Poemas de Stéphane Mallarmé

poemas de Stéphane Mallarmé

O VIVO, O VIRGINAL, O BELO DIA DE HOJE 

O vivo, o virginal, o belo dia de hoje 
Por nós há de romper com um golpe de asa louca 
Este olvidado e duro lago sob o qual 
Assombra o diáfano glaciar dos voos frustros? 

De outrora um cisne vem lembrar-se de que é ele 
Magnífico mas que sem alento se solta 
Por não haver cantado a região onde vive 
Quando o tédio do inverno estéril resplendeu. 

Seu colo agitará essa branca agonia 
Pelo espaço infligida ao pássaro que a nega, 
Mas não o horror do sol que prende suas plumas. 

Fantasma que o seu brilho a este lugar destina, 
Se imobiliza ao frio sonho do desprezo 
Que em meio ao seu exílio inútil veste o Cisne. 


DOM DO POEMA

Entrego-te a criação de uma noite idumeia [1]!
Negra, de asa sangrenta e fraca, desplumada,
Pelo vidro, queimado entre perfumes e ouro,
Pelo caixilho frio, ai!, entretanto morno,
A aurora se lançou sobre a lâmpada angélica.
Palmas! E, quando revelou essa relíquia
Ao seu pai ensaiando um sorriso inimigo,
A solidão estremeceu azul e estéril.
Ó canção de ninar, com tua filha e a inocência
De teus pés frios, saúda um terrível nascer:
E, tua voz lembrando a viola e o clavecino,
Com o dedo enrugado apertarás teu seio,
Por que flua a Mulher em brancor sibilino
Ao lábio a que dá fome o ar do virgem azul?


[SONETO EM YX]

De unhas puras ao ar dedicando os seus ônix,
A Angústia, à meia-noite, alteia, lampadófara,
Vesperais sonhos requeimados pela Fênix,
Que ânfora cinerária alguma há de apanhar.

Sobre a credência, a sala nua: nenhum ptyx,
Extinto bibelô de inanição sonora
(Porquanto o Mestre foi colher prantos no Styx
Com esse único objeto onde o Nada se honora).

Mas, junto à cruz-moldura aberta ao norte, um ouro
Agoniza talvez segundo esse ornamento
De unicórnios a atear fogo contra uma ninfa,

Ela, defunta nua em pleno espelho, ainda
Que, no enquadrado esquecimento da moldura,
Se fixa de cintilações tão logo o séptuor. [2]


A TUMBA DE EDGAR ALLAN POE

Tal que em Si-Mesmo enfim a eternidade o muda,
O Poeta suscita erguendo um gládio nu
Seu século assustado em não ter percebido
Que triunfava a morte em tão estranha voz!

Num espasmo de hidra, eles, ouvindo já o anjo
Dar sentido mais puro às palavras da tribo,
Gritaram alto que o feitiço foi bebido
Na corrente de um negro e desonroso engano.

Se a nossa ideia pode algum baixo relevo
Do hostil solo e da nuvem, ó pesar!, esculpir
Com que a tumba de Poe ofuscante se adorne,

Calmo bloco aqui vindo de um desastre obscuro,
Que este granito imponha sempre o seu limite
Aos negros voos do Blasfemo no futuro.


O AZUL

Do sempiterno azul a serena ironia
Como as flores oprime indolentes e belas,
O poeta impotente a maldizer seu gênio
Através de um deserto estéril de tormentos.

De olhos fechados fujo, e o sinto escrutinar
Com a intensidade de um remorso destruidor,
Meu ser vazio. Aonde fugir? Que noite horrenda
Lançar, em trapos, sobre o seu desdém brutal?

Subi, névoas! Vertei vossas cinzas monótonas
Com farrapos de bruma estirando-se aos céus
E escurecei assim os pântanos do outono,
No alto estendendo um teto enorme e silencioso.

E tu, levanta-te dos poços leteanos
E, apanhando bambus e lama às suas margens,
Querido Tédio, obstrui, com a mão incansável,
Esses grandes e azuis rasgões que as aves fazem.

Ainda mais! Que sem trégua as tristes chaminés
Cuspam fumaça, e uma masmorra de fuligem
Extinga, sob o horror de suas negras presas,
O áureo sol que se vai morrendo no horizonte!

– Morto é o Céu! – Para ti, matéria, agora eu corro:
Dá o olvido do Ideal cruel e do Pecado
A este mártir que vem compartilhar o leito
Onde o alegre rebanho humano está deitado.

Pois aí quero – que enfim meu cérebro, esvaziado
Como o pote de azeite ao pé de uma parede,
Perdeu a arte de atrair a soluçante ideia –
Bocejar tristemente ante um final obscuro...

Em vão! O Azul triunfa! Eu já o escuto cantar
Nos sinos. Faz-se voz também minha alma, por
Amedrontar-nos mais com a vitória iníqua,
E um ângelus azul sai do vivo metal!

E rola, antigo, em meio à bruma, e cruza o teu
Nativo agonizar, como um gládio pontudo;
Aonde irei, na revolta inútil e perversa?
Sou assombrado. O Azul! O Azul! O Azul! O Azul!


ANGÚSTIA

Não venho aqui vencer, ó besta, nesta noite,
Teu corpo cheio dos pecados de uma raça,
Nem pôr no teu cabelo uma procela triste,
Sob o tédio fatal que os meus beijos infundem:

Peço-te um sono bruto e sem sonhos, entrando
Através dos dosséis alheios ao remorso –
Que tu gozas após tuas negras mentiras,
Tu que do Nada sabes mais que os próprios mortos.

Porquanto o Vício, a roer minha inata nobreza,
Marcou-me, como a ti, com a esterilidade;
Porém enquanto o teu pétreo seio resguarda

Um coração que crime algum pode ferir,
Fujo com o meu sudário, assombrado e vencido,
Com medo de morrer quando durmo sozinho.


(Traduções de Renato Suttana)

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