dizia a ex-boneca. Quando havia de pensar que por causa da tal fera do Erimanto ia ter uma morte horrível e tão fora de tempo? Mas será eternamente lembrado lá no meu século 20...

Hércules não entendeu.

- Porquê?

- Porque levo em minha canastra um souvenir dele: a ponta de sua cauda. Hércules riu-se.

- Pelo que vejo, Emília, o seu museuzinho é a maior maravilha moderna...

- E é mesmo Lelé. Há lá coisas que nenhum museu no mundo tem nem terá, como, por exemplo, um vidrinho de néctar do Olimpo, um trinco de porta do quarto de Dona Aspásia...

Pedrinho arregalou os olhos.

- Até isso trouxe de lá, Emília? E não nos contou nada...

- Não contei para que não se implicassem comigo, mas tenho lá esse trinco, e o pé de frango de seis dedos e tantas outras coisas que só indo lá e vendo.

Pedrinho contou a Hércules toda a história da Emília nos começos, no tempo em que era boneca de pano e muda, e falou muito de sua célebre torneirinha de "asneiras."

- Era uma danada naquele tempo. Assim que abria a boca, lá vinha uma asneira - e bem engraçada às vezes. Lembro-me de uma. Nós tínhamos ido ao País das Fábulas, onde encontramos Monsieur de La Fontaine caçando fábulas para o livro que escreveu. Era um homem já bastante antigo, do tempo em que se usavam calções de seda, sapatos de fivelas e cabeleiras de cachos. Emília achou muito sem jeito aquele homem de cabelos compridos, porque isso de cabelos compridos é coisa de mulher. E indo então à sua célebre canastrinha tirou de lá uma "perna de tesoura", que deu de presente ao fabulista. La Fontaine olhou bem para aquilo, e riu-se. "Para que quero isto bonequinha?" E ela muito lambeta: "Para cortar o seu cabelo." La Fontaine admirou-se. "Como cortar o meu cabelo se é uma tesoura de uma perna só?" E a Emília soltou a asneirinha: "Pois corte de um lado só..." Eram assim as asneirinhas dela, coisas absurdas, sem nem cabeça. Hoje está mudada e mais sábia que um dicionário, mas mesmo assim de repente dá uma abridinha na torneira...

Emília não prestava atenção à conversa, toda absorvida no canto de um rouxinol. Quando a avezinha parou, bateu palmas.

- Viva! Viva! Derrota longe os sabiás lá do sítio. Parece que vai inventando as músicas...

O Visconde, que em entendidíssimo em música de passarinhos, confirmou o "parece" da Emília.

- Sim - disse ele. - O rouxinol não repete música, não é como os outros passarinhos que aprendem um canto e passam a vida a repeti-lo.

- Mas o canário não é assim. Aquele belga de Pedrinho, lá no sítio, canta inventadamente - lembrou a ex-boneca.

- Parece - disse o Visconde. - O que ele faz é cantar uma música muito comprida, mas depois que chega ao fim volta ao começo. E assim todos os outros passarinhos lá da roça, o sabiá, o pintassilgo, o "soldado"... Acho que o rouxinol é o único que não repete música, e por isto tem tanta fama. É a maravilha do mundo passarinheiro. Uma caixinha de música viva e encantada. Assim que o dia morre e vem se aproximando a noite, ele começa a cantar nos sombrios da mata, e canta cada vez mais triste até que a noite cai. Não há quem ouça a sua musica e não fique melancólico.

O rouxinol que provocara aquelas considerações começou a cantar novamente. O Visconde ergueu o dedo, em gesto de "parem e escutem." Todos pararam e escutaram.

- Sim, não podia haver música mais saudosa, nem mais bem executada. Não havia um errinho, não havia a menor desafinação. O prodigioso cantor de penas ia improvisando, inventando a sua música de despedida da luz do sol. Pela primeira vez na vida, Hércules deu atenção ao rouxinol - e aquela música mexeu com ele lá por dentro. Era a "educação" - e "sua idéia sobre a educação" lhe voltou à cabeça, fazendo-o pensar este pensamento: "Estes pica-pauzinhos estão me educando...

Quando o rouxinol emudeceu, todos ficaram por alguns minutos sem dizer nada, ainda magnetizados pelo enlevo. Depois o Visconde falou:

- Tudo aqui neste povo tem uma explicação poética. Sabem como os gregos explicam o aparecimento do rouxinol e da andorinha?

Ninguém sabia. O sábio ali era só o Visconde, o qual tossiu o pigarro e contou a história de Filomela e Progne.

- Estas duas moças, filhas de Pândion, rei de Atenas, eram muito amigas, dessas que não se largam. Certo dia Progne casou-se com Tereu, rei da Trácia, de quem teve um filho de nome Ítis. Mas nem esse menino a consolava da ausência de Filomela. Que saudades! Era das que quanto mais o tempo passa, mais apertam. Um dia Progne não agüentou mais e disse ao marido: "Vá a Atenas e traga minha irmã, pois do contrário morrerei de saudades." Tereu foi, mas era um mau sujeito esse tipo. Ao dar com Filomela, uma beleza de criatura, apaixonou-se violentamente; e ao trazê-la, tentou no meio do caminho obrigá-la a fugir com ele. Filomela, cheia de indignação, repeliu aquela proposta absurda - e sabem o que aconteceu?

- Tereu suicidou-se! - disse Emília.

- Matou-a! - disse Pedrinho.

- Raptou-a à força! - disse Hércules.

- Suspirou! - disse Meioameio.

O Visconde riu-se.

- Todos erraram. Tereu nem se suicidou, nem a matou, nem a raptou, nem suspirou. Como Filomela não parasse de chorar e gritar, ele cortou-lhe a língua, e depois trancou-a num velho castelo abandonado que havia por ali, deixando-a sob a guarda de gente de sua confiança. E continuou a viagem sozinho. Chegando em casa fez um ar muito triste e contou a Progne que a "coitadinha da Filomela havia morrido."

- Imaginem o desespero de Progne! - disse Emília. - Eu, quando voltar para o sítio, nem conto essa história para tia Nastácia...

O Visconde continuou:

- A coitadinha da Filomela ficou sem a língua mas não ficou sem cérebro, de modo que não fazia outra coisa senão pensar num meio de mandar aviso à sua irmã, desmascarando aquele monstro. Mas avisá-la como? Pensa que pensa, afinal descobriu um jeito: fazer um comprido bordado com uma série de cenas que fossem representando toda a sua história. Se Progne visse esse bordado, compreenderia tudo e viria salvá-la. E assim foi. Depois de terminar o lindo bordado, jogou-o por uma das janelinhas da torre. Jogou-o ao vento - e o bordado foi cair bem no meio da estrada. Não tardou que uns viajantes a caminho da Trácia o vissem e pegassem. "Que lindo! Que maravilha!..." exclamaram. "Uma coisa bela assim merece ser levada de presente à rainha", e quando chegaram à Trácia foram ao palácio oferecer à rainha a maravilha. Assim que Progne viu o bordado, seu coração palpitou: reconheceu os pontos que em menina ela mesma havia ensinado à sua irmã Filomela; e atentando na série de cenas do bordado, compreendeu tudo: Filomela não estava morta, como havia dito o infame Tereu, e sim presa no castelo.

- Que bom! - exclamou Emília batendo palmas. - Aposto que Progne vai salvá-la.

- Isso poderá fazer - disse Pedrinho. - Mas a língua? Quem conserta uma língua cortada? Continue, Visconde.

- Então - continuou o Visconde - durante uma das grandes festas a Dionisos, que o Rei Tereu dava todos os anos, Progne aproveitou-se da barafunda para disfarçar-se e correr ao castelo velho, onde subornou os guardas, entrou e raptou a irmã. Cá fora, disfarçou-a também e toca para o palácio em festa! Entraram sem que ninguém as visse. O rei estava se banqueteando num desses banquetes dos reis antigos que varam horas e horas e vão até à madrugada. E Progne, então... Que imaginam que essa rainha fez?

- Consertou a língua de Filomela disse Hércules.

- Deu-lhe uma faca para que matasse o rei - disse Pedrinho.

- Desmascarou o rei seu marido - disse Meioameio.

- Nada, nada! - declarou o Visconde. - Progne estava tomada de tal ódio pelo marido que imaginou a mais terrível das vinganças: ajudada pela irmã, matou o menino Ítis, filho de Tereu, e cortou-lhe a cabeça...

- Que monstra! - berrou Emília. Que culpa tinha o coitadinho?

- Nenhuma, está claro. Mas é sabido que o ódio é assim: não respeita coisa nenhuma. O ódio de Progne contra o marido estendeu-se ao menino, que era um produto desse marido, uma espécie de prolongamento dele. Muito bem. Tereu estava no banquete, já com a cabeça tonta de tanto vinho, de modo que quando viu entrar Filomela com uma coisa em punho julgou que fosse visão. Esfregou os olhos. Olhou de novo. Sim, era ela mesma... A cunhada adiantou-se e jogou para cima da mesa a coisa que trazia na mão. Tereu arregalou os olhos: era a cabeça de seu filhinho Ítis!

Hércules estava comovidíssimo. Quis dizer qualquer coisa mas engasgou.

- E que fez o Rei Tereu? - perguntou Emília.

- Ficou uns instantes apatetado. Depois sacou da espada e investiu contra seu próprio irmão Drias, também ali presente, certo de que esse irmão era cúmplice em tudo aquilo. Atravessou o pobre Drias com a espada e atirou-se em perseguição das duas irmãs.

- E matou-as também?

- Não teve tempo. Os deuses do Olimpo, achando que aquela família precisava de conserto, transformaram Filomela em rouxinol, Progne em andorinha, Ítis em corruíra e Tereu em poupa.

- Isso é que é saber fazer as coisas!

Filomela que por ter perdido a língua não podia falar, virou a linguinha de ouro de toda a passarinhada! Mas se eu fosse Zeus virava Tereu em urubu. Era o que ele merecia.

4. A fênix

Do rouxinol a conversa passou para outras aves e por fim recaiu sobre a célebre fênix.

- Oh, a fênix! - exclamou Hércules.

- Já ouvi falar. Dizem que vive séculos.

Tem o tamanho da águia e na cabeça um topete dum vermelho vivíssimo. As penas do corpo, também vermelhas, com exceção das do pescoço que são douradas.

- E as da cauda?

- Essas são brancas, entremeadas de algumas cor de sangue.

- Que linda deve ser! - exclamou Pedrinho.

Já era noite quase fechada. Hércules ajeitou-se por ali mesmo para dormir, e os pica-pauzinhos procuraram o abrigo duma gruta de pedra. Meioameio deitou-se na entrada da gruta. Era ele o guarda-noturno dos seus amigos do século 20.

Os sonhos daquela noite foram sonhos "ornitológicos", como disse no dia seguinte o Visconde, e foi explicando: "Ornitologia é a ciência que estuda as aves. Logo, quem sonha com passarinho tem um sonho ornitológico..."

Ao retornarem à viagem para os montes do Erimanto, a conversa voltou ao mesmo assunto da noite anterior: aves.

- Conte mais alguma coisa da fênix, Lelé! - pediu Emília - e o herói contou.

- O que me disseram foi o que narrei ontem e mais isto: a fenix tem olhos brilhantes como estrelas...

- Que lindo!...

- E quando sente que a hora da morte está chegando, começa a juntar no mato ramos de plantas cheirosas, resinas e gravetos; e com aquilo tudo faz uma espécie de ninho dentro do qual se acomoda. Isso antes do carro de Apolo aparecer no horizonte. Quando aparece e seus raios começam a esquentar, aquele ninho resinoso pega fogo e vira uma grande fogueira na qual a fênix é completamente consumida, só ficando um montinho de cinzas. E aí então é que acontece o prodígio: no meio daquela cinza aparece um ovo, do qual logo sai u ma nova fênix. Essa fênix junta toda aquela cinza e vai depositá-la no altar do Sol, na cidade de Heliópolis.

- Que lindo! - exclamou Emília. A fênix renasce de suas próprias cinzas! - E não há nenhuma fênix aqui por esta Grécia, Lelé?

- Às vezes aparece alguma, vinda de outras terras. Mas não é ave grega.

Minutos depois dessa conversa Emília gritou: "Alto!..." e todos pararam. Ela trepou ao ombro de Meioameio e ali de pé, com a mão em viseira, pôs-se a sondar a distância. E ia falando:

- Estou vendo muito longe uma ave a amontoar um ninho-fogueira... Belíssima, sim... Toda cor de pitanga, com topete muito vivo e rabo branco...

- Será uma fênix? - exclamou Pedrinho, já assanhado - e Emília continuou:

- Não sei, mas está fazendo direitinho como Lelé disse. Traz para o ninho-fogueira plantas odoríferas...

O Visconde suspirou. Estava achando aquilo um pouco demais. Que daquela distância Emília visse a ave trazer plantas para o ninho, ainda vá lá. Mas declarar que as plantas eram odoríferas? Seria possível que além dos olhinhos de telescópio ela possuísse tele-olfato?

- Está pronto o ninho-fogueira! - continuou Emília. - Agora a ave ajeitou-se no meio daqueles "combustíveis" e está rezando de mãos postas, à espera de que um raio de sol venha incendiá-la...

Embora Hércules acreditasse cegamente no que a ex-boneca dizia, também começou a achar aquilo "demais" - e deu ordem a Meioameio para correr até lá e ver se era assim mesmo.

O centaurinho partiu no galope, com o Visconde no lombo, porque os verdadeiros sábios nunca perdem ensejo de verificar o que podem. E enquanto Meioameio galopava na direção da fênix, Emília continuava a ver "coisas", mas já preparando uma escapatória.

- Uma vez no Deserto do Saara disse a marotinha - eu vi uma coisa linda: um chafariz lá muito longe. Não podia haver encontro mais lindo no Saara do que o de um chafariz, para gente que estava morrendo de sede, como nós...

Pedrinho pensou em desmascarar a exboneca, dizendo que tudo aquilo era invenção. Emília jamais havia estado em Saara nenhum; mas de dó dela limitou-se a dizer:

- Esse chafariz devia ser uma das chamadas "miragens" tão freqüentes nos desertos. Os viajantes sedentos vêem oásis e coisas onde não há oásis nem coisa nenhuma.

Hércules ficou na mesma, porque na terra grega não havia desertos, nem oásis, nem miragens. Emília continuou.

- E bem pode ser que aquela fênix seja uma miragem... Não! Não é!... Esperem, esperem um pouco... Está mas é pegando fogo! Pronto! O ninho-fogueira pegou fogo!... A fênix está se consumindo nas chamas...

O centaurinho acabava de chegar ao ponto indicado e por mais que olhasse não percebeu fênix nenhuma. O Visconde sorriu consigo, murmurando: "Aquela Emília..." E como nada achassem, voltaram.

- Não encontramos ave nenhuma - disse Meioameio ao chegar. - Eu e o Visconde demos uma volta por lá e nem sinal.

Hércules, já meio desconfiado, olhou para Emília, a qual botou as mãos na cintura e deu uma gargalhada gostosa.

- Nunca vi dois sarambés maiores! Quando chegaram lá, a fênix já havia sido devorada pelo fogo. Em vez de procurarem uma "ave", deviam ter procurado uma "cinzinha", mas aposto que nem pensaram nisso.

Meioameio olhou muito desapontado para o Visconde. Realmente, eles não tinham tido a ideia de procurar cinzinha nenhuma...

- Pois, meus grandes bobos, o que se deu foi isto: enquanto vocês galopavam para lá, a fênix desapareceu consumida pelas chamas e ficou reduzida a um punhadinho de cinzas.

Querendo tirar a prova daquilo, Hércules deu ordem a Meioameio para voltar e verificar a existência da cinzinha. Meioameio partiu, e enquanto galopava para lá Emília "continuou a ver.

- Que beleza! - exclamou fazendo cara de admiração. - Estou vendo a maravilha das maravilhas... A cinza está se juntando... está tomando forma... É a fênix que renasce de suas próprias cinzas. Pronto! Está formadinha... Agora começou a experimentar as asas. Vai voar... Voou!...

Hércules estava de boca aberta. Que maravilha, aquela criaturinha! Enquanto isso Meioameio e o Visconde chegaram novamente ao ponto indicado e puseram-se a procurar cinzinhas. Nem sombra! Não havia nem cheiro de cinza - e voltaram desapontados.

- Nada encontramos, Hércules - disse Meioameio ao chegar; e o Visconde confirmou: - Não há lá nem sequer sombra de nenhuma cinzinha.

Emília deu nova gargalhada.

- Os bobos!... Como poderiam ter encontrado cinza, se quando vocês estavam no meio do caminho a fênix renasceu e lá se foi pelos ares? Queriam que ela ficasse parada, à espera dos dois sarambés?

Desse modo Emília embaçou a todos com a sua prodigiosa esperteza e até Pedrinho ficou na dúvida. "Quem sabe se é mesmo verdade tudo quanto ela disse?" Apenas um não duvidou da Emília: Hércules. Não duvidou naquele momento nem nunca. Ficara tão escravo daquela criaturinha, que era Emília dizer, era ele jurar em cima, como se ela fosse o próprio escudo da deusa Palas.

O incidente foi o assunto da conversa entre Pedrinho e Hércules, num momento em que os dois se afastaram do resto do bando.

- Emília faz coisas que atrapalham a gente - disse Pedrinho. - Aquela história da pulga que ela viu nas escamas do dragão de S. Jorge parece caçoada pura - mas quem sabe? Tudo é possível neste mundo. Esse caso da fênix, hoje. Ela veria mesmo a fênix incendiar-se e renascer das cinzas ou estava nos enganando? Impossível saber.

Hércules, porém, já não tinha a menor dúvida.

- Na minha opinião, viu. Ela contou tudo tão certinho...

- Ah, Hércules, você não conhece a Emília. É um dos maiores mistérios dos tempos modernos. Nasceu boneca de pano, feia e muda, feita lá pela tia Nastácia, e foi indo, foi "evoluindo", até ficar no que é.

Hércules não tinha vergonha de perguntar o que era quando não entendia alguma palavra, e perguntou o que queria dizer "evoluindo."

- Evoluir é mudar com aperfeiçoamento. Uma coisa que muda mas não se aperfeiçoa, não está evoluindo. A água dum rio está sempre mudando de lugar, mas não evolui; porque muda sem aperfeiçoar-se, entendeu?

Hércules fez um esforço para entender e parece que entendeu, pois disse:

- Nesse caso, eu também estou evoluindo. Minhas idéias estão mudando.

- Para melhor ou para pior?

- Para melhor...

5. Pã, o deus da Arcádia

A Arcádia tinha o seu deus especial. Os pica-pauzinhos ficaram sabendo disso depois do encontro dum velho viandante. Não era nenhum velho tonto, mas um grande velho do tipo "filósofo". O Visconde agarrou-o e não o largou o tempo inteiro, porque os sábios gostam de conversar com os sábios.

O principal assunto da conversa foram os deuses, e sobretudo o deus da Arcádia.

- Sim - dissera o velho em certo momento - esta Arcádia tão rústica tem um deus só dela: Pã.

O Visconde tinha suas noçõezinhas sobre Pã, mas ignorava os pormenores e a verdadeira especialidade desse deus. O velho viandante proporcionou-lhe uma aula sobre o assunto.

- Pã é o deus especial da Arcádia, o guardião destes rebanhos e o seu multiplicador. É também o protetor dos pastores.

- Veio do Olimpo? - indagou o Visconde.

- Não. Pã nasceu nestas paragens, e dum modo muito interessante. Certa vez Hermes, o mensageiro dos deuses, aterrissou por aqui, bem nos campos sagrados de Cilene, e se apaixonou loucamente por uma formosa ninfa. Apaixonou-se a tal ponto que se ofereceu como pastor a Driops, o pai da ninfa.

- Que graça! - exclamou Emília. - Ele, um deus do Olimpo, a empregar-se como pastor de ovelhas... e Pedrinho recordou o caso do Jacó da Bíblia, que por amor a Raquel, filha de Labão, contratou-se por sete anos como pastor das ovelhas do futuro sogro, e findo o prazo contratou-se por mais sete anos. Só assim conseguiu casar-se com Raquel.

- Pois com o deus Hermes aconteceu coisa parecida - disse o velho. - Teve de servir de pastor nos rebanhos de Driops para obter a mão de sua filha. Afinal casou-se - e o deus Pã foi o resultado desse casamento. Mas Pã nasceu com pés de bode e chifrinhos na cabeça. Todos se horrorizaram com o fenômeno, menos Hermes. Assim que o estranho menino nasceu, tratou de voar com ele para o Olimpo a fim de mostrá-lo aos seus companheiros de divindade. Embrulhou-o numa pele de lebre e lá se foi. Quando no Olimpo abriu a pele e exibiu o filhote, houve risadas e caçoadas - e deram-lhe o nome de Pã.

O deusinho de pés de bode foi crescendo aqui na Arcádia e ficou moço.

Mas muito feio, o pobre, com aqueles pés e aqueles chifres: As ninfas metiam-no a riso, o que o fez jurar que nunca em seu coração amaria mulher nenhuma. Mas certo dia Cupido travou com ele uma luta corpo a corpo e, apesar de ser apenas um menino, venceu-o. As ninfas que assistiram à cena deram grandes gargalhadas. E o pobre Pã não teve remédio senão amar.

- Com tia Nastácia também foi assim - berrou Emília. - Quando eu a espetei com uma das flechas de Cupido, levou as mãos ao peito, revirou os olhos para o céu e pôs-se a soltar suspiros de amor...

O velho também não entendeu aquilo, e continuou:

- Começou a amar, e logo depois encontrou a ninfa Sirinx, que só queria saber da caça e tinha recusado a mão de todas as divindades. Pã foi se chegando e dizendo que queria ser seu esposo. Sirinx não disse nada, saiu correndo por ali a fora - e Pã atrás. Mas como era um deus e os deuses correm mais que as ninfas, acabou alcançando-a lá adiante.

- E agarrou-a!...

- Ah, não!... Assim que a ia agarrando, Sirinx virou uma touceira de caniço...

Emília cochichou para Pedrinho: "Aposto que o tal caniço era taquara do reino."

- E dessa touceira de caniço começou a levantar-se um canto muito suave e queixoso. Pã c omoveu-se e cortou sete canudos de vários tamanhos; depois emendou-os em cera - e foi assim que nasceu a célebre flauta de Pã, instrumento que nunca mais ele iria abandonar e ficaria sendo o seu distintivo.

- Por que nunca mais abandonou essa flauta? - quis saber Emília, e o velho respondeu:

- Porque assim que a usava, fluíam de todos os bosques ninfas e mais ninfas, para dançar em redor dele. Entre essas ninfas havia uma de nome Pítis, que diante das músicas de Pã se mostrava mais enternecida que as outras. E vai então, e o deus feio sente de novo o fogo do amor a arder em seu coração. E tocando na flauta com maior sentimento ainda, vai andando, vai andando, rumo a um lugar solitário onde havia um alto rochedo. Lá se senta bem no píncaro e continua a tocar. Atraida pela música, Pítis vem vindo, e para melhor ouvi-lo senta-se a seu lado. Pã, coitado, perde a cabeça e faz-lhe uma declaração de amor. Mas a ninfa era a namorada de Bóreas, o terrível vento norte, o qual, enciumadíssimo, toma-se de grande furor e sopra uma rajada para cima deles.

- Bóreas soltou um pé-de-vento, eu sei! - disse Emília.

- E tão forte foi essa rajada que a pobre Pitis perdeu o equilíbrio e tombou do rochedo abaixo, despedaçando-se nas pedras. Os deuses lá no Olimpo, que tudo viam, apiedaram-se da coitadinha e transformaram os seus pedaços em pinheiros - um pinheiro que cresce entre pedras. Desde esse dia Pã tomou o pinheiro como a sua árvore e passou a andar com uma coroa de folhas de pinheiro enganchada nos chifres.

- Quer dizer que ele amava e não conseguia casar?

- Exatamente. Seu destino era nunca poder unir-se à criatura amada, como mais tarde no caso da ninfa Eco, filha do Ar e da Terra. Cada vez que Pã tocava, essa ninfa repetia as últimas notas lá longe. Pã voava para lá e tocava de novo - e Eco repetia de novo as últimas notas, mas sempre ao longe, como se estivesse mofando dele.

Emília deu uma risada gostosa.

- Deus mais bobo nunca vi! Pois não percebia que a tal Eco não era ninfa nenhuma e sim isso que chamamos eco? Conte aqui ao velho o que é eco, Visconde.

O sabuguinho explicou que eco era a reflexão dum som. "O som dá de encontro a um obstáculo e reflete, isto é, volta para trás."

O velho prosseguiu:

- Pois o deus Pã não sabia disso e levou muito tempo a correr atrás da ninfa Eco...

- E eu sei desse deus mais um pedacinho que você não sabe - disse o Visconde para o velho. - No reinado do imperador romano Tibério, reinado que vai ser a muitos séculos de distância-tempo daqui, o capitão de um navio ancorado num porto do Mediterrâneo ouvirá uma voz misteriosa que clamará: "O grande deus Pã morreu!" E desde aí ninguém mais ouvirá falar nele.

- Isso não sei - disse o velho - porque é coisa do futuro. Só sei que hoje o deus Pá ainda existe e continua a multiplicar os carneiros e cabras desta Arcádia, a proteger os pastores, e a perseguir a ninfa Eco com as melodias de sua flauta de sete canudos.

Depois contou o começo da história da ninfa Eco.

- Ah - disse ele - Eco havia se tornado tão faladeira e inventadeira de coisas, que a deusa Hera enfureceu-se e condenou-a a um castigo muito interessante: só repetir os últimos sons do que acabasse de ouvir. Desse modo a mentirosissima Eco parava de mentir, porque só podia repetir o finzinho do que ouvisse.

- Então foi daí por diante que ela virou eco - disse Emília.

O Visconde explicou que o som "eco" tem esse nome por causa da ninfa Eco e não o contrário, como supunha a Emília. O velho concordou e Hércules roncou.

Sim, porque durante toda aquela aula de mitologia o grande herói não fez outra coisa senão dormir e roncar. Estavam descansando à beira duma fonte, junto à floresta. Lá dos campos de pastagem vinham os "més" dos carneiros da Arcádia.

- Um dia em que Eco saiu à caça - continuou o velho - deu com um rapaz da mais perfeita beleza: Narciso filho do Rei Cefise. Imediatamente seu coração se encheu de amor - mas como declarar esse amor, se o castigo de Hera a impedia de falar antes dele? A coitada só podia repetir as últimas palavras que Narciso dissesse...

- Que horror! - exclamou Pedrinho.

- Só agora compreendo a crueldade desse castigo...

- Sim, o pior possível - concordou o velho - como a pobre Eco iria verificar. Narciso se perdera na mata e não vendo nenhum dos seus companheiros gritou: "Não há alguém por perto de mim?" "Mim" - respondeu Eco de trás dum rochedo. Narciso olhou em redor e não viu ninguém. "Se há" - gritou de novo, "então juntemo-nos!" E Eco, muito alegre, repetiu "juntemo-nos!" e apresentou-se aos olhos de Narciso. Mas o rapaz teve uma decepção. Esperava ver surgir um dos seus companheiros e o que apareceu foi a importuna e insistente ninfa. E repeliu-a, dizendo: "Pensa que eu te amo?" A pobre Eco foi obrigada a repetir o "eu te amo" final e fugiu no maior desespero. Desde então caiu em profunda tristeza e foi emagrecendo e se consumindo até ficar só ossos; quando chegou a esse ponto, Zeus transformou-a em pedra e deixou que sua voz ficasse no mundo a repetir as últimas notas dos sons refletidos.

Emília bateu palmas.

- Gosto dos gregos porque em tudo botam uma historinha. Para o Visconde e os sábios modernos o eco é a tal reflexão dos sons. Para os gregos é a voz da ninfa Eco transformada em pedra. Cem vezes mais lindo...

6. O Monte Erimanto

E foi assim, com paradas pelo caminho e conversas com viandantes, que o grupo alcançou a região onde se erguia o Monte Erimanto. Lá estava ele! Coberto de vegetação, mas listrado, de alto a baixo, como se grandes penedos houvessem descido pela encosta. Hércules explicou:

- Aquelas faixas de vegetação arrasada correspondem às decidas do javali rumo ao vale. Vejam que violência tem o ímpeto desse monstro...

Pedrinho observou que nos tempos modernos só os tanques conseguiam produzir efeitos assim - e teve um trabalhão para dar ao herói uma boa idéia do tanque.

- Mas que é que os puxa? - queria saber Hércules, e muito se admirou da resposta de Pedrinho: "Os tanques não são puxados, são empurrados de dentro por um grande número de cavalos invisíveis, chamados H. P."

Hércules ficou a cismar naquilo.

Muito bem. Estavam em face do Erimanto, o monte habitado pelo feroz javali. Tinham de conferenciar sobre o que fazer. A idéia de Hércules era avançar contra a fera e matá-la a flechadas ou golpes de clava, mas Pedrinho apresentou uma objeção:

- Mata e depois? Como vai provar ao Rei Euristeu que de fato matou o javali do Erimanto e não outro javali qualquer?

- Levo a pele - disse o herói.

- A pele! A pele!... Peles de javali não faltam no mundo. O rei tem direito de duvidar.

- Que devo fazer então?

- Levar o javali vivo!

Hércules coçou a cabeça e ficou a pensar. Depois pediu a opiniãozinha da Emília.

- E você que acha, Emília?

- Acho o mesmo que Pedrinho. Um javali vivo convence muito mais que uma pele de javali.

- E você, Visconde?

- Idem, idem - respondeu o Visconde - e explicou que esta palavra latina "idem" queria dizer "o mesmo." A Meioameio o herói nada perguntou, porque não dava muita confiança ao centaurinho. Refletiu mais uns minutos e resolveu:

- Pois fica assim. Não o matarei. Apanhá-lo-ei vivo. Mas como?

Aqui Pedrinho entrou com o seu jogo, mestre que era em armadilhas de caçador. Lembrou-se logo do mundéu.

- Só com mundéu, Hércules!

- E que é isso?

- O mundéu é um fosso de boa profundidade coberto de paus com uma camada de terra e folhas secas por cima. Constrói-se o mundéu no carreiro do animal, isto é, num caminho por onde ele tenha fatalmente de passar.

- E que acontece?

- Acontece que quando o animal vem pelo caminho, de repente pisa na tampa falsa do mundéu e tudo aquilo afunda para o buraco com ele junto.

O rosto de Hércules iluminou-se. Como era engenhosa e clara aquela astúcia!

- Sim - disse ele. - Adotemos o sistema, que parece ótimo - e encarregou Pedrinho de determinar o melhor ponto para a construção do mundéu.

Nada mais difícil, porque o mundo é grande e a caça perseguida pode passar por aqui, por ali ou por acolá. Como armar o mundéu na trilha certinha que a caça vai escolher?

Isso era trabalho de muita dedução, como os de Sherlock Holmes, e realmente deu serviço ao miolo dos três pica-pauzinhos. Em que ponto armar o mundéu? Pela faixa de vegetação amassada nas encostas do Erimanto via-se que o monstro não tinha carreiro certo. Ora rasgava a floresta num ponto, ora a rasgava em outro muito distante do primeiro. Como adivinhar? E estavam na maior indecisão, quando Emília resolveu o caso.

- Grandes bobos! - disse ela. Quando as coisas encrencam desse modo, vocês bem sabem que só há um remédio: aplicar o faz-de-conta - e tomando a frente do bando caminhou até certo ponto da encosta e disse com a maior segurança: "Faz de conta que é exatamente por aqui que a fera vai passar.

Hércules nada entendeu daquilo, e Pedrinho não quis entrar em grandes explanações. Apenas disse que o faz-de-conta era um sistema infalível, mas só aplicável como último recurso.

Determinado o ponto onde armar o mundéu, a tarefa de escavar o chão coube ao herói. Hércules lascou um tronco de árvore para fazer uma cavadeira, e com ela abriu, num instante, um enorme fosso de sete metros de largura por outros tantos de comprimento e profundidade - e chamou Pedrinho para ver se bastava.

- Sim - disse o menino, depois de medir com os olhos a fundura do fosso.

- Não há javali, nem animal nenhum, que vença sete metros no pulo.

- Como não? - contestou Emília. Qualquer tigre ou veado pula muito mais que isso.

Pedrinho explicou que realmente pulavam muito mais, porém aproveitando-se do impulso da carreira. Lá no fundo do fosso, sem espaço para correr e ganhar impulso, o animal pulador ficava como que sem pernas. Pedrinho era mestre em pulos. Emília concordou.

Depois de pronto o fosso, Hércules, sempre dirigido por Pedrinho, quebrou galhos e os foi colocando par a par sobre a boca do fosso. Em seguida jogou terra sobre aquela estiva e cobriu a terra com folhas secas. Pedrinho. colaborou na parte final da obra, consistente em deixar a camada de folhas secas "bem natural", de modo que o javali não desconfiasse. Emília chegou a espalhar por cima umas flores silvestres.

- Bom! - disse Pedrinho depois de armado o mundéu. - É preciso agora torcermos cordas bem fortes, por que temos de içar o bicho aí do fundo - e mandou Meioameio buscar embiras em quantidade. Eles já haviam torcido cordas na aventura da Corça de Pés de Bronze, de modo que o serviço andou depressa. Pedrinho precisava de quatro cordas, duas compridas e fortíssimas ou "cordas de guia", como as denominava; depois, uma menor para "peia" das patas do animal; e a última para a "focinheira". Hércules ficou sentado, a vê-lo preparar a peia e a focinheira, embora não compreendesse muito bem aquilo.

Prontas que foram as cordas, Hércules mandou-os ficarem escondidinhos numa gruta próxima. "Nada de trepar em árvores, porque esse javali derruba com a maior facilidade qualquer árvore." E depois que os viu bem abrigados, plantou-se atrás do mundéu e rompeu em berros de desafio ao javali, que evidentemente morava no topo do Erimanto.

- Porcalhão. Venha, se tem coragem! Aqui o aguarda Hércules, o herói invencível!...

O bobo do javali, lá no alto do Erimanto, caiu na asneira de ouvir aquilo e enfurecer-se. Está claro que não tinha a menor noção de quem fosse o tal Hércules, e no caso só viu um humano qualquer que tinha o topete de desafiá-lo, a ele, o javali invencível. E lançou-se com a maior impetuosidade na direção do desafio, arrasando a floresta em sua passagem. O barulho foi de avalancha. Grandes árvores estalavam e abatiam-se como se fossem débeis plantas de jardim.

Por via das dúvidas Hércules se mantinha de clava em punho, uma clava nova feita do melhor pau daqueles arredores. Mas à sua frente jazia bem oculto o mundéu de Pedrinho...

Quando o javali divisou o vulto de Hércules, faíscas de gana espirraram de seus olhos vermelhos - e ele avançou para o herói em linha reta. De repente tchibum! Pisou na tampa falsa e lá se foi para o fundo do fosso, de cambulhada com toda aquela paulama e folharia seca.

- Hurrah! - berrou Pedrinho ao ouvir o estrondo e, montado em Meioameio, partiu no galope de rumo ao mundéu. Lá estava o monstro a roncar e a debater-se, tonto da queda e sem a menor idéia do que lhe acontecera. Em seguida chegaram Emília e o Visconde, e ficaram todos à beira do fosso, a espiar o monstro colhido no mundéu.

- Cara de coruja! - berrava Emília. - Faça avalancha agora, se é capaz...

Depois de gozarem por algum tempo a fúria impotente e o desespero do javali, trataram de laçá-lo com as duas cordas compridas - e aí quem resolveu o caso foi o Visconde.

- Desça lá, e corra a laçada na pata do monstro - ordenou Pedrinho.

Ah, para essas proezas arriscadas o bom era sempre o Visconde, não só por não atrair a atenção da presa como por ser "consertável." Cada vez que lhe acontecia alguma, tia Nastácia tomava do paiol um sabugo novo e refazia-o. O Visconde era a fênix do Sítio do Picapau Amarelo.

Apesar de todo o seu medo, o sabuguinho desceu ao fundo do fosso e foi passando a laçada pelo pé do javali. O monstro bem que o viu, mas não ligou a mínima importância. Um animal naqueles apuros não liga importância a milhos.

Preso que foi o javali pelo pé, Hércules o suspendeu como os guindastes dos portos suspendem as grandes cargas; e quando as patas traseiras ficaram de jeito, Pedrinho amarrou a peia. Depois disse a Hércules:

- Deixe-o cair de novo no fundo do buraco. Temos agora de laçá-lo pelo pescoço e suspendê-lo de modo que eu possa colocar a focinheira.

E assim foi feito. Dessa vez não foi preciso o auxílio do Visconde. Depois de algumas tentativas com a laçada, Hércules colheu o javali pelo pescoço e puxou. Lá foi lentamente suspenso pelo guindaste hercúleo - e Pedrinho pôde ajeitar-lhe no focinho a engenhosa focinheira.

- Pronto! - gritou. - Pode sacá-lo fora duma vez, Hércules!

Com um puxão o herói sacou do fôsso o monstro peado e enfocinheirado. Meioameio segurava a ponta da outra corda, de modo que o bicharoco já nada podia fazer. Uma corda o mantinha dum lado e outra corda o mantinha do lado oposto. Mesmo assim o javali estrebuchou e corcoveou como burro bravo.

7. Rumo a Micenas

Depois de muito pinote e corcovo o javali do Erimanto compreendeu que era inútil resistir. Estava completamente frouxo.

- Bom - disse Hércules. - Podemos agora levá-lo a Micenas. Eu sigo na frente segurando-o pela corda do pescoço, e Meioameio segue atrás, segurando-o pela corda do pé - e foi assim que o tremendíssimo javali do Erimanto chegou a cidade de Micenas, com grande assombro da população e maior desapontamento do Rei Euristeu.

- Pronto, Majestade! - disse Hércules ao surgir diante do rei com a terrível fera na corda.

Euristeu, sentado no trono, tremeu de medo. E se aquelas cordas arrebentassem e o javali se lançasse contra ele? Mas não houve nada disso. Eumolpo deu ordem para a rápida construção duma jaula, e uma hora depois o javali do Erimanto estava solidamente engaiolado e exibido na praça pública às multidões curiosas.

A notícia desse Quarto Trabalho de Hércules correu pela Grécia inteira com a velocidade do raio. Desde Atenas até Esparta só se falava daquilo, e lá no Olimpo a deusa Hera teve um faniquito. Maldito herói! Pela quarta vez saía incólume duma terrível trama contra ele preparada. E a implacável perseguidora pôs-se a pensar em um novo trabalho, dessa vez bsolutamente acima das forças de qualquer herói. Qual seria? pensou, pensou... Depois sorriu e disse consigo: "Já sei!..." - e mandou Hermes, o mensageiro dos deuses, levar um recado a Euristeu.

Enquanto isso, Hércules e os pica-pauzinhos voltavam ao "camping" à beira do ribeirão. Lá encontraram tudo como haviam deixado. Ninguém ousara tocar em coisa nenhuma da casinha da Emília - ou do Templo de Avia...

No dia seguinte Hércules recebeu chamado urgente do palácio de Euristeu. Foi.

- Às ordens, Majestade!...

Euristeu estava risonho - sinal de que o nóvo Trabalho ia ser muito mais duro que os primeiros. Eumolpo, rente ao trono, babava-se de gosto.

- Hércules - disse Euristeu - muito bem te saíste na façanha contra o javali do Erimanto, e agora tenho nova incumbência a dar-te.

- Às vossas ordens, Majestade! - respondeu o herói humildemente.

Euristeu continuou no mesmo tom amável:

- Quero que vás ao reino de Augias visitar esse colega e que limpes as suas famosas cavalariças.

Hércules voltou ao "camping" muito apreensivo. "Que será? Que me reservará a mim o Rei Augias?" E quando Pedrinho lhe perguntou qual ia ser o Quinto Trabalho, respondeu:

- Uma visita, meu caro! Apenas uma visita e umas vassouradas. Euristeu encarregou-me de ir ter com o Rei Augias e de lhe limpar as cavalariças.

- Quem é ele?

- Um rei possuidor de inumeráveis rebanhos de cavalos...

- Só isso? Só fazer a limpeza?

- Só...

8. A Fuga do Javali

Que linda a manhã do dia seguinte!

O carro de Apolo galopava no campo azul do céu sem nuvens. Hércules, depois do banho no ribeirão, chamou Pedrinho para debater a viagem ao reino do Rei Augias. E estavam nisso quando um mensageiro a cavalo apontou ao longe. Vinha no maior dos galopes.

- Que será? - murmurou Pedrinho.

O cavaleiro chegou e apeou bem diante deles. Estava quase sem fala.

- Que há, homem? - perguntou Hércules.

O mensageiro tomou fôlego e falou entrecortadamente:

- Há... há que o javali... arrebentou a jaula e fugiu...

- Fugiu?

- Sim... Fugiu e está fazendo os maiores estragos na cidade...

Investe contra toda gente e estraçalha os que pega... Os guardas do rei atacaram-no, mas em vão... Sua Majestade Euristeu não sabe mais o que fazer e manda pedir socorro a Hércules...

O herói pôs-se de pé e correu em busca da clava. Depois pendurou a tiracolo o carcás de flechas e tomou o arco.

- Pois vamos ver isso! - gritou e foi correndo para a cidade.

Os pica-pauzinhos ficaram tontos por uns instantes, sem saber o que fazer. Depois decidiram-se. Tinham de acompanhar o seu amigo Hércules. Meioameio já estava pronto para recebê-los no lombo.

O cavalo do mensageiro, assustadíssimo de ver o centauro, havia disparado por aqueles campos a fora. O pobre homem ficou a pé.

- Monte aqui na garupa! - gritoulhe Pedrinho, e ajudou-o a colocar-se na garupa do Meioameio. E o centauro, com aquela penca de gente no lombo, lá se foi no galope rumo a Micenas.

Ao entrar na cidade, Hércules dera com a população tomada de verdadeiro pânico. Uns escondiam-se nos porões, outros trepavam ao telhado das casas.

Depois que os guardas do rei foram destripados pelas terríveis presas do javali, ninguém mais ousava atacá-lo. Só pensavam em fugir ou esconder-se.

- Onde está ele? - perguntou Hércules ao ministro Eumolpo, que avistou a tremer de medo em cima do telhado do palácio.

- Na praça do mercado! - gritou o ministro.

Hércules encaminhou-se para a praça do mercado, e já de longe avistou o monstro fazendo os maiores estragos nas verduras. Em seu redor havia muitos cadáveres de guardas destripados, alguns ainda vivos e gemendo de cortar o coração.

- Espera que te curo! - rosnou Hércules, firmando a mão no cabo da clava e avançou.

O javali reconheceu-o. Largou as verduras e levantou a cabeça, os olhos já chamejantes de cólera. Ia destroçar aquele imprudente herói como havia destroçado os guardas do rei.

Nesse momento Meioameio, que viera em desapoderado galope, entrou na praça, de modo que os pica-pauzinhos puderam assistir à batalha.

E que batalha tremenda foi! O javali investiu contra Hércules e Hércules o esperou com a clava erguida.

- Chegamos a tempo de assistir ao primeiro round! - berrou Pedrinho pondo-se de pé no lombo do centauro.

- Aposto que no primeiro golpe já Hércules o abate.

Mas não foi assim. O golpe do herói pegou a fera em pleno crânio, mas parece que o crânio do javali era de aço. A clava rachou pelo meio...

- A clava rachou - berrou Emília e o monstro nem deu sinal de sentir. Só com flechas. Hércules que recue e...

Foi o que Hércules fez. Dando um tremendo salto para trás, colocou-se a vinte metros do javali, de modo a poder ajeitar no arco uma flecha. Esticou a corda e zás!... A flecha espetou no toitiço do monstro, mas não cravou fundo, nem alcançou centro vital. Apenas serviu para enfurecê-lo ainda mais - e o javali investiu para cima do herói com o ímpeto de uma bomba voadora.

Hércules deu outro salto para trás e despediu segunda seta, a qual não produziu maior resultado que a primeira.

O javali deu um bote traiçoeiro e quase apanhou o herói com suas presas afiadíssimas.

Eumolpo, lá de cima do telhado, estava radiante. "Desta vez Hércules está perdido. O javali vai dar cabo dele" e gritou para o Rei Euristeu, que a tudo assistia do balcão do palácio: "A clava de Hércules falhou e as flechas também estão falhando. Tudo vai indo otimamente."

Euristeu, lá no balcão, sorriu.

A situação de Hércules não era boa, e isso porque na pressa de partir lá do acampamento errara na escolha das flechas, pondo no carcás justamente as de que Emília tinha arrancado a ponta. Só depois de haver lançado a segunda seta é que o herói percebeu a causa do desastre. Desastre, sim, porque nunca em sua vida de herói acontecera semelhante coisa: lançar duas flechas contra um corpo de animal e não vê-lo cair estrebuchando. E se estava sem as suas famosas flechas tão mortais, que fazer? E Hércules suou frio.

Súbito, Pedrinho empalideceu.

- Estou compreendendo tudo! Ele está lançando contra o monstro justamente as flechas que Emília "humanizou." E agora? E voltando-se para Emília:

- E agora, sua mexedeira? Sem clava e sem flechas de ponta o nosso amigo Hércules está desarmado...

Emília assustou-se. Seu coraçãozinho pulou como cabrito lá dentro do peito. O remédio era um só: recorrer ao faz-de-conta. E ao ver Hércules lançar contra o monstro a terceira seta, gritou:

- Faz de conta que essa é de ponta!

Remédio milagroso! A seta cravou-se no toitiço do javali ao lado das outras duas, mas com um efeito muito diferente. O monstro dá um urro, revira os olhos e descai sobre as patas traseiras como um animal descadeirado. Depois afocinhou. Estava vencido...

- Hurrah! Hurrah!... - berrou Pedrinho - e de cima de todos os telhados hurras delirantes estrugiram. E Emília cantou o "Avé! Avé! Evoé..." que ela não sabia o que significava, mas achava um grito muito próprio para ocasiões assim.

Os micenianos escondidos no fundo das casas ou abrigados em cima dos telhados começaram a afluir à praça e breve uma grande multidão se juntou em redor do javali morto. Cada um dizia uma coisa ou dava uma idéia. Súbito, um boato entrou a circular: que Hércules andava associado a uma pequenina feiticeira dotada de forças maravilhosas. O rumor tivera origem na mexericagem do homem que viera na garupa de Meioameio; de lá assistira ele a toda a luta e ouvira o grito mágico da Emília: "Faz de conta que essa é de ponta."

- Sim, foi ela! - dizia o homem para o povo. - Eu vi tudo muito bem. Só depois de seu grito mágico é que as flechas de Hércules voltaram a ser mortais. Antes disso espetavam o javali e não lhe causavam o menor dano - e surgiu a idéia de uma manifestação popular à estranha criaturinha.

Aqueles rumores não tardaram a chegar aos ouvidos do rei, o qual, furioso com a intervenção da pequena feiticeira, deu ordem aos seus guardas para que a prendessem. Vendo as coisas nesse ponto, Pedrinho tomou uma resolução de verdadeiro chefe.

- Toca para o acampamento e na volada! - gritou. - Já, já!... - e o centaurinho rompeu no galope. Minutos depois todos apeavam muito contentes junto ao Templo de Avia.

- Não gosto de povo nem de reis - disse Pedrinho. - É com a maior facilidade que eles passam dum extremo a outro. Nada como este nosso isolamento aqui, bem guardados como estamos pela clava de Hércules e pelo nosso amigo centauro. Mas... que fim levou Hércules?

Pedrinho olhou em todas as direções e não viu sinal do herói. Súbito, Emília gritou: "Lá stá ele!... Vem saindo da Floresta."

Sim. Hércules vinha saindo da floresta, onde se internara a fim de escolher madeira para uma nova clava.

- Bom! - exclamou Pedrinho já sossegado. - Se Hércules está conosco, nada mais temos a temer.

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